Estrelado por Jan Ployshompoo e JingJing Yu, o novo GL conquistou o público ao transformar o clássico jogo de gato e rato em uma comédia romântica leve e madura. Ao colocar duas coordenadoras em pé de igualdade e debater as pressões do ambiente corporativo, a comédia romântica prova que o subgênero enemies to lovers ainda tem muito fôlego para surpreender e ditar os rumos das produções tailandesas.
Por Carolina Luz Paulo
Exibido aos domingos pela GMMTV em seu canal oficial do Youtube entre maio e julho de 2026, Enemies with Benefits (ลัลล์ไม่ชอบไวน์, algo como “Lal não gosta de vinho”) terminou como um dos GLs tailandeses mais comentados do ano. Baseada na obra de Snow Leopard, a série teve direção de Tawan Charuchinda e Arisa Wawwanjit, produção em parceria com a Snap25 e dez episódios que foram exibidos aos domingos.
A premissa é direta: duas colegas de trabalho que vivem em guerra declarada no escritório firmam um acordo secreto de “friends with benefits” e, para esconder a relação, já que a empresa tem uma política rígida sobre relacionamentos amorosos entre colegas, precisam fingir que continuam inimigas. É a partir dessa contradição que o roteiro constrói humor, tensão e, aos poucos, afeto.
A partir daqui, vale sempre lembrar: essa crítica terá spoilers do enredo da trama.
Lal e Wine: dois pesos, uma medida?
Lal é a personagem que sustenta a família, resolve tudo e assume todas as responsabilidades. Otimista e sempre para cima, ela esconde inseguranças por trás do sorriso e não gosta de se indispor. Mas o que a define é a força das suas convicções, e a série deixa isso claro em situações bem diferentes.

No trabalho, Lal protege a própria equipe mesmo quando o time falha. Ela reconhece os erros, mas não abandona ninguém e segue apoiando quem está sob sua responsabilidade. A mesma postura aparece no romance. Ela entra na relação concordando com o acordo estipulado por Wine, ainda tentando se entender, mas, ao perceber que os sentimentos estão se desenvolvendo, assume uma postura resoluta. Quando Lal constrói uma convicção, ela vai atrás.
Wine, por outro lado, tem uma aura de inacessível, mas a série a apresenta o tempo todo como alguém competente e certeira. Pela própria definição da personagem, ela é do tipo que estuda a fundo aquilo que não conhece para que todos no trabalho possam trabalhar da melhor forma. Séria e reservada, também guarda traumas, revelados ao longo da trama.

Se Lal carrega o peso da responsabilidade com a família, Wine lida com questões de imagem muito específicas, que a série faz questão de mostrar. Como contadora, ela ouve que não deveria usar determinados tipos de roupa nem maquiagem, como se a aparência definisse a seriedade do seu trabalho.
O roteiro também aborda o assédio que a personagem sofreu. Quando Wine leva o assediador ao RH, ela é quem acaba tendo que deixar a empresa. A cena escancara como as instituições podem proteger o agressor e punir quem denuncia, e levanta uma discussão importante sobre a atenção necessária a essas questões, principalmente no ambiente corporativo.
Wine também é uma personagem de convicções fortes, e é aí que a convivência com Lal faz diferença. Essa firmeza sempre esteve lá, mas Lal ajuda a trazê-la para fora: apoia Wine a lidar com as questões de imagem e a confiar mais nas próprias crenças. Mas não sem antes transpor o conflito que pensamentos diferentes podem causar em uma relação. No fim do arco, ambas personagens encaram a vida com bem mais segurança do que no início. A série não deixa de ser leve e divertida por causa disso. Ela apenas esboça essas complicações dentro de uma comédia romântica, sem pesar o tom.
O contraste entre as duas aparece também na rotina do escritório. Lal é mais flexível e levemente desatenta, e a consequência são as repreensões constantes de Wine, sempre muito crítica e detalhista, que obrigam Lal a refazer relatórios, geram cenas divertidas e que aumentam a tensão e química do casal.
Apesar disso, Lal não é uma pessoa irresponsável ou inconsequente: ela assume os próprios erros e os da equipe. É esse contraste que faz o público se apaixonar logo de cara pelas personagens e que gera cenas mais íntimas que agradam a todos, trazendo um fast burn divertido, mas não impecável.
Uma relação entre iguais
O trope enemies to lovers costuma ser tratado com pressa, mas aqui a construção é bem desenvolvida. A relação nasce de um interesse sexual e só depois evolui para uma intimidade real, em que as duas passam a se conhecer, confrontar suas próprias convicções e se cuidar. A progressão faz sentido dentro da história e dá peso emocional ao que começou como um acordo casual.
Outro ponto interessante é o equilíbrio na dinâmica de poder. Lal e Wine são coordenadoras de equipes e chefes de departamento, ou seja, ocupam posições hierárquicas equivalentes. Isso é pouco comum nas narrativas sáficas ambientadas em escritórios, que costumam colocar chefes se relacionando com estagiárias ou pessoas em níveis mais baixos da hierarquia, aumentando assim a relação de poder. Ao escolher desenvolver o romance entre duas iguais, a série abre espaço para trabalhar a relação de outra forma, com embates entre pessoas de visões diferentes e momentos únicos que o gênero ainda não tinha explorado.

Linguagem visual, cenários e humor
Outro dos fatores mais interessantes de Enemies with Benefits é a dinâmica da sua cinematografia, que traz novidades pouco vistas nos GLs até aqui. A paleta aposta em cores fortes e saturadas, com contraste cromático marcante entre cenas e ambientes, e essa identidade visual se mantém até o fim. A edição de som, que reúne sonoplastia e trilha sonora, acompanha o tom de comédia e marca o ritmo das cenas. Nos três primeiros episódios, a decupagem ainda combina cortes ágeis, ângulos variados e movimentos de câmera, além de recursos de animação, que dão dinamismo e movimento às cenas e à narrativa. O resultado é um GL mais leve, divertido e com surpresas visuais agradáveis.
Essa montagem do começo da série reforça uma narrativa dinâmica e enérgica. Com cortes rápidos e, em alguns momentos, o uso de tela dividida (split screen), a trama demonstra a diferença de temperamento e o embate entre as duas protagonistas. Outro bom exemplo é a cena inicial do primeiro episódio em que vemos Lal e Wine acordando juntas e na mesma cama, atrasadas para o trabalho. Quando chegam separadas e se reencontram numa reunião entre equipes, descobrimos que as personagens entram em conflito direto. Para quem chega sem spoilers, essa estrutura inicial gera uma surpresa interessante e leva a seguinte pergunta: “Como assim, elas são inimigas?”. Começar a história dessa forma é uma escolha interessante e traz um efeito surpresa que dá vontade de seguir na narrativa para descobrir o que acontecerá ao longo dos episódios.
Vale notar que a movimentação de câmera e as animações aparecem com mais força até o episódio 3. A partir daí, a série segue com cor e contraste marcantes, mas com um dinamismo menos ousado, e seria bom ver esses recursos com mais frequência ao longo do GL.
Os cenários reforçam a verossimilhança. A casa de Lal parece, de fato, a casa de alguém da área de comunicação e marketing, enquanto o apartamento de Wine tem seu charme organizado e entrega o gosto da personagem pela estética japonesa. Esses detalhes contam quem elas são sem precisar de diálogo.
O humor, por sua vez, é leve e funciona sem forçar a mão nem cair no piegas. A série sabe rir de si mesma e usa a comédia para aliviar os momentos mais densos.
Onde a narrativa tropeça
Até o arco final, os episódios têm um ritmo redondo e uma estrutura compacta. A quebra acontece quando o roteiro passa a conduzir os conflitos por meio de personagens masculinos. Primeiro vem Korn, chefe de relações públicas da empresa, que desvia clientes escondido para outra empresa, trama que ocupa tempo demais e afasta o foco do casal. Depois, o assediador de Wine reaparece na nova empresa, onde ela trabalha ao lado de Lal, e a chantageia. A coincidência soa forçada, e o tema do assédio, tão importante, perde parte do peso que poderia ter. Para uma estrutura tão enxuta, o conflito e, principalmente, a sua resolução, se tornam frágeis.
Outro ponto é a repetição de alguns elementos narrativos ao longo dos arcos, como os erros contínuos da equipe de Lal, em especial da Numnim. Isso faz com que Lal precise aparecer várias vezes para salvar o time. Ou os “salvamentos de Wine”, em alguns momentos que talvez a própria personagem pudesse lidar sozinha com a situação. Nos episódios iniciais, a flexibilidade e o senso de responsabilidade de Lal são construídos e apresentados nesses exemplos. Mais adiante, é um fator que implica no ritmo do roteiro como um todo e limita a evolução de alguns personagens ou casais secundários, como Proud e Tangkwa, que também conquistaram o público.

Recepção e saldo final
O desempenho da série foi acompanhado de perto pela imprensa de entretenimento tailandesa. O PPTV Online chegou a descrever a produção como um dos GLs de maior destaque do ano, elogiando a química entre Jan e JingJing.
E o engajamento do público seguiu em alta até o fim. Durante a exibição do episódio final, em 5 de julho, a GMMTV anunciou um episódio especial, intitulado Married to My Enemy. Em plataformas internacionais de avaliação, como o MyDramaList, a série mantém nota alta, e parte do público a considera um dos GLs mais bem construídos da Tailândia.
Em relação às produções anteriores da GMMTV, Enemies with Benefits representa um passo adiante e abre boas perspectivas para os próximos GLs do canal. Não é à toa que a série conquistou o público. Ao longo dos episódios, as duas protagonistas evoluem em seus dilemas internos e, com isso, na relação como um todo. Lal percebe que não precisa se responsabilizar por tudo nem agradar a todos para se sentir validada. Wine redescobre a segurança em relação à própria imagem, entende que o cuidado e a entrega ao outro não vão perpetuar os erros do passado, e que não precisa se anular para ser aceita.