O agridoce desfecho de Loquinha após uma revolução triunfal – Crítica “Três Graças”

Crítica Novela
Por Marina Fiorani

Na mitologia grega, Ícaro é o filho do genial arquiteto Dédalo, ambos exilados no Labirinto do Minotauro, em Creta, após o pai ser acusado de assassinar seu sobrinho. Com penas de pássaro, madeira e cera de abelha, Dédalo fabrica dois pares de asas, para que ele e o filho possam escapar da ilha em segurança. Ao alçarem voo, o inventor dá um único conselho a Ícaro: que não voe tão perto do mar, para não molhar as penas, mas também não tão perto do sol, para que a cera de abelha não derreta. No entanto, movido pela imprudência e pelo excesso de confiança que só crescia conforme o voo avançava, Ícaro se descuida, e deixa que as asas peguem fogo justamente quando alcança seu objetivo. O jovem acaba por despencar para a morte no oceano, deixando o pai a viver inconformado com o seu fim.

Nos últimos dois meses, pode-se dizer que o público de “Três Graças”, principalmente a comunidade LGBTQIAP+, esteve familiarizada com essa sensação de ter o êxito ao alcance de suas mãos, mas senti-lo escorrer dolorosamente por entre seus dedos como cera derretida. A obra tem sido celebrada sem moderação desde seu lançamento, principalmente com o avanço do relacionamento entre Lorena e Juquinha, o casal lésbico que conquistou o coração de multidões de fãs de diversos estados e países por seu desenvolvimento cuidadoso, interpretação sensível e atenção aos detalhes. Ter esse tipo de representatividade lésbica escancarada na maior emissora da América Latina em pleno horário nobre, após tantos anos de censura e apagamento de nossas vivências, de fato assemelhou-se ao primeiro respiro de ar fresco após décadas de isolamento; mas as decisões tomadas para a conclusão da novela deixaram um sentimento controverso que coloca o alívio e a resignação da audiência em braços opostos da balança.

A história das personagens vividas por Alanis Guillen (Lorena Ferette) e Gabriela Medvedovsky (Juquinha/Eduarda Fragoso) atraiu uma massa de admiradores deslumbrados que demonstraram uma devoção quase instantânea pelo casal. Desde o primeiro encontro de Loquinha (nome atribuído ao ship através da junção dos nomes das personagens), em novembro, era comum escutar de diversos fãs e profissionais do audiovisual que “Loquinha é o Rei Midas da Rede Globo: tudo que toca vira ouro”, considerando que se tornou assustadora a diferença de engajamento entre qualquer postagem da emissora e um conteúdo que meramente mencionasse o casal. De fato, a  repercussão formidável do romance entre Lorena e Juquinha não se limitava aos telespectadores: o fenômeno logo chamou a atenção de marcas e especialistas no setor da comunicação, e até o feed do LinkedIn foi rapidamente tomado por análises acerca da potência da comunidade massiva de fãs e da astúcia do time digital da Globo em estabelecer conexões valiosas com esse grupo.

Inquestionavelmente, a jornada de Loquinha foi emocionante e um marco irreversível na teledramaturgia brasileira. São infindáveis os pontos positivos a se destacar na trajetória do que se tornou um dos casais ficcionais mais amados de todos os tempos. É de consenso geral que os meses iniciais da novela, que introduziram ao público as histórias e dilemas individuais de Lorena e Juquinha antes de apresentá-las como um casal, foram essenciais para que os noveleiros se encantassem genuinamente por elas. As personagens existiam com propósito, motivações próprias e papéis importantes em suas respectivas tramas, e se já eram queridinhas da audiência antes de se conhecerem, a consolidação do namoro entre a ativista e a policial fez as duas se tornarem um fenômeno imbatível no momento certo: o enredo de “Três Graças” já tinha como base o protagonismo feminino, abordando a história de três mulheres que foram mães solo na adolescência; e a trama principal caminhava brilhantemente num ritmo viciante, costurando com maestria o restante dos núcleos que pareciam sempre trazer uma mulher como força motriz, fosse entre as mocinhas ou com as vilãs. 

Em harmonia com esse contexto, Lorena e Juquinha brilhavam sob os holofotes com sua narrativa doce e autêntica, que deleitou os fãs também por não trazer uma figura masculina para intermediar suas questões ou questionar sua orientação sexual, o que, inclusive, não foi um tema central na trama, diferentemente de outros casais anteriores a elas. Também nunca existiu em seu percurso a ideia de um triângulo amoroso, ou um momento em que o interesse romântico entre as duas ficasse restrito às entrelinhas. A história do casal foi vibrante, declamada em voz alta e impossível de ser ignorada durante a maior parte da obra; e fica fácil entender o fascínio que justificou o lançamento do spin-off “Loquinha: uma novelinha Três Graças”, focado inteiramente no romance de Lorena e Juquinha. 

De modo geral e como já mencionado em publicações anteriores, o amor entre as personagens foi um momento de reparação e de comemoração intensa ao  representar um poderoso ponto de virada histórico no que compete à representatividade lésbica no audiovisual; e presenteou as fãs do projeto com memórias e transformações valiosas em suas jornadas pessoais. Mais uma vez, a redação do Lesbocine convidou quatro fãs das obras para nos concederem seu olhar sobre esse impacto e suas opiniões gerais sobre os acontecimentos, agora que a novela chegou ao fim*. Os “efeitos colaterais” positivos trazidos por “Três Graças” são muitos, e isso fica evidente em diferentes esferas quando conversamos com as entrevistadas: “Acho que nem eu esperava e imaginava que precisava tanto delas na minha vida”,  conta Lexie Oliveira, 26, que mora em São Paulo. “Eu cresci nesse mundo das novelas e cresci numa sede muito forte de representatividade feminina. No caso, de casais femininos se amando. Sem censura (…). Sempre que uma representação no audiovisual torna esse assunto ainda mais rotineiro, eu me sinto cada vez mais confortável.”, reflete sobre a reverberação da obra.

A curitibana Cecília Oliveira, 20, conta que uma das melhores consequências foi o conforto em poder assistir às cenas com os pais: “Mesmo sendo assumida pra eles, eu ainda tinha receio de demonstrar carinho e afeto pela minha namorada na presença deles, justamente por não ser algo que eles estavam acostumados a ver; mas depois de Loquinha, vendo eles acompanhando aquilo todos os dias na TV, eu senti que ganhei mais coragem”. Já Matilde Vasconcelos, 27, natural de Porto, em Portugal, se aprofunda na mudança que sentiu dentro da própria postura assistindo às vivências do casal serem tratadas com tanta naturalidade: “Um dos impactos mais claros em mim foi, por exemplo, a facilidade que ganhei em dizer a palavra lésbica. Percebi que até então eu ainda tinha tendência a sussurrá-la em alguns ambientes, que ainda a associava àquelas vezes em que a tinha ouvido como se fosse um insulto. Hoje em dia, uso-a sem medo e vejo que, se alguém ficar desconfortável com isso, são eles que têm que lidar com esse desconforto. É um sentimento de empoderamento muito bonito”. 

Durante o período de gravações, a equipe e o elenco da novela mencionaram em algumas ocasiões o papel social da teledramaturgia em entrar nas casas das pessoas para ampliar discussões, e pensando nos incontáveis relatos de telespectadores e de suas famílias, é possível dizer que esse propósito foi atingido com sucesso. Alguns momentos marcantes e de repercussão avassaladora do casal incluíram a graciosa cena do pedido de namoro por parte de Lorena; e a delicada cena da primeira vez das duas, que também foi a primeira cena de sexo entre duas mulheres já exibida na emissora, e se consagrou como um divisor de águas arrebatador que levou a novela à sua melhor semana de audiência até então. Ficou evidente que a Rede Globo tinha encontrado uma mina de ouro nas fãs da dupla, e o cenário de euforia constante perdurou por longos meses, marcados por expectativas intensas e uma celebração quase incrédula visível nos olhos de todos os envolvidos no fenômeno. Não é de se estranhar a surpresa, portanto, quando a tão prestigiada novela passou a limitar bruscamente as aparições das personagens, desviando, inclusive, o rumo de sua história que outrora fora tão apaixonante, até que a essência se tornasse irreconhecível no último capítulo. 

O desconforto do público começou a se manifestar pouco após a estreia do spin-off, quando as fãs passaram a comentar que o contato físico entre a ativista e a policial parecia estar mais contido nas cenas da obra principal. As críticas apareciam de forma descontraída, em vídeos bem humorados nas redes sociais que comparavam a novela ao universo do microdrama vertical. Contudo, a redução perceptível do tempo de tela do casal instigou um descontentamento e um receio antigo numa comunidade já tão calejada pela censura, especialmente com o afastamento de Lorena Ferette, que antes tinha uma participação muito mais ativa no confronto com seu pai, o vilão da trama. Suas aparições mais limitadas, sem elementos narrativos na obra que justificassem a falta da personagem, despertaram a atenção de uma fanbase que, a essa altura, já era volumosa, barulhenta e rompia fronteiras internacionais. 

Postagem da TV Globo incentivando o engajamento dos fãs em troca de vídeos exclusivos Reprodução: TV Globo no X

O que levou a Rede Globo a seguir por esse caminho ainda é incompreensível, visto que mais da metade da novela já havia sido exibida, e o apreço de um público considerado muito crítico e explosivo já tinha sido conquistado, com o bônus de uma lealdade plena e um engajamento sem precedentes. Fosse essa a intenção, a receita para alcançar números surpreendentes e atingir recordes astronômicos era comprovadamente simples, e tudo o que a comunidade de fãs mais engajada da obra pedia em troca de sua dedicação constante era o respeito e o cuidado com a história que os encantou profundamente desde a primeira troca de olhares entre Lorena e Juquinha. As decisões seguintes acerca do futuro das personagens foram uma amarga decepção para um grupo que cresceu traumatizado por ter suas experiências tratadas com tanta indiferença, e que já tinha depositado, de bom grado, sua confiança na nova história que era escrita.

Optar por consagrar a união de Lorena e Juquinha através de um casamento duplo, em conjunto com Viviane e Leonardo, irmão de Lorena, já teria sido uma escolha infeliz e incoerente, se colocarmos em evidência o fato de que o casal pouco contracenou com a policial, e a rasa intimidade que adotaram como quarteto nos últimos capítulos aparece como um elemento artificial, que destoa agressivamente da naturalidade das cenas de Loquinha; fator este determinante e sempre mencionado quando perguntamos sobre o diferencial que elas trazem para cativar o público. Mas essa sensação de aproximação forçada não se restringiu à cerimônia: a derrocada já se anunciava antes mesmo de Juquinha, ironicamente, propor o evento. 

“Inicialmente, foi lindo vê-las inseridas em diferentes contextos com diferentes personagens, mas isso se tornou tão recorrente que parecia que elas só podiam existir como apêndice da história dos outros”, opinou Matilde sobre os últimos atos da novela. “Quando começaram a falar sobre o casamento, nunca era sobre elas”. A impressão que ficou foi de uma urgência imprudente e até, de certa forma, gananciosa, em amarrar os núcleos adjacentes um no outro para amplificar, “somar” a comoção das torcidas individuais de cada casal, ignorando a coerência emocional de cada narrativa e forçando-as num mesmo desfecho. Essa falta de coesão inevitavelmente sugere um encerramento pensado às pressas, de maneira descuidada e sem respeito e consideração pelo histórico de ambos os casais e as lutas que eles representam. 

O ápice do sentimento de revolta se deu quando surgiu o rumor de que, após a passagem de tempo de oito anos no epílogo, Lorena e Juquinha passariam simultaneamente por gestações: Lorena carregando o primogênito, fruto de seu relacionamento com a esposa; e Juquinha, por sua vez, atuando como barriga solidária e gestando o primeiro filho de Viviane e Leonardo. As reações movimentaram as redes sociais instantaneamente, com comentários em tom de crítica dominando publicações no X (antigo Twitter) e no Instagram alarmantemente. A indignação despertada é mais do que justificável, após uma construção tão bela e caprichosa que se deu com Loquinha durante cerca de sete meses, e que pareceu ter sido descartada com frieza ao encerrar o que foi uma das mais aclamadas histórias de amor da teledramaturgia brasileira de forma disparatada. 

A problemática não foi levantada somente online. A materialização do aborrecimento se deu durante a Turnê Três Graças, evento musical promovido pela Rede Globo para celebrar o encerramento da novela em dois shows conduzidos por Belo e Xamã, com participação dos membros do elenco que também estão conectados ao mundo da música. Em São Paulo, os atores e o público foram convidados a assistir ao último capítulo ao vivo no telão antes das apresentações, e a cena que confirmou os rumores sobre a barriga solidária foi acompanhada por vaias ensurdecedoras.

Plateia vaia cena final de Lorena e Juquinha durante a Turnê Três Graças em São Paulo.  Reprodução: @kccabeyoes no X

O restante do epílogo foi muito bem recebido pela multidão, mas o clima de frustração e mágoa seguiu febril e explícito durante o começo do show. O desânimo da plateia durante as primeiras músicas performadas era quase tangível. Os fãs queixavam-se entre si trazendo diferentes perspectivas para argumentar o óbvio: a conclusão designada ao casal Louquinha foi um desvario que nunca deveria ter acontecido.

“Foi muito decepcionante para todas as mulheres sáficas e fãs do casal se depararem com o fato de que a Eduarda seria a pessoa a carregar o filho de Leonardo e Viviane”, julgou Thais Sierve, 21, de Belo Horizonte. A chateação de forma alguma se dá pela pluralidade das famílias que estariam crescendo com a chegada dos herdeiros, mas pela inconsistência com as essências ao redor das quais cada personagem foi desenvolvido: Viviane, uma mulher íntegra e segura de si, que lutou pela justiça e bem estar de sua comunidade desde o primeiro capítulo, teve sua conclusão lastimosamente reduzida ao casamento com Leonardo, um homem que se mostrou transfóbico diretamente com ela, além de ter tido insensível participação no esquema de falsificação de remédios que levou à morte de dezenas de pessoas queridas e pacientes da farmacêutica. 

Juquinha, por sua vez, foi aclamada justamente por ser uma policial de ética irretocável: é inconcebível aceitar que ela própria sugeriria a realização de um casamento duplo, e que se mostraria contente em gestar o filho de um homem criminoso pelo qual nunca teve apreço, e que sequer pagou por seus delitos. “Conhecendo a Juquinha, da forma que foi apresentada, ela nunca iria se deixar passar por essa situação enquanto Lorena estivesse também grávida”, Thais acrescentou. A personagem, conhecida  por sua devoção incondicional à esposa, jamais seria entusiasta da ideia de passar ela mesma por todos os desafios e vulnerabilidades trazidos pela gravidez e pelo puerpério, ao mesmo tempo que Lorena, sem poder apoiá-la plenamente durante essa fase tão delicada, e vice-versa. A ativista, agora escritora (falando nisso, que rumo tomou sua vocação? Concretizou-se, expandiu-se, foi abandonada? Talvez nunca saibamos), da mesma forma não seria a favor de uma decisão tão arriscada, tendo em vista seu perfil amoroso e instinto protetor. Cecília ainda salientou: “O corpo de uma mulher, especificamente de uma mulher lésbica, não deveria ser tratado como uma incubadora disponível a qualquer momento somente pra realizar o sonho de outras pessoas. Ainda mais quando parte desse outro casal é um homem transfóbico e homofóbico (…)”.

E no que diz respeito aos homens da trama, é inevitável se perguntar, também, o que levou os autores a se dedicarem tanto a promover e justificar a redenção da maioria dos personagens masculinos, que não só cometeram crimes, mas também se provaram egoístas e negligentes com suas respectivas parceiras em suas atitudes, estas que trouxeram consequências profundas às vidas delas. Investir tanto tempo de tela na reparação de Jorginho Ninja, Raul e Joaquim numa obra cuja trama central é a maternidade solo foi, definitivamente, uma escolha questionável. Outra pauta determinante para o enredo de “Três Graças” foi a exposição da realidade sobre o tráfico de crianças, e seria muito mais pertinente encerrar a discussão desse cenário apresentando a possibilidade da adoção, sugestão inclusive trazida pela própria Viviane. 

De modo geral, o saldo de “Três Graças” é positivo. As gafes cometidas nos atos finais não apagam em nada a transformação irreversível que Loquinha promoveu, nas diretrizes do  audiovisual e nos corações de gerações de mulheres sáficas que finalmente se enxergaram representadas nas telas. A dedicação do elenco e da equipe da obra em contar suas histórias foi louvável, e jamais será esquecida. Conforme disse Matilde, “fica uma lição clara e evidente para todos de que, se tiverem a coragem de arriscar, o retorno da comunidade sáfica é imbatível. Fizemos tanto barulho que torço para que tenham até deixado de considerar que contar as nossas vivências é um risco para o sucesso”. Mas segue se mostrando necessário trazer um feedback inflexível para quem contou desenfreadamente com o apoio de uma base de fãs exultantes desde o começo da trajetória, e terminou por soltar suas mãos quando se aproximou da linha de chegada.

A sensação que permeou o Vibra São Paulo na exibição do último capítulo foi mesmo a de desapontamento com o “quase”: por pouco, não tivemos nas telas um amor que nos representasse do começo ao fim. Por pouco, não tivemos a confirmação de que não precisávamos mais temer o apagamento. Por pouco, não vencemos, ainda que brevemente, a imposição do male-gaze em histórias que são tudo, menos histórias sobre homens. Se não houvesse a prepotência de se pensar que “o jogo já estava ganho” quando a satisfação do público atingiu seu auge de confiança e gratidão, talvez a revolução épica que Loquinha representou na história da comunidade lésbica tivesse sido respeitada até o último bater da claquete. Quase, quase pousamos na cidade de Maratona; mas no meio do caminho, esqueceram-se de não voar perto demais do sol, apesar de o público ter dado a nota e o conselho desde o início. 

*Algumas informações pessoais sobre as entrevistadas foram alteradas para preservar o anonimato daquelas que preferiram não se identificar.

Imagem Destacada: Beatriz Damy/TV Globo

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