Por Marina Fiorani
Em sua trigésima edição, o evento se depara com o menor nível de investimento privado para sua realização desde 2018. As marcas que abandonam o apoio alegam “risco reputacional”.

Faltando menos de duas semanas para a edição de 2026, a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo encara um cenário desafiador, contando somente com o apoio financeiro de três marcas para a realização do evento. Em contraste com edições anteriores, este ano a organização defronta-se com o menor investimento privado desde 2018.
“A realização de um evento do tamanho da Parada exige investimento, estrutura e parceria com diferentes setores, incluindo empresas que acreditam na importância da diversidade e dos direitos humanos. O apoio das marcas é fundamental para que a Parada aconteça nas ruas com a dimensão, segurança e alcance que ela tem hoje”, afirma Nelson Matias Pereira, presidente da APOLGBT-SP (Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo), em nota oficial divulgada à imprensa. A marcha acontece na Avenida Paulista, no domingo de 7 de junho, com o tema 30 Anos de Parada SP — A rua convoca, a urna confirma.
A escolha da pauta se dá como uma reflexão sobre mobilização popular e participação política em um momento de avanço de discursos conservadores e enfraquecimento de políticas corporativas de diversidade em diferentes países. Justamente numa edição com essa proposta, e em ano eleitoral, a organização da Parada registrou a recusa formal de investimento de diversas empresas, sob a justificativa de um receio pelo “risco reputacional” em mais de um caso. Até o momento, somente a Amstel, como patrocinadora, e Amstel Vibes e Philip Morris Brasil, como apoiadoras, confirmaram investimento financeiro na APOLGBT-SP. O cenário contrasta com edições anteriores, quando o evento chegou a reunir mais de dez marcas apoiadoras e 19 trios elétricos. Na nota, a organização destaca que a edição histórica de 2026 contará com seis trios a menos, tendo sua dimensão amplamente reduzida.
As marcas que preservaram seu apoio financeiro reafirmam seu compromisso com a diversidade, conforme declarou Jaqueline Codogno, gerente de marketing da Amstel no Brasil: “Manter a Amstel ao lado da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo pelo oitavo ano consecutivo reforça a consistência do nosso compromisso com diversidade, inclusão e cultura. Seguimos patrocinando um dos eventos mais relevantes do país por acreditarmos na importância de ampliar visibilidade, promover respeito e contribuir para uma sociedade mais plural”, assegurou.
Já a Philip Morris Brasil reitera que enxerga no evento a expressão dos valores que defende todos os dias: a diversidade, o respeito e a inclusão. “Para nós, esse propósito precisa estar presente tanto nas políticas internas quanto na forma como nos posicionamos na sociedade. Nosso compromisso se reflete em iniciativas internas como o Stripes – grupo de afinidade que fortalece uma cultura inclusiva e representativa – e a participação ativa da companhia no Fórum de Empresas e Direitos LGBT+”, reitera Eduardo Calderari, Diretor de Assuntos Externos da Philip Morris International. “Por mais um ano, estar ao lado deste grande evento é reafirmar o nosso papel no apoio a espaços que celebram o orgulho, promovem o respeito e acolhem a pluralidade com segurança e estrutura”, acrescenta.
Diante desse cenário, questiona-se até onde se estende, de fato, a preocupação das grandes marcas e empresas que tanto se empenham em aparentar promover a inclusão em suas campanhas, principalmente durante o mês de junho. Ao que parece, o compromisso pleno e incondicional com a diversidade, que os grandes nomes do mercado alegam respeitar, limita-se a circunstâncias que não comprometam suas próprias reputações políticas e conjunturas financeiras. Claro, sabendo que vivemos numa sociedade capitalista, é de praxe que os líderes de mercado preocupem-se com a manutenção da estabilidade de seus negócios; mas especialmente em anos decisivos para a situação eleitoral do país, vale lembrar a essas entidades que somente erguer fachadas e pintar listras coloridas em seus produtos, não é suficiente para argumentar contribuição prática e comprometimento com as lutas da comunidade LGBTQIAPN+.