O amor pode curar aquilo que a vingança destruiu? A dualidade emocional de Broken (Of) Love

Crítica Girls Love

Por Laura Magro

Uma empresa estreante. Uma história diferente das fórmulas tradicionais das séries Girl Love. Uma atriz já consolidada ao lado de uma iniciante na indústria. Investimento próprio e muita dedicação. Tudo isso resultou no sucesso de Broken (Of) Love, produção que já soma quase 40 milhões de visualizações em seus episódios.

Broken (Of) Love acompanha Arisa (Faye Peraya), uma empresária movida pela busca de vingança pela morte dos pais, que perdeu ainda na infância. O que ela não esperava era se apaixonar justamente pela filha de sua maior inimiga no meio do caminho.

Logo nos primeiros episódios, Broken (Of) Love chama atenção por apostar em um tema pouco explorado dentro do GL tailandês: a vingança. E a série acerta justamente ao construir uma protagonista que não é completamente heroína. Arisa é uma personagem marcada por traumas, ressentimentos e contradições, o que torna sua jornada muito mais humana.

A direção usa bem a linguagem visual para reforçar isso. No início da série, Arisa aparece constantemente cercada por sombras ou parcialmente encoberta pela iluminação, mostrando como ela ainda está emocionalmente presa ao passado. O uso frequente de lentes grande-angulares também cria uma sensação de distorção da realidade, como se estivéssemos vendo o mundo através da própria perspectiva fragmentada da personagem. Em alguns momentos, porém, esse recurso acaba sendo repetitivo e perde um pouco da força simbólica.

Quando Arisa conhece Lalin (Atom Pariya), a construção visual começa a mudar. Enquanto Lalin quase sempre aparece iluminada, Arisa passa gradualmente a surgir mais próxima da luz. A relação entre as duas representa justamente uma possibilidade de romper com o ciclo de dor e vingança que domina a protagonista.

O roteiro funciona especialmente bem na forma como constrói seus mistérios e revelações. A escolha de trabalhar com flashbacks e flashforwards funciona especialmente bem porque cria a sensação de que Arisa está sempre um passo à frente de todos. Primeiro vemos os problemas se formando; depois, descobrimos que muitos daqueles acontecimentos haviam sido planejados pela própria protagonista. Mas, ao mesmo tempo, a série faz o público enxergar os acontecimentos a partir da perspectiva de Arisa, que teve sua visão da realidade moldada pelas mentiras contadas por seu tio. Por isso, as descobertas dos episódios finais acabam sendo tão impactantes quanto para a própria personagem.

E é difícil dizer qual revelação surpreende mais: descobrir que a mãe de Arisa está viva ou perceber que ela e Weiling eram apaixonadas. A série também merece reconhecimento por incluir um casal de mulheres acima dos 40 anos em uma indústria ainda muito marcada pelo machismo e etarismo. Raramente vemos histórias que permitam mulheres mais velhas viverem romances, desejo e relações afetivas com naturalidade.

Apesar da construção narrativa interessante, alguns acontecimentos importantes acabam sendo acelerados demais. Um dos exemplos é a sequência envolvendo o controle da empresa de Weiling e a discussão entre Arisa e Lalin perde parte do peso emocional justamente porque o desenvolvimento entre esses acontecimentos é muito rápido.

Ainda assim, o saldo final é bastante positivo. Broken (Of) Love consegue equilibrar romance, tensão, drama familiar e plot twists de forma envolvente. Outro ponto forte é o fato de a série não tentar redimir personagens responsáveis por violências graves, entendendo que nem toda narrativa precisa transformar pessoas cruéis em figuras “compreensíveis”.

Um dos maiores destaques da série é a atuação de Faye. A atriz entrega uma performance extremamente consistente e cheia de camadas, transmitindo a dualidade constante de Arisa entre confiança, dor e vazio emocional. Já Atom Pariya consegue construir uma Lalin sensível e cativante, especialmente considerando que este é um de seus primeiros trabalhos. A química entre as duas funciona justamente porque o relacionamento é construído muito mais na conexão emocional do que apenas na atração física. Isso faz com que o conflito interno de Arisa durante sua busca por vingança se torne ainda mais forte.

Mesmo com alguns problemas de ritmo e desenvolvimento, Broken (Of) Love demonstra uma preocupação evidente em utilizar recursos da linguagem cinematográfica para aprofundar sua narrativa. Pode não ser uma série perfeita, mas está longe de ser ruim. Broken (Of) Love entende a importância de usar a linguagem audiovisual para construir significado — e isso faz diferença.

A cena final da série cria um paralelo interessante com um dos momentos do primeiro episódio. Arisa e Lalin estão novamente na pista de corrida, apoiadas no carro. Mas, enquanto na cena inicial as duas apareciam cobertas pela sombra causada pelo pôr do sol, agora estão completamente iluminadas pela luz do dia. A escolha visual simboliza a transformação de Arisa. O próprio título da série reforça essa ideia. Broken (Of) Love brinca com dois significados — “amor quebrado” e “quebrada pelo amor”. Arisa, que passou anos destruída pela dor e pelo ressentimento, encontra justamente no amor a possibilidade de reconstrução. Não apenas no amor romântico de Lalin, mas também no amor materno e na descoberta da verdade sobre sua própria história.

No fim, Broken (Of) Love deixa uma mensagem simples, mas poderosa: o rancor jamais preenche o vazio da perda. Apenas o afeto, o acolhimento e a capacidade de seguir em frente podem realmente curar aquilo que a dor tentou transformar em escuridão.

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