Still Water: as marcas que nenhum final apaga

Crítica Disney+ Entretenimento Girls Love

Em uma cidade marcada pela cumplicidade masculina, a violência contra as mulheres deixa marcas na memória, atravessa os vínculos familiares e faz da sobrevivência uma luta que a vingança não encerra 

Por Laura Magro

Aviso de conteúdo: a série — e, consequentemente, esta crítica — aborda temas sensíveis, como violência sexual, abuso e assassinato, que podem funcionar como gatilhos para algumas pessoas. O texto contém spoilers, incluindo o desfecho.

Uma cidade aparentemente tranquila. Uma jovem desaparecida. Uma sequência de assassinatos que começa a revelar o que muita gente preferia manter enterrado. A série tailandesa Still Water, do Disney+, tem uma protagonista sáfica e um romance em segundo plano, mas se distancia bastante dos GLs mais voltados à construção do casal. Aqui, o suspense conduz uma história pesada, atravessada por violência, trauma e personagens que carregam muito mais do que deixam transparecer.

Anos após o desaparecimento de Pan, a morte de seu ex-namorado coloca o caso novamente em movimento. É pela perspectiva de Pin, irmã da jovem, que tentamos juntar as peças desse quebra-cabeça. Só que a própria protagonista não tem acesso a tudo que viveu: suas lembranças aparecem de forma fragmentada, e acontecimentos traumáticos permanecem fora de seu alcance. Conforme ela se lembra, nós descobrimos. E é justamente nessa relação entre memória e investigação que a série encontra um de seus maiores acertos.

Still Water/Disney+

A linguagem visual traduz muito bem essa experiência. Os flashbacks têm pouca saturação, quase chegando ao preto e branco, mas a diferença não está apenas entre passado e presente. A própria aparência das lembranças muda de acordo com o quanto elas estão claras para Pin. Nas mais confusas, os movimentos perdem fluidez, os corpos parecem borrões e as imagens ficam ainda mais esvaziadas de cor. A forma como essas cenas são construídas nos aproxima da dificuldade de reconhecer o que aconteceu.

Nesse cenário, o vermelho chama atenção. É a cor que insiste em aparecer quando quase todas as outras desaparecem. Pode ser lido como uma espécie de ponto de partida para a reconstrução dessas memórias, algo que permanece marcado mesmo quando o restante se perde. Considerando a presença da morte e do sangue na trajetória da personagem, essa escolha ganha ainda mais força. O vermelho ajuda a orientar nosso olhar, mas também parece puxar Pin de volta para aquilo que ela não consegue acessar por inteiro.

Still Water/Disney+

Ao longo de sete episódios, Still Water consegue desenvolver uma história com muitos personagens e conexões sem perder o controle do mistério. Uma sequência no velório do primeiro homem assassinado sintetiza bem isso: a câmera percorre os presentes, aproximando figuras que, naquele momento, ainda não sabemos exatamente como relacionar. A sensação é de que todos fazem parte da mesma história. E, conforme a investigação avança, entendemos o quanto aqueles homens estão envolvidos no desaparecimento de Pan.

É nesse ponto que o suspense revela o peso de sua violência. Entre amigos, familiares e autoridades, a série expõe homens que abusam, encobrem e encontram maneiras de preservar uns aos outros. São homens que têm poder e se aproveitam dele para fazer o que querem, sem temer as consequências de seus atos. Até quem parece diferente acaba desmontando essa expectativa. Nai, que inicialmente aparenta ser melhor do que os amigos, também participou da violência contra Pan. Sua aparente decência torna a revelação ainda mais revoltante e reforça o quanto as primeiras impressões podem enganar. Isso se aproxima muito da realidade, em que a violência pode vir de quem a gente menos espera.

As cenas de violência sexual estão entre as mais fortes da série. Causam angústia, nojo, asco. E isso acontece mesmo sem mostrar explicitamente a maior parte dessas agressões. O ato permanece fora de campo, enquanto os rostos, as vozes e os gritos dão conta de transmitir o horror. Existe uma escolha de linguagem capaz de provocar tudo isso sem transformar o corpo violentado em espetáculo. São cenas muito difíceis de assistir, e o peso delas permanece para além daquele instante.

Essa construção é fundamental para a revelação de que a mãe de Pan está por trás dos assassinatos. Depois de encontrar as fotografias analógicas feitas por Pin, ela descobre que a filha não estava apenas desaparecida. As imagens registram aquilo que a outra filha presenciou, mas não consegue lembrar. Ao localizar o corpo de Pan, a mãe passa a planejar sua vingança contra os responsáveis. O que poderia ser apenas uma surpresa de roteiro se torna uma descoberta profundamente triste.

Still Water/Disney+

Há algo muito pessoal na brutalidade dessa vingança. A proximidade exigida pelas facadas, o contato com aqueles corpos e a decisão de presenciar cada morte traduzem a dimensão da dor dessa mulher. São os corpos dos homens que feriram sua filha. A série nos leva a compreender sua revolta, e essa compreensão vem justamente do horror que acompanhamos até ali. Ao aproximar o espectador da dor da mãe e evidenciar a brutalidade dos homens abusadores, essa construção também confronta a lógica patriarcal de culpabilizar a mulher e colocar o homem no lugar de vítima, apagando as violências que ele cometeu.

Mas compreender essa mãe não significa ignorar a violência que ela própria direciona a Pin. Desde o nascimento da filha, associado à morte do marido a caminho do hospital, ela projeta na menina uma culpa que não lhe pertence. O tratamento desigual entre as irmãs continua depois do desaparecimento de Pan. Enquanto uma filha concentra sua atenção, a outra permanece tentando entender por que recebe tão pouco cuidado. Essa dinâmica revela uma mulher profundamente marcada por perdas, que tenta lidar com a morte e o luto criando outras versões da realidade ou projetando sua culpa na filha.

Still Water/Disney+

A cena em que a mãe troca a roupa dos restos mortais de Pan é uma das imagens mais fortes da série. O gesto cotidiano de cuidado encontra algo impossível de reparar. Ela sabe o suficiente sobre a morte da filha para se vingar, mas continua agindo como se ainda pudesse cuidar dela daquela maneira. Pin, por sua vez, sofre tanto com o afastamento da mãe quanto com os acontecimentos que sua memória não consegue organizar. Esquecer não faz com que o trauma deixe de existir.

Entre essas personagens, Jeans também desperta interesse, embora sua história receba menos desenvolvimento. Sua relação com a morte e com os animais, somada à convivência com uma família de açougueiros, alimenta a desconfiança que o suspense constrói ao redor dela. Faltou explorar um pouco mais essa trajetória, para que pudéssemos compreendê-la para além do mistério que representa. O romance em segundo plano também deixa claro que o centro da série está em outro lugar.

Já Som, a policial, ganha, no desfecho, um paralelo importante com Pan. As duas enfrentam a gravidez e a recusa de responsabilidade por parte dos homens envolvidos. Enquanto Pan teve sua vida interrompida, Som mata o homem que a rejeitou e se recusou a assumir sua responsabilidade pela gravidez. Os caminhos são diferentes, mas partem de uma violência semelhante. Nesse espelhamento, a série deixa uma sensação amarga: para essas mulheres, existir significa encontrar uma forma de sobreviver. Se Som não tivesse matado aquele homem, talvez o desfecho de sua história tivesse sido o mesmo de Pan.

Still Water/Disney+

Por isso, é difícil chamar o desfecho de feliz. Há uma satisfação em ver aqueles homens enfrentarem consequências, enquanto as mulheres que se vingam escapam da punição. É uma resolução que se aproxima de uma fantasia de justiça diante de uma realidade na qual tantas vezes acontece o contrário. Ainda assim, nenhuma dessas mortes devolve a vida de Pan ou apaga o que Pin sofreu e presenciou.

Still Water constrói um suspense envolvente e usa muito bem a linguagem audiovisual para dar forma às marcas da violência. A série também evidencia o impacto psicológico dessas experiências e como elas atravessam a memória, os vínculos e a percepção da realidade dessas mulheres. Mas seu impacto maior está no que permanece depois que o mistério é resolvido. Os responsáveis podem ter sido punidos, mas o trauma fica. No fim, essas mulheres não recuperam tudo que perderam. Apenas conseguem chegar até ali sem que lhes tirem ainda mais.

 

Foto em destaque: Still Water/Disney+

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