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Crítica Séries

Monstro: A História de Lizzie Borden acerta na estética e no elenco, mas tropeça ao tentar explicar a violência de suas protagonistas só pelo trauma.

Por Carolina Luz Prado

A expectativa era grande: colocar três dos nomes mais icônicos do imaginário criminal feminino ocidental, Lizzie Borden, Elizabeth Báthory e Aileen Wuornos, dividindo o mesmo palco em uma única temporada de Monstro, a antologia true crime de Ryan Murphy e Ian Brennan. Cada uma dessas mulheres, sozinha, já renderia uma temporada inteira de discussão. Juntas, na 4ª temporada da série, a mistura gerou tanta curiosidade quanto desconfiança.

Resultado? Motivo de sobra pra maratonar e pra discutir depois!

 

Ella Beatty como Lizzie Borden. Fonte: Divulgação Netflix.

 

Comecemos pelo que funciona (e funciona muito bem)

Tecnicamente, é quase impossível não se render. A fotografia tem aquele tom sombrio e teatral que já virou marca registrada da antologia. O figurino é de doer o queixo: dá pra sentir o peso das anáguas e o desconforto de cada espartilho! E a direção de arte reconstrói a Nova Inglaterra vitoriana com um capricho danado.

E as atuações? Ella Beatty carrega a temporada com uma Lizzie contida, quase etérea, que consegue parecer perigosa mesmo sussurrando. Sarah Paulson entrega, mais uma vez, uma Aileen Wuornos visceral. Difícil de assistir, mas impossível de desgrudar os olhos! Vicky Krieps se desdobra em duas pontas (Bridget Sullivan e Elizabeth Báthory) sem perder a régua em nenhuma delas.

Vicky Krieps como Báthory. Fonte: Divulgação Netflix.

E os pais também merecem aplauso: Charlie Hunnam constrói um Andrew Borden gelado, cuja frieza patriarcal explica sozinha boa parte da atmosfera sufocante da casa. Já Rebecca Hall, como a madrasta Abby, foge do lugar fácil da vilã de novela e entrega uma mulher tão presa às regras daquele lar quanto a própria enteada.

Mas se tem um fio narrativo que realmente funciona nessa temporada, é a relação entre Lizzie e Bridget. A jovem empregada chega numa casa que trata Lizzie como um problema constante a ser resolvido. Até o fluxo menstrual dela, tratado como incômodo e motivo de chacota pela própria família, vira símbolo de tudo que incomoda na jovem mulher. É Bridget quem, pouco a pouco, devolve a Lizzie a sensação de ser enxergada como gente, e não como uma mancha a ser escondida.

Lizzie e Bridget. Fonte: Divulgação Netflix.

A série constrói esse vínculo com cuidado: mais silêncios e trocas de olhar do que grandes declarações, numa cumplicidade que cresce episódio a episódio, sem pressa. É bonito ver como a câmera muda de postura quando as duas dividem cena: a fotografia esfria em quase todos os cômodos da casa Borden, menos ali, onde ganha um calor quase indevido pra uma produção tão soturna. 

É, de longe, o material mais afetivo e mais bem escrito da temporada. E funciona melhor exatamente quando não está tentando provar nenhuma tese além de si mesma. Vale abrir um parêntese: a relação de Lizzie e Bridget nunca foi confirmada. É uma das inúmeras teorias que rondam o caso. 

A própria Aileen Wuornos, na realidade, viveu anos com outra mulher, Tyria Moore, em uma relação que marcou boa parte da sua história. Na série, esse afeto vira material de apoio. Isso porque que a namorada fictícia (rebatizada de Shelby) existe basicamente pra ler trechos de um livro sobre Lizzie Borden, em voz alta durante os momentos de obsessão de Aileen. 

É pouco. Dado o tamanho real dessa relação na vida da Wournos, dava pra imaginar um tratamento tão cuidadoso quanto o dedicado a Lizzie e Bridget. Só que aqui, de novo, esbarramos no problema de espaço: são três histórias grandes demais pra caber, com justiça, em oito episódios.

É o que acontece quando se tenta juntar três histórias que não deveriam estar na mesma bandeja…

O problema começa quando a série decide que Lizzie, Elizabeth e Aileen são, no fundo, a mesma mulher em três séculos diferentes. Apenas vítimas de uma sociedade machista que as levou ao limite, o que funciona demais na ficção, mas enfraquece quando comparada com a realidade.

Lizzie era filha de um empresário rico e influente em Fall River, Massachusetts. No julgamento real de 1893, acabou absolvida por um júri inteiramente masculino, que preferiu acreditar que uma “moça de família” daquele padrão, jamais seria capaz de tanta brutalidade. 

Elizabeth Báthory pertencia a uma das famílias nobres mais poderosas do Reino da Húngria. Tão poderosa que, quando as acusações vieram à tona, seus próprios empregados foram julgados e executados pelos mesmos crimes. Ela nunca chegou a ser julgada, apenas confinada aos próprios aposentos até morrer. 

Já Aileen nasceu na pobreza, em Michigan. Na infância, foi abandonada pela mãe e criada por avós que teriam abusado dela. Sobreviveu como pôde, inclusive por meio da prostituição pelas estradas da Flórida. Foi a única das três realmente julgada e condenada. Por fim, em 2002, depois de mais de uma década no corredor da morte, foi executada.

Colocar as três no mesmo balaio de “vítimas iguais” é didático demais. E injusto com a complexidade real de cada uma.

Dahmer, os irmãos Menendez e Ed Gein tiveram, cada um, uma temporada inteira de oito episódios cada. Essa é a primeira vez que a antologia divide o protagonismo entre três pessoas, e o resultado é que nenhuma das três sai dali totalmente inteira.

O caso de Aileen é o que mais incomoda nesse sentido. Sozinha, a vida dela já tinha material de sobra pra uma temporada: infância marcada por abandono e abuso, sobrevivência nas estradas, um relacionamento real com outra mulher, um julgamento que virou espetáculo midiático e uma execução que até hoje divide opiniões sobre culpa, insanidade e sistema penal.

Sarah Paulson como Aileen. Fonte: Divulgação Netflix.

E aqui mora a ironia: se existe dentre essas três vidas, a que se encaixaria organicamente na fórmula “vítima que virou monstro” que Ryan Murphy tanto gosta de repetir, essa vida é a de Aileen. Não a de Lizzie, nem a de Elizabeth, cujos casos reais são bem mais nebulosos quanto à vitimização. Ao dividir o palco entre as três, a série acaba sacrificando justamente a história que tinha mais a ganhar com um olhar mais longo, mais cuidadoso e menos apressado.

O hábito antigo da casa: transformar gente real em símbolo

Bom exemplo de quando a “liberdade poética” vira problema: a série mostra Lizzie usando a fortuna herdada para apoiar o movimento pelo voto feminino, com direito a cena de desfile e até sessão no Congresso. Não aconteceu. E, cá entre nós, forçar essa ligação parece menos uma homenagem ao movimento sufragista e mais uma tentativa de deixar Lizzie mais “palatável” pro público de 2026.

Não é a primeira vez que a antologia flerta com esse problema, ainda que por outros ângulos. Em 2022, Dahmer: Um Canibal Americano foi acusada por familiares reais das vítimas de Jeffrey Dahmer de retraumatizá-los sem consulta prévia. Para eles, transformar a dor em produto de streaming tinha mais a ver com audiência do que com justiça histórica.

Na temporada seguinte, sobre os irmãos Menendez, o problema apareceu de outro jeito. Ao tentar equilibrar “filhos mimados que mataram os pais” com “sobreviventes de abuso”, a série irritou os próprios irmãos. Ainda vivos e presos, eles acusaram a produção de distorcer os fatos e reforçar justamente o discurso que dizia querer desmontar.

Já em 2025, Monstro: A História de Ed Gein reacendeu o debate sobre romantizar o criminoso. Escalar um galã de Hollywood pro papel do “Açougueiro de Plainfield” e ancorar seus crimes numa obsessão doentia pela própria mãe, levantou, mais uma vez, a mesma pergunta: Até que ponto vale a pena explicar o monstro, se explicar também pode significar, sem querer, perdoar?

Com Lizzie, Elizabeth e Aileen, o verniz é supostamente mais nobre. Afinal, são mulheres reais que sofreram violência real. Entretanto, a lógica de fundo continua a mesma: pegar uma pessoa que existiu, com uma vida cheia de nuances e contradições, e encaixá-la à força num roteiro que precisa de uma explicação simples pra caber em oito episódios. 

Lizzie e Bridget. Fonte: Divulgação Netflix.

Aqui está mais uma ironia que ninguém no roteiro parece ter percebido: Nenhuma mulher, eles dizem, seria capaz de tanta brutalidade sozinha, sem ser empurrada ao limite.

Ao insistir que só o sofrimento compartilhado e o isolamento explicam a violência dessas protagonistas, a série repete exatamente a lógica patriarcal que absolveu Lizzie: a de que nenhuma mulher seria capaz de tanta brutalidade sem ser empurrada ao limite por sua própria condição emocional. É a velha desculpa de sempre, embalada em uma belíssima, mas problemática, roupagem de solidariedade feminina. 

Monstro: A História de Lizzie Borden entrega um espetáculo visual impecável, atores em estado de graça e histórias sáficas viscerais, além de emocionantes. Só esbarra, infelizmente, no vício antigo de preferir romantizar o monstro a encará-lo de frente!

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