Com o aumento de cenas sem consentimento em produções sáficas, cresce entre espectadoras o debate sobre a romantização de situações que se aproximam de abuso ou assédio
Por Laura Magro
Nos últimos anos, acompanhamos um crescimento enorme de produções audiovisuais lésbicas, especialmente com as séries GL tailandesas. Esse aumento de representatividade é, sem dúvida, algo a se celebrar. Ver histórias entre mulheres sendo contadas com protagonismo, investimento e alcance global é um avanço importante. No entanto, junto com essa expansão, também começaram a surgir discussões necessárias sobre a forma como essas relações estão sendo retratadas.
Já faz algum tempo que parte do público vem apontando situações em algumas séries sáficas que se aproximam de assédio ou de dinâmicas abusivas entre casais. Nas últimas semanas, porém, esse debate ganhou ainda mais força por conta de cenas em produções lançadas este ano. O estopim foi um episódio recente que ultrapassou a barreira do desconfortável e entrou em um território ainda mais grave: o de uma cena de abuso sexual, apresentada, ainda por cima, dentro de uma lógica romantizada.
É importante deixar algo muito claro: relações sáficas não estão isentas de violência. Assim como em qualquer outro tipo de relação, mulheres também podem vivenciar situações de abuso, inclusive sexual. Retratar isso na ficção não é, por si só, um problema. Pelo contrário, abordar o tema pode ser fundamental para gerar debate, conscientização e reflexão.
O problema surge quando esse tipo de situação é apresentado sem o cuidado, a responsabilidade e a seriedade que o assunto exige. Uma cena de abuso não pode ser tratada como algo romântico, fofo ou parte de um jogo de sedução. Quando isso acontece, a narrativa deixa de denunciar a violência e passa a banalizá-la. E banalizar algo que, além de moralmente inaceitável, é crime, contribui para a normalização de comportamentos que não deveriam ser tolerados.
Se uma produção decide incluir uma cena de abuso em sua história, ela precisa existir dentro de um contexto que evidencie a gravidade da situação. O objetivo deveria ser expor a violência, dar espaço para discutir suas consequências e mostrar por que aquilo é errado — não criar momentos que o público seja levado a interpretar como prova de amor ou intensidade romântica.
Afinal, não é não. E o fato de ser uma relação entre duas mulheres não transforma uma interação sem consentimento em algo aceitável.
Por isso, também é importante reconhecer e valorizar produções que tratam o consentimento com responsabilidade. Um exemplo frequentemente citado pelo público é a cena de Roller Coaster, em que Loft pede explicitamente o consentimento de Pure antes que a situação evolua para algo mais íntimo. Ou, mais recentemente, no primeiro episódio de Girl Rules, quando Prim faz questão de verificar se Gorya está consciente e bem antes de qualquer aproximação acontecer. São pequenos gestos narrativos que comunicam algo muito maior: respeito.

Esse tipo de abordagem ajuda a construir referências positivas de relacionamento para o público. Mostra que desejo, tensão romântica e química entre personagens não precisam existir à custa do desconforto ou da violação de limites.
Estamos vivendo um momento em que a misoginia e a violência contra mulheres seguem crescendo em diversas partes do mundo. Um estudo da Universidade Federal do Ceará aponta que a violência contra a mulher no Brasil pode aumentar até 95% até 2033, se o país continuar no ritmo observado nos últimos anos. O último 8 de março, Dia Internacional da Mulher, reforçou que não se trata de uma data a se comemorar, mas sim de uma oportunidade para refletir sobre o quanto ainda precisamos lutar por direitos básicos.
Nesse contexto, é ainda mais importante estar atento às narrativas que consumimos. Conteúdos audiovisuais têm impacto cultural real — eles ajudam a moldar percepções, normalizar comportamentos e influenciar discussões sociais. As produções sáficas carregam, inclusive, contribuíram para o fortalecimento do debate público que antecedeu a legalização do casamento homoafetivo na Tailândia.
Mas se o audiovisual tem poder para gerar transformações positivas, ele também pode contribuir para efeitos negativos quando reproduz ou romantiza violências.
Por isso, mais do que apenas representar relações entre mulheres, é fundamental que essas histórias sejam contadas com responsabilidade. Que sejam narrativas sensíveis, respeitosas e conscientes do impacto que podem ter.
Porque representatividade importa, mas a forma como essa representatividade acontece importa ainda mais.
Foto em destaque: Reprodução