A iniciativa surgiu de uma demanda das próprias jogadoras e busca maneiras de aliar carreira e vida pessoal. Movimento pode ampliar o debate sobre maternidade no futebol brasileiro
Por Dany Oliveira

Jogadoras da seleção feminina espanhola poderão contar com apoio para o congelamento de óvulos a partir de uma parceria entre a Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) e o Grupo Tambre, clínica especializada em reprodução assistida. O projeto também contempla árbitras e árbitras assistentes da primeira divisão, além de funcionárias da federação. A iniciativa foi anunciada pela RFEF nas últimas semanas e busca oferecer suporte para que essas profissionais possam atuar em alto nível e, ao mesmo tempo, decidir se querem ou não ser mães.
A iniciativa surgiu de uma demanda das próprias jogadoras, que levaram à federação a preocupação sobre como conciliar a carreira esportiva com o desejo de ser mãe. Entre as atletas que abordaram o assunto está Alexia Putellas, uma das principais referências da seleção espanhola.
O congelamento de óvulos é um procedimento de preservação da fertilidade que permite coletar e armazenar os óvulos em temperaturas ultrabaixas para que possam ser utilizados posteriormente em tratamentos de reprodução. A parceria firmada pela RFEF prevê apoio para tratamentos de fertilidade, incluindo o congelamento e até cinco anos de manutenção dos óvulos preservados.
A ideia coloca a Espanha entre as federações que têm buscado ampliar as políticas relacionadas à saúde reprodutiva e à maternidade no futebol feminino. A seleção espanhola também já conta com outras medidas relacionadas à profissionalização da modalidade e à licença-maternidade remunerada, que oferecem maior segurança para atletas que desejam conciliar a carreira com a maternidade.
Alexia Putellas ressaltou a importância da medida ao falar sobre a possibilidade de realizar o procedimento enquanto ainda está em atividade:
“Após um trabalho incrível da federação, eles chegaram a um acordo com uma clínica para a possibilidade de congelamento de óvulos enquanto ainda estamos na ativa, pelo tempo que quisermos. Para mim, é um grande passo adiante, porque a federação entende que você está servindo ao seu país contra o seu relógio biológico, que você não pode parar e que não pode ser mãe porque precisa que seu corpo funcione.”
Cenário brasileiro
Iniciativas como a adotada pela Espanha podem impactar diretamente as discussões sobre políticas para o futebol feminino no Brasil, seja pelas federações estaduais ou pela própria Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Por aqui, as medidas adotadas até o momento têm avançado principalmente no suporte às atletas que já são mães.
Uma evolução importante nesse sentido foi a mudança promovida pela CBF que garante às mães lactantes o direito de viajar com os filhos durante competições nacionais, com os custos bancados pela entidade. A primeira atleta a usufruir do direito foi Ketlen Wiggers, jogadora das Sereias da Vila, que pôde levar o filho Lucca para Belo Horizonte durante uma partida contra o América-MG.

Além disso, a licença-maternidade remunerada, ampliada para contemplar mães adotivas e não biológicas, também representa um avanço na proteção às profissionais do futebol feminino. A medida foi estabelecida pela FIFA para suas entidades filiadas e busca garantir que a maternidade não represente a interrupção da carreira esportiva.
Em 2024, quando as novas regras foram anunciadas, Cristiane celebrou a conquista, mas também chamou atenção para o atraso na implementação de medidas básicas para a modalidade:
“Felicidade (é o que eu sinto), e também é uma tristeza. Porque a gente está em 2024 e a gente está falando disso só agora… Olha o tempo que a gente perdeu por coisas que são simples para gente, simples para o nosso desempenho, ter o nosso filho próximo.”

Entretanto, a partir da medida de congelamento de óvulos anunciada pela Espanha, o debate pode ganhar força no Brasil e se ampliar para questões que vão além do campo. Muitas pessoas que vivem do esporte em alto nível também desejam a possibilidade de conciliar os dois lados: vida pessoal e profissional.
Essa ação, portanto, pode abrir espaço para novos debates sobre os direitos das jogadoras e de pessoas que vivem do futebol.
Imagem em destaque: FRANCK FIFE/AFP