Por Carolina Luz Paulo
Em 2021, a escritora norte-americana Carmen Maria Machado chegou às livrarias brasileiras com Na Casa dos Sonhos, um livro que desafia classificações e desconforta certezas. Trata-se de uma obra em que a autora narra, com rara coragem, o relacionamento abusivo que viveu com uma ex-namorada, referida apenas como “a mulher da casa dos sonhos”. Mas chamar o livro apenas de memória seria reduzi-lo: Machado experimenta com gêneros literários, fragmenta a narrativa, mistura o pessoal e o político. O resultado é um mapa da violência psicológica, emocional e física sofrida dentro de um relacionamento sáfico.
O que torna essa obra singular não é somente seu valor literário. É sua dimensão política e ética. Na Casa dos Sonhos é um dos primeiros relatos autobiográficos amplamente lidos a nomear e analisar a violência doméstica entre mulheres. Ao fazer isso, Machado confronta um silêncio histórico com o qual o feminismo e a sociedade em geral ainda têm dificuldade de lidar: o de que mulheres também podem ser agressoras, e que relacionamentos homoafetivos femininos não estão imunes à dinâmica do abuso.
Logo na abertura do livro, Machado recorre à ideia de “arquivo” para justificar por que decidiu escrever. A ausência de registros sobre experiências como a dela é, em si mesma, uma forma de violência. Durante décadas, o abuso doméstico entre parceiras do mesmo sexo foi invisibilizado pela cultura, pelo sistema jurídico e até por partes do movimento feminista. Nomear o que aconteceu é, portanto, um ato de resistência e de reparação histórica.
A estrutura fragmentada do livro não é acidente estético: ela espelha os efeitos psicológicos do trauma. Os capítulos são curtos, alguns com poucas linhas, como se a narradora não pudesse sustentar por muito tempo o olhar sobre determinadas memórias. A memória traumática não é linear e sim lacunar, repetitiva, contraditória. E a autora transforma tudo isso em forma literária.
Uma das formas mais persistentes de violência no livro é o gaslighting: a manipulação sistemática que leva a vítima a questionar sua própria percepção da realidade. A narradora descreve episódios em que a parceira nega, distorce ou minimiza o que aconteceu em um mecanismo clássico do abuso narcísico, que erode de forma silenciosa a autoconfiança da vítima. A violência psicológica, frequentemente, é a mais difícil de nomear e provar, tanto para quem a viveu quanto para o sistema legal.
O controle exercido pela agressora começa de forma sutil antes de se tornar explícito. A narradora descreve como a parceira monitorava seus movimentos, restringia suas amizades e a isolava progressivamente. O isolamento é uma das táticas mais eficazes do abuso: ao cortar a vítima de sua rede de apoio, o agressor garante dependência e elimina testemunhas. No contexto de um casal de mulheres, esse isolamento pode ser ainda mais intenso: a própria comunidade LGBTQIA+, pequena e interconectada, muitas vezes resiste a acreditar que uma de suas integrantes pode ser abusadora.
Machado não nos poupa de episódios de violência física, mas não gráfica. E a dúvida que a narradora expressa depois “se aconteceu mesmo”, “se foi você quem provocou”; é a internalização do discurso da própria agressora.
O que as feministas dizem e o que o livro confirma!
A perspectiva de bell hooks em Tudo sobre o Amor (2000) é essencial para compreender Na Casa dos Sonhos: a violência que Machado sofreu não é menos grave por ter vindo de uma mulher: A dominação é uma prática aprendida. Homens e mulheres aprendem a dominar, e ambos os gêneros podem exercer poder abusivo. Fingir o contrário é deixar as vítimas sem nome e sem proteção.
O silêncio em torno disso é, em parte, resultado de um imaginário cultural que associa feminilidade à doçura e à incapacidade de causar dano. Para Lori B Girshick, em Woman-to-Woman Sexual Violence (2002): Existe um mito persistente de que os relacionamentos lésbicos são inerentemente mais seguros, mais igualitários e livres de violência. Esse mito prejudica as sobreviventes, que não encontram vocabulário, recursos nem validação para o que viveram. Machado toca precisamente nesse ponto ao descrever sua própria dificuldade de nomear o que vivia. Como chamar de abuso o que vem de alguém que compartilha contigo a mesma opressão estrutural? Essa confusão é armadilha e o livro a desmonta com precisão.
Em Na Casa dos Sonhos, a escrita é o próprio ato de recuperação, do trabalho em cima de um trauma vivenciado e uma ferramenta para a ocultação do silêncio. Como afirma Judith Herman em Trauma e recuperação (1992): O silêncio é o principal aliado do perpetrador. O segredo é fundamental ao abuso. A recuperação da sobrevivente exige que a verdade seja dita. Assim, Machado transforma o relato pessoal em documento coletivo. Ao nomear o que viveu, ela também nomeia o que tantas outras mulheres viveram em silêncio e cria o arquivo que não existia quando ela mais precisou.
Em Mapeando as Margens (1991), Kimberlé Crenshaw afirma que: Quando uma experiência não se encaixa nos moldes do discurso hegemônico, seja o feminismo mainstream ou o discurso jurídico, ela simplesmente desaparece. As pessoas que a vivem ficam sem nome, sem recurso, sem proteção. No caso de Machado, podemos perceber que entre ser mulher e sáfica, existe uma camada adicional de invisibilidade: a sociedade não tinha ferramentas prontas para reconhecer sua experiência como violência doméstica legítima.
A denúncia como ato político
Na Casa dos Sonhos é um livro sobre o que acontece quando se decide, finalmente, falar. Em Corpos que importam (1993), Judith Butler reforça esse sentimento: Para que uma vida importe, ela precisa ser reconhecível como vida. O sofrimento que não é legível dentro das categorias disponíveis permanece sem amparo, não porque não exista, mas porque não é visto. E esse ato, a denúncia, é simultaneamente político, terapêutico e ético. Ao longo das páginas, Machado retorna à questão do arquivo histórico: para mulheres queer que sofreram abuso de outras mulheres, simplesmente não havia precedentes visíveis. Ao publicar sua história, ela não apenas processa seu próprio trauma, ela cria um registro que outras sobreviventes podem reconhecer como seu.
A denúncia de violência em relacionamentos sáficos enfrenta barreiras específicas: o medo de reforçar estigmas sobre a comunidade LGBTQIA+, a falta de serviços especializados, a desconfiança das instituições e a invisibilidade legal em muitos países. No Brasil, apesar de a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) proteger mulheres em relacionamentos homoafetivos, a aplicação ainda é inconsistente e muitas vítimas desconhecem seus direitos. Denunciar não é apenas responsabilidade da vítima. A sociedade, as instituições, as comunidades de pertencimento e as redes de afeto têm papel ativo em criar condições para que o relato seja possível e acolhido. Como bell hooks afirma: Não podemos criar uma cultura de amor enquanto toleramos o abuso. Nomear a violência, qualquer violência, é o primeiro passo para erradicá-la. Nesse sentido, ler Na Casa dos Sonhos é também assumir uma responsabilidade: a de não ser cúmplice do silêncio.
Que este livro seja lido, debatido e que inspire denúncias, formais e informais, institucionais e afetivas. Que ele seja o arquivo que Machado não encontrou quando precisou. Que, graças a ele, outras mulheres saibam que não estão sozinhas, que o que viveram tem nome e que é possível sobreviver para contar!
Em caso de violência doméstica, ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) — 24 horas, gratuito e sigiloso.
Referências Bibliográficas
BUTLER, Judith. Corpos que Importam: Sobre os Limites Discursivos do “Sexo”. São Paulo: n-1 edições, 1993/2019.
CRENSHAW, Kimberlé. Mapeando as Margens: Interseccionalidade, Políticas de Identidade e Violência contra Mulheres de Cor. Stanford Law Review, 1991.
GIRSHICK, Lori B. Woman-to-Woman Sexual Violence: Does She Call It Rape? Boston: Northeastern University Press, 2002.
HERMAN, Judith. Trauma e Recuperação: As Sequelas da Violência. Rio de Janeiro: Aleph, 1992/2022.
hooks, bell. Tudo sobre o Amor: Novas Perspectivas. São Paulo: Elefante, 2000/2020.
MACHADO, Carmen Maria. Na Casa dos Sonhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
BRASIL. Lei n.º 11.340, de 7 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha. Brasília, DF: Presidência da República, 2006.
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