Por: Rayanne Tovar
O filme, que derivou de um livro, que derivou originalmente do clipe de mesmo nome, “Girls Like Girls”, da cantora, atriz e multiartista Hayley Kiyoko, estreou nos Estados Unidos no dia 19 de junho de 2026 e, no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, chegou ao Festival “Quem Quer Queer?” para três sessões especiais.
Estrelando Maya Da Costa como Coley e Myra Molloy como Sonya, o filme, assim como o livro e o clipe homônimos, é um coming of age que retrata um clássico friends to lovers, com bastante drama, flerte e muita química entre as protagonistas.

Para assistir ao filme, é imprescindível que você ao menos tenha assistido ao clipe. Caso contrário, a experiência dificilmente irá te acertar da mesma forma. E ela acerta em cheio, ainda mais se você, assim como grande parte das meninas que foram ver o longa em sua estreia, assistiu ao clipe na adolescência e, de alguma forma, se identificou com aquelas personagens: duas meninas jovens, ainda no ensino médio, vivendo uma amizade intensa, onde nenhuma das duas consegue entender plenamente seus sentimentos — e muito menos colocá-los em palavras.
Ver o clipe de Girls Like Girls pela primeira vez foi como se tudo o que você estivesse sentindo finalmente fizesse sentido. Como se fosse válido. Como se outras meninas também sentissem aquilo. E a gente queria mais. Queria saber mais sobre aquelas duas personagens que conquistaram tanta gente em um vídeo de apenas 5 minutos.
Depois de muitos anos de espera e de inúmeros pedidos dos fãs, Hayley lançou o livro, aprofundando ainda mais a relação entre aquelas duas meninas que conhecemos por poucos minutos em 2015. E, finalmente, 11 anos depois, temos uma versão estendida do universo de Coley e Sonya.
As atrizes são diferentes das originalmente retratadas no videoclipe, mas isso não atrapalha em nada a dinâmica da história. Inclusive, traz ainda mais autenticidade e representatividade para o filme. A química das duas é indiscutível, e a forma como se expressam em cena tem um valor enorme para a narrativa, principalmente a atuação de Maya Da Costa, que interpreta Coley. A atriz consegue transmitir com muita sensibilidade toda a dor da personagem: o luto pela perda da mãe, a dificuldade de se assumir, o medo da rejeição, a solidão e a confusão de uma adolescente que está descobrindo quem é. Mesmo nos momentos de silêncio, sua expressão comunica muito e faz com que o público sinta cada conflito vivido por Coley.

Apesar dos pontos positivos e do quanto essa história significa para mim e para diversas outras meninas que se apaixonaram por Coley e Sonya desde a primeira vez que as viram no clipe de Girls Like Girls, o filme, em muitos momentos, parece uma versão estendida do videoclipe.
Há muitas cenas desconexas, que acontecem apenas como lembranças ou pensamentos das personagens, sem qualquer diálogo ou menção anterior de que elas haviam acontecido. Muitos desses momentos, inclusive, estão presentes no livro, descritos de forma que fazem a gente entender a dinâmica do casal e torcer cada vez mais por elas. Porém, o filme opta por enxugar alguns desses acontecimentos, que acabam sendo mostrados apenas pela perspectiva das lembranças das personagens.
Isso, na minha visão, fez com que a história ficasse um pouco rasa (apesar do forte drama) e que a gente criasse mais ranço da Sonya do que realmente torcesse para que ela e Coley ficassem juntas. Mas é claro que, ao final, a gente vibra quando as duas finalmente conseguem acertar as contas e assumir o sentimento que sempre existiu entre elas.
É importante também destacar como as cenas são mostradas de forma respeitosa e com uma sensibilidade que só mulheres que amam mulheres conseguem retratar. São cenas extremamente cotidianas, que poucas vezes aparecem em produções audiovisuais sáficas.
Os famosos gay panics arrancam risadas no cinema, enquanto os momentos de autossabotagem fazem a gente derramar algumas lágrimas. Os planos utilizados também fazem toda a diferença nesse processo. Podemos perceber claramente o uso de enquadramentos mais fechados, focando nos rostos, nos olhares trocados entre as personagens e nos pequenos detalhes que tornam cada cena ainda mais especial.
No geral, acredito que Girls Like Girls veio para nós, que esperamos anos para finalmente ver essa história completa. Sim, ela poderia ter sido melhor executada em alguns aspectos, mas carrega um valor sentimental enorme e merece, sim, ser celebrada pela comunidade. Que possamos ter ainda mais filmes de Hayley Kiyoko e, principalmente, ainda mais produções audiovisuais significativas, feitas por mulheres que amam mulheres e para mulheres que amam mulheres.