Mais que um esporte: Roller Derby brasileiro é um espaço de inclusão, identidade e resistência

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O roller derby brasileiro vai além da pista: é um esporte amador marcado por inclusão, diversidade de gênero, identidade e resistência coletiva

por Maxine Pereira

Em Whip It (2009), o roller derby aparece como um universo onde garotas descobrem autonomia e pertencimento. O filme ajudou a popularizar a imagem de um esporte carregado de atitude. Fora das telas, o roller derby chegou no Brasil em 2010 e se consolidou como uma prática amadora, praticada majoritariamente por mulheres e pessoas trans e não-binárias. O derby vai além da competição e do contato físico, se tornando um ambiente de inclusão, identidade e resistência cultural.

Identidade em movimento 

A cultura do esporte valoriza a expressão individual, visível nas maquiagens, uniformes e nos derby names , apelidos escolhidos pelas atletas que carregam humor, ironia ou referências pessoais, e que simboliza quem aquela pessoa é dentro e fora da pista.

O roller derby se constrói como um espaço de cuidado e apoio sustentado por valores claros de respeito, diversidade e enfrentamento contra qualquer forma de descriminação. É um dos poucos esportes que não apenas aceita, mas valoriza a diversidade de gênero, garantindo a participação de todos sem constrangimento.

Jammer ‘’Tropeço’’ das Avas sendo bloqueada pela ‘’Caipora’’ das Ladies of Hell Town / Foto: Maxine Pereira (@fotosdamaxi)

Espaço acolhedor para mulheres sáficas

O caráter acolhedor do roller derby aparece também nas experiências de mulheres sáficas que constroem o esporte no Brasil. Pesquisadora e escritora Luísa Peixoto, que é lésbica, conhecida pelo derby name “Big Field” e integrante da liga Sugar Loathe, conta a sua experiência:

“Encontrar o roller derby foi especial por vários motivos, mas um dos mais fortes foi ter sido acolhida num espaço tão queer. Conviver com tantas mulheres e pessoas fora do binário me fez sentir mais confortável com meu corpo, com minhas vivências e comigo mesma de um jeito que eu nem sabia que precisava.”

Segundo ela, o esporte também mudou sua visão sobre a vida adulta. “Me apresentou outras possibilidades do que pode ser a vida adulta, que para além de homem, casamento, trabalho, filhos, pode ser companheirismo, comunidade, esporte, um monte de coisas. Muita coisa que a gente sabe na teoria, mas é muito diferente poder viver na prática e construir isso com pessoas tão incríveis.”

Experiência semelhante é relatada pela cineasta Hrane, que entrou na liga Sugar Loathe em junho de 2025. Ela afirma que encontro no Derby um ambiente seguro para viver sua identidade como mulher lésbica. 

“Desde o início, o roller derby tem sido um espaço extremamente acolhedor para mim. Como mulher lésbica, me sinto confortável para ser 100% quem eu sou, sem julgamentos. É um ambiente diverso, com muitas pessoas LGBTQIA+, onde o respeito e o cuidado são reais.”

Luiza “Big Field” como blocker da Sugar Loathe / Foto: Maxine Pereira (@fotosdamaxi)

Roller Derby no Brasil

O esporte chegou ao Brasil em 2010, sendo a Ladies Of Helltown a primeira liga do país, criada em São Paulo, seguido pela Sugar Loathe, no Rio de Janeiro, impulsionadas pelo revival internacional e pela influência cultural de Whip it. Surgiram de forma independente, organizadas por coletivos autônomos. 

Desde o início, manter uma liga ativa no Brasil nunca foi fácil. a escassez de espaços de treino, e a falta de reconhecimento fizeram com que a sobrevivência fosse um ato de resistência. Ainda assim o Derby resistiu movido pelo compromisso das pessoas e pelo amor ao esporte. Ele segue ativo há 16 anos e desde 2012, ligas de diferentes estados se reúnem para disputar o Brasileirão de Roller Derby , fortalecendo a cena nacional.

‘’Lets’’ como jammer das Ladies Of Hell Town / Foto: Maxine Pereira (@fotosdamaxi)

Histórias do Roller Derby Brasileiro

Em conversa com a jornalista Carol G. Fitzpatrick autora do livro-reportagem ‘’Do Nosso Jeito: Histórias do Roller Derby Brasileiro’’, de acordo com ela, roller derby é o esporte mais acolhedor e empoderador que temos, a comunidade não mede esforços para entregar a melhor experiência para quem quer aprender, colaborar ou mesmo assistir os jogos.

‘’Desde que entrei para as Gray City Rebels, em 2024, a minha vida mudou completamente. Descobri que mereço ser bem tratada em qualquer ambiente, passei a praticar mais atividades físicas, fiz amizades incríveis e fui incentivada a me desafiar em áreas que nunca imaginei, como a locução esportiva.’’

Percebendo que esse sentimento era igual para todes que vivenciaram o roller derby e querendo retribuir o carinho, ela escreveu o livro ‘’Do Nosso Jeito: Histórias do Roller Derby Brasileiro’’, que resgata memórias e traz relatos emocionantes sobre o esporte no Brasil

‘’Foi uma produção 100% independente, mas me orgulho muito do resultado e sou muito grata pelo apoio que recebi enquanto estava escrevendo e pela recepção que o livro teve após o lançamento. Essa experiência só me aproximou ainda mais da comunidade e aumentou o meu amor pelo esporte.’’

Carol G. Fitzpatrick segurando o seu livro ‘’Do Nosso Jeito: Histórias do Roller Derby Brasileiro’’ / Foto: Instagram (@elaeacarol)

Como Funciona ?

Roller Derby é um esporte de contato praticado em uma pista oval que combina resistência, velocidade e estratégia. Cada equipe possui 5 jogadoras em jogo, 1 jammer e 4 bloqueadoras. A jammer marca pontos ultrapassando as bloqueadoras adversárias dando uma volta completa na pista. As bloqueadoras formam ‘’walls’’, paredes humanas que tem a função de impedir a ultrapassagem. Apesar do contato, o esporte conta com regras específicas para garantir a segurança das atletas.

O jogo é dividido por dois tempos de 30 minutos e dentro desse tempo há várias rodadas ( chamadas de jams ) de até 2 minutos.

Ligas ativas no Brasil

Se você se interessou pelo esporte e quer acompanhar mais de perto as ligas ativas no país, elas costumam postar datas de treinos, recrutamentos e eventos por meio de suas redes sociais.

Serviço

Instagram de cada liga:

Avas (RJ): instagram.com/avasrollerderby/

Sugar Loathe (RJ): instagram.com/slrollerderby/

Ladies Of Helltown (SP): instagram.com/ladiesofhelltown/

Gray City Rebels (SP): instagram.com/graycityrebels/

Thunder Rats (Santos-SP): instagram.com/thunderratsds/

Capivaras (Piracicaba-SP): instagram.com/capivaras.rollerderby/

Blue Jay Rollers (Curitiba-PR): instagram.com/bluejayrollers/

Foto em destaque: Maxine Pereira

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