Fãs da novela “Três Graças” compartilham suas opiniões e perspectivas sobre como a diversidade é abordada em horário nobre
Por Marina Fiorani
Escrita por Aguinaldo Silva, “Três Graças” tem conquistado muitos fãs e uma audiência consolidada como novela das 21h. A nova produção da Globo despertou muito interesse e apreço por parte dos telespectadores, que se divertem nas redes sociais com os personagens caricatos e suas falas afiadas. Dentre os diversos elementos que cativaram os internautas, a pauta da representatividade, em especial, tem gerado grande comoção entre o público. Nessa semana, o Lesbocine conversou com algumas fãs da novela, que nos contaram um pouco sobre o que o casal representa para elas como parte da comunidade LBT+.
Desde os primeiros resumos que instigaram uma futura aproximação entre as personagens Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovsky), as fãs da novela passaram a esperar ansiosamente pelo encontro das duas. Na trama, Lorena é a filha de Santiago Feretti, considerada uma menina rebelde e impulsiva, com ideais sustentáveis e valores feministas. Já Eduarda Fragoso, apelidada de Juquinha, é a estagiária do policial Paulinho (Rômulo Estrela), uma menina direta, determinada e bem resolvida com sua sexualidade. Raissa Weber, fã das personagens, conta que já se empolgou com os burburinhos quando a possibilidade de haver um casal lésbico na novela era somente um rumor. “Vai ser um marco para a minha geração ver isso em uma novela das 21h!”, celebrou a física médica, de 31 anos. “Só nós que ainda lutamos por representatividade sabemos o quanto um casal lésbico em uma novela no horário nobre é gigante!”.
A dupla se conhece numa “girls night” organizada por Maggye (Mell Muzillo), que é amiga em comum entre as personagens. A repercussão do teaser do capítulo na internet foi instantânea e muito positiva: nas redes sociais, telespectadoras da novela compartilharam uma série de tweets, memes e comemorações ao encontro e consolidação de suas expectativas quanto ao casal. A paixão e o carinho pelas duas se deve não só à esperança de uma representação positiva por parte da comunidade sáfica, mas principalmente ao enredo cuidadoso com a construção da história das personagens, que deverá ser feita sem pressa, de forma a acostumar o público com os dilemas pessoais e trajetórias individuais de cada personagem, conforme afirmou a jornalista Carla Bittencourt, na semana de estreia da novela.
Motivadas por se verem representadas na história, as fãs de “Três Graças” relatam que chegaram a se reunir com outras telespectadoras na internet para comentar o desenvolvimento do romance, e que algumas até se tornaram amigas próximas. “O mais incrível é ver como isso se refletiu nos grupos de fãs”, revelou Alana Bressan, que é assistente comercial e tem 27 anos, sobre sua relação com o ship, carinhosamente apelidado de “Loquinha”. “Eu faço parte do União Loquinha, e em apenas um mês todo mundo lá já criou uma amizade muito forte por causa da novela e da identificação com a história da Juquinha e da Lorena (…)”.
Já Larissa Prestes, 19, também deu sua opinião para a nossa redação e conta que assiste novelas desde nova, e que o casal vivido por Alanis e Gabi também tem agradado pessoas de fora da comunidade, como sua família: “Aqui em casa, minha mãe riu muito na cena em que a Juquinha falou pra Gerluce (Sophie Charlotte) que era lésbica!”, comemorou. “Eu esperava que ela fosse ter uma reação negativa, mas ela teve uma muito positiva, e adora a personagem, o que me surpreendeu positivamente também. Essa visibilidade também serve para conscientizar o público geral, porque nós precisamos e merecemos ser vistas”. A estudante ainda conta que, em seu perfil “Acervo Loquinha” no Twitter (atual X), tem visto elogios até de telespectadores de fora do país. A interpretação singela de Alanis Guillen e Gabi Medvedovsky, somada à naturalidade com a qual o tema é abordado, foram muito especiais para a recepção positiva desse público, que tanto se enxerga nas personagens. Para elas, a trajetória de Lorena e Juquinha se encaminha para ser exatamente o que a comunidade tanto deseja ver.
Por isso, as expectativas para o desenvolvimento do casal são altas: segundo as entrevistadas, a fanbase está confiante com a possibilidade de Loquinha “não ser tratada como um enfeite”, já que Aguinaldo Silva já escreveu outros casais LGBT+ com desenvolvimento positivo (considerando a época). Sobre histórias anteriores, Raissa criticou a superficialidade na abordagem do romance: “eu sentia que faltava uma construção da história, talvez pela falta de tempo de tela que um casal lésbico tem em TV aberta. Principalmente porque tem atrizes que nós vemos que realmente estão empenhadas em trazer essa representatividade”.
Nesse quesito, as fãs rasgam elogios para Alanis e Gabi: “Eu vejo a representação da Juquinha e da Lorena como algo muito cuidadoso e extremamente necessário. Elas são personagens complexas, com conflitos assim como os outros. Isso, pra mim, faz toda a diferença. Ver duas mulheres vivendo uma história construída com sensibilidade, humor e vulnerabilidade é especial, porque humaniza e aproxima, mostra que nossas vivências também merecem espaço, principalmente no horário nobre”, opinou Alana. As atrizes recebem congratulações carinhosas nas redes sociais, tendo cativado rapidamente o público, que se diverte com as interações e fotos de backstage postadas pelo elenco.
Elas também deixam feedbacks a respeito do roteiro, deixando claro que esperam que a história de “Loquinha” siga sendo contada com “a mesma sensibilidade, coerência e verdade emocional que já conquistou tanta gente”. Não é nenhuma novidade que a representação do amor entre mulheres na teledramaturgia brasileira, apesar de estar ganhando espaço, é frequentemente trazida de forma escrachada e associada a histórias trágicas sem finais felizes. Há inúmeros exemplos de casais sáficos em obras audiovisuais reduzidos a um mero conflito ou triângulo amoroso na trama principal. Muitas vezes, ainda, as vivências das personagens são rasas e resumidas somente à sua trajetória de descoberta e aceitação da sexualidade por parte da família, nunca evoluindo e se aprofundando em outras questões e narrativas com a mesma complexidade do restante da trama.
“A comunidade LGBT+ está cansada de ver casais terminando de forma negativa, ou sendo usados apenas como fonte de conflito. A gente espera acompanhar uma história de amor simples, bonita e emocionante, como tantas histórias heterossexuais recebem há décadas no horário nobre”, Alana pontuou. “Queremos continuidade, consistência e coragem. Queremos ver nosso amor representado de forma real, com carinho, com intimidade e sem medo do que um público conservador possa pensar”.
As exceções para essa realidade, como os amados casais Clarina (Clara e Marina, de “Em Família”), Limantha (Lica e Samantha, de “Malhação”) e até mesmo Juliantina (Juliana e Valentina, de “Amar a Muerte”, telenovela mexicana) são lembradas com muito afeto pelo público, que pede que a representatividade exista de forma leve e respeitosa, da mesma forma que acontece com incontáveis casais heterossexuais. Por anos, a comunidade comemorou o fato de que a diversidade começava a ganhar espaço no audiovisual, ainda que de forma escassa e clichê; mas agora, a audiência pede por traduções fidedignas e naturais de suas vivências. “Espero algo leve (…), que mostre algo real, que nós, lésbicas, realmente vivemos. Eu não quero de jeito nenhum que aconteça uma tragédia com o casal! Chega de dramas!”, foi o apelo de Raissa, ao que Larissa completa: “Quando a gente se enxerga na tela, a sensação é de existir um pouco mais”.
Claro, abordar temas tão sensíveis é mais do que necessário, mas a comunidade ainda deseja ver pessoas com realidades parecidas com as suas vivendo o amor e as pequenas felicidades do dia a dia. A frase “o sonho de todo LGBT+ é poder viver a mediocridade do cotidiano” é frequentemente compartilhada de forma humorística nas redes sociais, mas abriga a pulsante esperança de encontrar beleza e prazer no corriqueiro, e não somente no final do túnel de uma trajetória de luta e sofrimento.
Foto em destaque: Alanis Guillen via Instagram