Festival do Rio: confira as opiniões da Equipe Lesbocine sobre os filmes sáficos da edição!

Crítica Festival

Um dos maiores festivais de cinema da América Latina, O Festival do Rio, aconteceu entre os dias 1 e 11 de outubro em diversos cinemas pelo Rio de Janeiro; e nossas adms Domi, Cecília e Sarah percorreram a cidade para assistir alguns dos filmes sáficos na programação.

Confira aqui nossas impressões sobre cada uma das obras!

A VOIX BASSE – Por Domi Ellis

Já adianto dizendo que, para mim, esse foi o filme mais emocionante do festival. Existe uma conexão muito forte entre os momentos mais tristes e mais felizes das nossas vidas, e acho que esse filme captura muito bem esse sentimento. A direção do filme é impecável, com uma visão muito clara dessa história sendo executada com excelentes atrizes, e um roteiro que, apesar de não muito inovador, constantemente subverte expectativas. É impossível não se identificar com a personagem principal: as experiências da vida dela como uma mulher sáfica geram sentimentos universais que com certeza qualquer pessoa da comunidade consegue entender. Como a cultura Brasileira é muito focada em relacionamentos familiares, a exploração disso no filme fez com que o distante ficasse mais perto, trazendo um aspecto bem pessoal para a obra devido a essa conexão. O longa é uma coprodução da França e da Tunísia, o que traz uma cinematografia muito específica (com uma paleta de cores linda) para o filme, e um aspecto sociocultural extremamente interessante — de certa forma, eu consideraria essa produção uma versão árabe do filme Desobediência. O filme ganhou o Prêmio Felix (prêmio LGBTQ+ do festival do Rio) de Melhor Filme Internacional, e realmente mereceu essa vitória pela delicadeza ao contar essa história. 

A GRUTA – Por Domi Ellis e Sarah Amorim

Domi Ellis:

Acredito que esse seja um dos filmes que quanto mais vezes você vê, mais você vai gostar, devido a todos os pequenos detalhes sobre como esta história foi construída. Porém, como alguém com uma formação em roteiro, senti falta de um enredo mais forte para me conectar com essa história. Esse é um filme perfeito para aqueles que gostam de filmes experimentais que são menos sobre a trama e mais sobre o desenvolvimento do universo. Por mais que eu possa gostar de alguns filmes bem malucos (Acampamento Miasma… eu te amo), acho que o filme não conseguiu ser louco o suficiente para me prender, o que resultou em tédio.

Porém, quanto mais converso com pessoas que gostaram do filme, mais consigo vê-lo por outra perspectiva. É necessário falar sobre as escolhas estilísticas do filme; não só na maneira que a câmera é usada e as diferentes proporções de aspecto, mas também pela maneira que a história é contada de forma bem inovadora, com uma perspectiva extremamente feminina (amei, quero mais!). Infelizmente, não gosto de filmes parados, mas para as pessoas que têm um pouco mais de paciência, acho que é um filme interessante de assistir, e gostaria de vê-lo novamente após ter lido mais sobre o filme! 

PS: Não contem para ninguém, mas teremos entrevista com a galera de A GRUTA pro Lesbocine logo logo! Agradeçam à fã número um deles, a adm Sarah (que foi quem mudou muito a maneira que eu tinha visto o filme após nossas conversas).

Sarah Amorim:

A Gruta me cativou bastante por ser um filme com roteiro simples e que mostra um cotidiano muito próximo de pessoas comuns. Nós vemos as protagonistas enfrentando problemas que a gente facilmente enfrentaria (afinal, quem nunca se apaixonou pela melhor amiga e a beijou dentro de uma igreja né?). Eu gosto do cuidado que as atrizes tiveram com as personagens e também como nós vemos os núcleos familiares sendo mostrados, assim como o peso que eles têm na decisão que Anneta precisa tomar. Ao invés de mostrarem o relacionamento dela com o namorado, os diretores preferiram mostrar a dinâmica entre ela e a sogra, o que eu, particularmente, achei bem interessante, pois através da mãe nós (e a personagem) consegue perceber que tipo de vida ela teria, caso escolhesse ficar. Temos também a avó de Anneta, que bem sorrateiramente diz para a neta que aborto é uma opção que ela não tinha na época dela, mas que Anneta (alerta de spoiler), que está grávida, pode tomar. 

E, por fim, temos o relacionamento entre Anneta e Argyro, que leva uma vida solitária com o pai. O filme deixa claro que a amizade entre elas é um dos pontos mais importantes na vida de Argyro e a ausência da amiga, e a ideia de que talvez ela tenha escolhido o namorado, a faz repensar muito sobre o quão dependente ela é desse relacionamento. Acho importante frisar que a trama se passa no interior da Grécia, numa cidadezinha que mais se parece uma vila, onde o machismo, misoginia e a homofobia acham lugar para se expressar facilmente. Argyro tomou a ausência de Anneta como uma decisão, pois aquilo é esperado delas. Uma coisa que eu observei no filme é o quão parecido os Balkans são dos Latinos; nós temos uma “estética” muito parecida e acho que todo mundo que vem de uma cidade do interior do Brasil pode muito bem afirmar que é extremamente complicado ser LGBT+ nesses lugares. A Gruta, para mim, trouxe tudo isso de uma forma muito sucinta e delicada. Minha única crítica é que o elemento da gruta e do mistério referente a ela ficou um pouco deslocado, mas acredito que seja pelo fato do filme antes ter sido um curta e esse ponto tenha ficado um pouco esquecido na hora de adaptar para um longa.

BIG LITTLE THINGS

De certa forma, o conceito desse filme é bem parecido com o Em Segredo, porém lidam com problemas parecidos de formas diferentes, e através de uma perspectiva asiática. Novamente, os tópicos mencionados no filme em relação a sair do armário e dificuldades familiares são conceitos com os quais  todas as pessoas sáficas conseguem se identificar, até certo ponto. Considero esse filme um pouco problemático devido à maneira como lidam com essa premissa de sair do armário e sexualidade, e tem momentos que com certeza iriam incomodar muitas pessoas. Esse filme me fez pensar bastante, o que para mim é uma das coisas mais importantes sobre qualquer projeto audiovisual, mas infelizmente, achei-o um filme esquecível. 

AMORA – Por Domi Ellis e Cecília Lopes

Domi Ellis:

Estou tentando ser imparcial, pois todos da equipe sabem que sou apaixonada pela Bruna Linzmeyer, porém realmente achei Amora uma das coisas mais lindas que eu já vi na minha vida. Vale destacar que Amora não é um filme, e sim um seriado antológico, do qual assistimos a somente o primeiro episódio no festival; mas eu não poderia estar mais animada para ver os próximos! Para mim, esse episodio de Amora é a definição perfeita de alegria queer/lésbica. De forma bem parecida com Em Segredo (sim, eu amei esse filme, vocês já entenderam…), ele também faz as conexões difíceis mas extremamente profundas entre felicidade e tristeza, e a vida e a morte.

Acredito que Amora é a representatividade mais legítima que já vi de um amor sáfico em uma série de TV, e acho que isso é em grande parte devido ao fato de ser um projeto criado pela comunidade LGBTQ+. Não eram só as atrizes que eram sáficas, mas também a diretora e as escritoras; e o que pode parecer só um detalhe acaba fazendo uma diferença perceptível na qualidade do seriado. Apesar do primeiro episódio ter os seus dramas, pois nem tudo pode ser perfeito sempre, a diretora Juliana Rojas conseguiu capturar uma felicidade entre o casal que acho indescritível. Apesar dos conflitos, dos medos, das tensões — o amor é maior do que tudo nessa série. Foi uma história muito delicada, muito linda, e extremamente bem feita, e estou contando os dias para os outros episódios saírem. Precisamos de mais pessoas sáficas/LGBTQ+ na indústria de cinema criando histórias sobre a nossa existência!

PS: Estou tão curiosa sobre o resto dos episódios que estou quase lendo o livro Amora, que foi inspiração para a série.

Cecília Lopes:

“Amora” consegue fazer um mix de gêneros fascinante, a série é um drama e também uma comédia camp, com um toque de suspense, característico da direção de Julia Rojas. O primeiro episódio trata do nascimento do filho de Tereza e Daniela, interpretadas por Linzmeyer e HIkari,  em meio a um funeral. Com a vinda do bebê chegando, Tereza luta para ser legalmente reconhecida como mãe, e a aflição de não ter a guarda do filho vai levando-a ao extremo. Ao mesmo tempo, Daniela lida com suas inseguranças sobre ser uma boa mãe enquanto é cercada pelas tias católicas e um pouco homofóbicas de Tereza. Esse sentimento de antecipação e incerteza casa perfeitamente com os momentos de comédia, que relaxam a tensão narrativa, como com os de apreensão, que enroscam o espectador no drama das personagens. Além das nuances de gênero, Amora essencialmente conta uma história muito honesta sobre família, identidade e pertencimento.

A PROFESSORA DE FRANCÊS – Por Domi Ellis

Achei esse filme um orgulho para o cinema nacional. Por mais que esse longa seja uma coprodução do Brasil com a França e Portugal, eu não acho que ele poderia ser mais brasileiro. Adoro ver filmes de vários países, pois é fascinante comparar como diferentes culturas são tão parecidas e tão diferentes ao mesmo tempo, mas também é muito especial poder ver algo tão brasileiro, que imediatamente te faz sentir como uma parte daquele universo. De certa forma, acho que este também é um filme mais parado, mas isso funciona perfeitamente para esta história. Esses pequenos momentos de desconforto e inquietude que vão surgindo no filme devagarzinho se transformam em um terror de verdade, o que faz com que esse processo mais lento valha a pena. 

A origem dos conflitos do filme é a religião, que é um tópico muito importante a ser explorado, especialmente considerando a situação política atual em que  a religião é usada como desculpa para discriminação. A vilã da história não é a religião; é a maneira como as pessoas à interpretam, e o fanatismo religioso que pode surgir disso. Esse filme não me fez sentir só felicidade ou tristeza, pois ele abrange muitos outros sentimentos de angústia, desespero, e até dúvidas do que é ou não real (uma vibe bem Gaslight, para os amantes de cinema). Por mais que eu não seja fã do gênero de terror (desculpa, Fear Street, mas nunca vou te assistir), gosto muito de um terror psicológico, à la Mike Flannigan; ele não dar sustos ou criar figuras assustadoras para que você não consiga dormir de medo, mas vai falar sobre problemas reais do mundo, e como muitas vezes o terror é mais próximo do que imaginamos na realidade.

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