A Importância da Maternidade Sáfica nas Séries GL

Cotidiano Crítica Entretenimento Girls Love

Por Cecília Lopes

Existe vida depois dos filhos? Por muito tempo, para as mulheres, essa resposta foi não. A noção de que uma mulher poderia querer mais da vida do que ser mãe e dona de casa é muito recente, e ainda hoje, mulheres são julgadas por continuar a trabalhar depois de terem filhos. Para mães solo, essa opção nem existe, e a expectativa de sacrifício é maior ainda. Além de sustentar suas famílias de dia, de noite ao chegar do trabalho, elas ainda têm que realizar todo o trabalho doméstico, resignando-se a compactuando uma jornada dupla que as deixa exaustas. Muitas dessas mulheres ainda enfrentam uma jornada tripla, mantendo mais de um emprego para se sustentar.  

Esse é o caso de Ing, protagonista do novo GL da Ch3, PlayPark : The Series, uma mãe solteira que trabalha como gerente de um parque de diversões, e de noite, faz bicos como entregadora. É durante essa jornada de trabalho que Ing atrai o olhar de Lin, uma executiva de sucesso cuja empresa vai comprar o parque em que ela trabalha.  

Foto: Reprodução: “PlayPark : The Series” Ch3

Na perspectiva do patriarcado, existe a ideia que depois de ter filhos, a mulher se torna menos atraente. Parir é um marco inegável que a mulher já teve uma vida sexual, então, numa sociedade em que a virgindade é um símbolo de valor, a obsessão pela juventude beira a pedofilia, o corpo da mulher se torna um objeto gasto depois dela se tornar mãe. Mas no romance de PlayPark, nenhum desses fatores entra em cena, pelo contrário, Lin se atrai por Ing exatamente por causa de sua determinação. Na relação das duas podemos ver algo que é raro na mídia : um relacionamento entre uma mãe solteira e um parceiro sem filhos em que a criança não é vista como um fardo.

Foto: Reprodução: “PlayPark : The Series” Ch3

Com o progredir da história, é revelado que Ing foi vítima de violência doméstica no seu relacionamento com o pai do bebê, e ainda é perseguida por ele. Essa virada traz mais profundidade à série, que passa a não ser só um romance água-com-açúcar, mas sim uma história sobre como é possível encontrar o amor mesmo depois de sofrer o impensável.  

Muitos abusadores fazem suas vítimas acreditarem que ninguém mais seria capaz de amar elas, e por isso, elas precisam continuar no relacionamento. Na Tailândia, que é um país em que 1 em 6 mulheres em relacionamentos héteros são vítimas de violência doméstica, é extremamente importante mostrar que isso não é verdade. Como uma mulher lésbica que escapa do abuso e consegue viver feliz com sua parceira e seu filhinho, Ing é uma personagem muito especial, que representa a vivência de muitas mulheres.

PlayPark recebeu muita atenção por abordar o tema da maternidade sáfica, mas na verdade ele não é o primeiro GL que transcorre sobre esse tema:, séries como Denied Love (2025), Couple of Mirrors (2021) também mostram casais sáficos com filhos.  Uma série que que aborda a maternidade com muita profundidade é a obra prima do GagaOOLahLah, Fragrância da Primeira Flor.

Foto: Reprodução: “Fragrance of The First Flower”GagaOOLaLa

O GL acompanha o reencontro de Yi-ming e Ting-Ting, duas mulheres que viveram um romance na adolescência, mas não puderam ficar juntas. Quando elas se veem de novo, Yi-ming está casada e tem um filho de 6 anos, Xiao-Zhe, que é uma pessoa com autismo. Ela é sustentada pelo marido e não sente que pode se separar dele, como muitas mulheres, Yi-ming foi ensinada a prezar pela família nuclear, e tem medo do que pode acontecer se ela sair desta dinâmica. 

Foto: Reprodução: “Fragrance of The First Flower”GagaOOLaLa

Mas com o avanço da história, Yi-ming percebe que se manter nesse lugar não traz nenhum benefício para ela, nem para o seu filho. O pai de Xiao-Zhe não entende a condição do menino, e não presta nenhum suporte emocional ou psicológico. É a amante, Ting-Ting, que acaba se tornando uma figura parental. Enquanto o pai trata Xiao-Zhe como um fardo, Ting-Ting oferece o cuidado, e a parceria entre as duas é o que dá coragem para Yi-ming pedir o divórcio.

Apesar disso, nem tudo são flores, e a segunda temporada foca nas dificuldades de Yi-ming como uma mãe atípica que tenta voltar ao trabalho depois de muitos anos. As pressões financeiras e dificuldades do divórcio complicam o relacionamento das duas, trazendo novas camadas para a trama. 

Foto: Reprodução: “Chaser Game W”TV TOKYO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Outra produção que traz o dilema entre viver o amor sáfico e atender as expectativas da sociedade como mãe, é Chaser Game W: Minha Ex-Namorada é Minha Chefe Abusiva. Do Japão. A série é mais uma do gênero Women Losing Women, e segue uma trama parecida com Fragrância da Primeira da Flor, só que dessa vez o casal se reencontra como chefe e subordinada.

Depois de um término doloroso, Fuyu acaba voltando pro armário, se casa com um homem e tem uma filha. Anos depois, ela reencontra sua paixão, a charmosa Itsuki, e o romance entre as duas floresce. 

Foto: Reprodução: “Chaser Game W”TV TOKYO

Fuyu se encontra em uma situação muito complicada: mesmo se identificando como lésbica, ela não quer se desfazer de toda vida que construíu com o marido. Para ela, se assumir  é decepcionar sua família, falhar como filha e mulher. Assim, ela tenta continuar com o casamento, mas sua família descobre o caso com Itsuki. 

Com isso, Fuyu sofre mais repressão. Seus pais querem forçá-la a largar o emprego, acreditando que a função de dona de casa vai “consertar” a sexualidade da filha.  Ela tenta se adaptar à essa maternidade trad wife, mas cada vez vai se afundando mais em uma depressão. Finalmente, é o próprio marido de Fuyu que intervém, e pede para que ela volte com Itsuki. Dessa forma, os três podem ser felizes e a menininha cresce com o amor de duas mães. 

Foto: Reprodução: “Chaser Game W”TV TOKYO

Mesmo completamente diferentes, essas três histórias trazem uma mensagem em comum: ser mãe não é algo que limita sua sexualidade. Nunca é tarde demais para se descobrir. O amor não tem uma estrutura rígida, e a melhor família nem sempre é a tradicional. 

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