Por Rayanne Tovar
A nova série da Globoplay, criada por Thalita Rebouças, acompanha a vida de quatro mulheres 40+ que, após o fim de seus casamentos, constroem uma rede de apoio potente, sensível e, sobretudo, real. Laura (Sheron Menezzes), Ana Lia (Natália Lage), Claudinha (Débora Lamm) e Joana (Luciana Paes) compartilham dores, recomeços e descobertas em uma narrativa que equilibra leveza e profundidade.
Ambientada no Rio de Janeiro, a produção transita entre o subúrbio e a Zona Sul, explorando diferentes realidades sociais enquanto mantém como ponto de encontro das protagonistas um espaço boêmio, onde desabafos, risadas e conflitos se entrelaçam. Ao longo de 10 episódios, a série aborda questões como machismo, menopausa, síndrome do ninho vazio, escolha de não ter filhos, desafios profissionais, sexualidade e o cuidado com pais idosos, temas que atravessam a vida de muitas mulheres nessa faixa etária.
Inspirada em experiências pessoais da autora, que precisou se reinventar após a separação de um longo casamento, Juntas & Separadas aposta na força do poder feminino como ponte de transformação. E é justamente nesse território de descobertas e transformações que surge um dos arcos mais interessantes da trama para nós.
Enredo sáfico sensível, mas ainda contido

Claudinha, professora de química e artesã, vive uma rotina marcada por batalhas diárias: sustentar duas filhas pequenas, lidar com um ex-marido insistente que não aceita o divórcio e suportar as constantes críticas da mãe. Mulher gorda, Claudinha tem uma autoestima fragilizada, construída a partir de anos de julgamentos, especialmente dentro de casa. Em certo momento, ao perceber o interesse genuíno de Júlia, ela questiona, desacreditada: “o que você viu em mim?”.
É nesse contexto que surge Júlia (Aline Borges), uma mulher negra, segura de si e abertamente ‘gay’ como se identifica, que transforma o olhar de Claudinha sobre si mesma e sobre o desejo. O encontro das duas acontece de forma despretensiosa, nas aulas de natação das filhas, mas rapidamente evolui para o relacionamento mais saudável e sólido da série.
A narrativa acerta ao mostrar, com sensibilidade, o processo interno de Claudinha: o medo do julgamento social, a dificuldade de se reconhecer em um novo desejo e o impacto direto da lesbofobia, representada principalmente pela reação violenta do ex-marido, que a ameaça e chega a retirar as filhas à força de sua casa ao descobrir o relacionamento.
Júlia, por sua vez, traz outra camada importante à trama: a de uma mulher negra, ‘gay’ e resolvida, que já viveu outras relações e tem uma filha com a ex-esposa. Sua presença é fundamental não apenas como par romântico, mas como símbolo de autonomia e afirmação.
Com uma química incrível, as personagens entregam muitas declarações de amor, momentos românticos e engraçados.

Apesar dos acertos na construção emocional e na abordagem de temas relevantes, a série ainda esbarra em um problema recorrente em diversas produções audiovisuais: a desigualdade na representação da intimidade. Enquanto casais heterossexuais têm cenas íntimas abundantes, por vezes até excessivas, o relacionamento entre Claudinha e Júlia é tratado com mais contenção.
Essa escolha evidencia um padrão já conhecido na televisão: histórias sáficas são permitidas e até celebradas, mas dentro de certos limites de conforto para o público. A crítica não invalida a importância do arco, mas aponta para um tabu que ainda precisa ser superado.
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Juntas & Separadas consegue, com eficiência, equilibrar humor e crítica social, sem perder o ritmo leve que torna a série envolvente. Mais do que uma história sobre divórcios, a produção fala sobre recomeços, sobre se permitir sentir e, principalmente, a sororidade entre as mulheres, a importância de uma rede de apoio E claro, sobre a possibilidade de amar em qualquer fase da vida.
Ao colocar no centro mulheres 40+, com corpos, histórias, desejos diversos e reais, a série rompe com estereótipos e amplia o debate sobre envelhecimento, sexualidade e pertencimento. De forma muito assertiva e verdadeira.
Foto em destaque: Reprodução/Globoplay