Nas entrelinhas da personagem: Alanis Guillen comenta a construção de Lorena Ferette e o papel da novela em ampliar discussões

Entrevista Novela

Fenômeno “Loquinha” cativa audiência após semanas decisivas na novela das nove, e a atriz celebra a transparência da narrativa: “As pessoas precisam ser retratadas como elas são”.

Neste mês, a redação do Lesbocine teve a oportunidade de conversar com Alanis Guillen, que dá vida à ativista Lorena Ferette na atual novela das nove da Globo, e conhecer seu olhar sobre os diálogos trazidos por sua personagem em TV aberta. Nascida em Santo André – SP, Alanis é atriz e modelo e ganhou grande destaque na dramaturgia através de papéis como Rita (Malhação: Toda Forma de Amar) e Juma (Pantanal). Falando sobre sua personagem atual, ela nos traz seu olhar sobre a importância dos debates expandidos em horário nobre na atual produção da Rede Globo.

Destaque na obra “Três Graças”, o casal composto pelas personagens Lorena e Juquinha (Gabriela Medvedovsky) dominou os assuntos mais comentados nas redes sociais ao longo dos últimos meses, e já até ganhou um spin-off em formato de novela vertical. Após cativar o público com uma abordagem delicada e conquistar milhares de fãs ao redor do mundo, o ship se consolidou como uma das relações mais aclamadas da teledramaturgia brasileira. Para Alanis, a história e as personagens traduzem uma urgência que temos como sociedade em falar sobre afeto com responsabilidade e sensibilidade.

 

Confira a entrevista completa:

Conta pra gente um pouco sobre a construção de personagem da Lorena. Você participou do processo de definir sua história, motivações e valores junto aos roteiristas? Existe alguma característica nela que você acha que o público não presta muita atenção, mas que você considera importante pra trama?

Foi muito gostoso construir a Lorena junto com os autores e também a partir dos meus estudos e das trocas com a minha equipe. Sinto que ela tem pontos que se conectam comigo, principalmente na forma de enxergar o mundo com verdade, sensibilidade e pensamento. 

A Lorena é uma personagem contemporânea, que entende o que fala, que observa, sente e acredita nas coisas com profundidade. Ela valoriza relações construídas com afeto, escuta e respeito, e quer que as pessoas possam viver em harmonia sendo quem realmente são. Ela leva isso para a própria vida, para os amores, para as expectativas e para o jeito como imagina o futuro. Tudo com integridade, presença e coração aberto. 

 

Você se lembra do primeiro momento em que se deu conta da proporção da repercussão internacional? Na sua opinião, o que isso significa para a forma como as mulheres lésbicas e bissexuais serão representadas no audiovisual brasileiro? Acredita que a perspectiva é positiva, ou ainda é cedo pra dizer?

Em algum momento eu me dei conta de que a repercussão tinha ganhado uma dimensão muito maior, tanto no Brasil quanto fora. Muito por causa da força dos diálogos da Lorena com os pais, com a mãe e com o amor dela, a Juquinha. Ali eu entendi que isso abriria uma conversa importante para além do nosso núcleo, especialmente com o público. Porque estamos falando de vidas reais, amores reais, sensações reais, coisas que fazem parte do nosso cotidiano. 

A novela brasileira sempre foi um espelho da nossa vida, e esse é um tema, uma pauta e um amor que existem e estão presentes. Acho que ainda há muito espaço para ampliar essa visibilidade. As pessoas precisam ser retratadas como elas são, com verdade. Principalmente hoje, num mundo contemporâneo que não pode mais se sustentar em narrativas que não existem.

 

Você já sabe qual caminho a sua personagem e a Juquinha trilharão dentro da novela? Tem algo que você possa adiantar, ou os próximos passos da Lorena e do casal ainda estão indefinidos? 

Eu acho que as personagens vão trilhar o próprio caminho no sentido de viver esse amor de verdade. Vão passar pelas dificuldades, permanecer unidas e representar um casal que se dá bem, que acredita no futuro, que conversa, troca e constrói junto. É um amor leve na forma, mas muito profundo na essência. Íntimo, cotidiano, feito de presença e escolha. Ainda tem muita coisa bonita e interessante para acompanhar sobre a vida das duas. 

 

Pensando na sua fala sobre “Loquinha” estar entrando nas casas de pessoas que negam a existência de mulheres e casais como Lorena e Juquinha, de que forma você acha que a maneira como o ship está sendo retratado vai ser vista por esse público mais resistente e conservador? Acredita que a opinião dessa parcela da audiência vai ter muito impacto no que podemos esperar de grandes emissoras como a Globo a partir de agora? 

Estamos prestando um serviço muito importante para a sociedade ao dizer, antes de tudo, que estamos em 2026 e que ainda acreditamos no amor. E também ao lembrar que essas histórias existem há sempre, não são novas, fazem parte da vida real, da vida inteira. Falar de amor passa, necessariamente, por falar de respeito e de qualidade de afeto. Num Brasil que ainda convive com índices alarmantes de feminicídio e onde as mulheres seguem pouco representadas, é urgente olhar para tudo com mais responsabilidade e sensibilidade. Inclusive, e especialmente, para o amor entre duas mulheres. 

 

Uma questão que tem sido muito comentada é a forma como a novela tem inserido os pequenos detalhes sobre a vivência de mulheres lésbicas e bissexuais nas ações da Lorena e da Juquinha. O toque na pulseira, as perguntas subentendidas para descobrir se a outra também se relaciona com mulheres… como uma mulher bissexual, como você vê essa construção e delicadeza? Como você acha que se sentiria vendo esse tipo de representação positiva em horário nobre quando mais nova? 

Eu acho que intimidade, delicadeza, afeto e respeito valem para qualquer relação. Seja entre duas mulheres, dois homens, um casal hétero ou qualquer forma de vínculo amoroso ou afetivo. O que precisa estar sempre em primeiro lugar é o respeito, o cuidado, o carinho, as sensações que não precisam ser ditas, os olhares, a escuta. 

Eu me sentiria muito bem vendo isso representado na televisão, porque acredito na educação, na delicadeza e no respeito, como mulher e como ser humano. Estamos falando de um casal, mas poderíamos estar falando de qualquer relação humana, que precisa ser construída e retratada com verdade, respeito e qualidade de afeto

 

Imagem destacada: Reprodução Globo/GloboPlay

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