Casal de mulheres é assassinado após Réveillon na Bahia e caso levanta alerta sobre lesbofobia e violência de gênero

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Duas mulheres que mantinham um relacionamento amoroso foram mortas poucas horas depois de serem vistas comemorando a virada do ano em Remanso, no norte da Bahia. O crime, tratado como feminicídio, reacende o debate sobre lesbofobia, ódio e a urgência de políticas de proteção às mulheres e à população LGBTQIA+.

Por Rayanne Tovar

O início de 2026 foi marcado por uma tragédia brutal em Remanso, município localizado no norte da Bahia. Um casal de mulheres foi encontrado morto nas primeiras horas da manhã do dia 1º de janeiro, poucas horas depois de terem sido registradas celebrando o Réveillon em um evento público da cidade.

Imagens que circularam nas redes sociais mostram as duas sorrindo, dançando e comemorando a chegada do novo ano ainda na madrugada, momentos antes do crime que chocou a população local e gerou forte comoção.

As vítimas mantinham um relacionamento e, segundo familiares e amigos, eram conhecidas na comunidade. O caso rapidamente ultrapassou os limites do município e passou a integrar o debate nacional sobre violência de gênero, lesbofobia e lesbocídio, termo utilizado para caracterizar assassinatos motivados pelo ódio contra mulheres lésbicas e/ou em relacionamentos lésbicos.

A Polícia Civil informou que as investigações avançaram e que um suspeito foi identificado. Ele também foi encontrado sem vida no local e, segundo informações preliminares, era ex-companheiro de uma das vítimas. A motivação do crime segue sob apuração, mas o caso está sendo tratado, conforme a legislação brasileira, como feminicídio.

Quando ódio às mulheres e lesbofobia se cruzam

A morte do casal não pode ser analisada apenas como mais um episódio de violência contra a mulher. Trata-se de um crime que evidencia a interseção entre dois tipos de ódio: a misoginia, o desprezo sistemático pelo feminino, e a lesbofobia, a aversão específica a mulheres que se relacionam com outras mulheres.

Mulheres lésbicas enfrentam uma dupla vulnerabilidade: são alvos tanto da violência machista, que busca controlar seus corpos e escolhas, quanto do preconceito contra sua orientação sexual. Quando um ex-companheiro mata uma mulher que o rejeitou para viver um relacionamento lésbico, há uma mensagem brutal de que a autonomia feminina, especialmente aquela que exclui a figura masculina, é punida com a morte.

O feminicídio, tipificado no Brasil desde 2015, reconhece que mulheres são assassinadas pelo simples fato de serem mulheres. Contudo, quando a vítima é lésbica, essa violência ganha uma dimensão adicional de crueldade e ódio que ainda carece de reconhecimento legal específico.

Uma tragédia que não é isolada

O crime de Remanso se insere em um contexto mais amplo de violência letal contra mulheres LBTQIA+ no Brasil. Casos recentes têm mobilizado movimentos sociais e entidades de defesa dos direitos humanos, especialmente quando a violência é atravessada por lesbofobia.

Em dezembro de 2023, o Brasil foi abalado pelo assassinato de Ana Caroline Souza Campelo, de 21 anos, em Maranhãozinho (MA). A jovem lésbica foi sequestrada quando voltava do trabalho de bicicleta e encontrada morta com sinais de extrema violência e tortura. Em novembro de 2025, o réu Elizeu Carvalho de Castro foi condenado a 27 anos e 8 meses de prisão pelo crime, reconhecido como feminicídio. Movimentos sociais, porém, seguem reivindicando que casos como esse sejam tipificados como lesbocídio, reconhecendo a motivação de ódio específica contra mulheres lésbicas.

Outro caso que gerou forte comoção foi o assassinato de Vitória, de 16 anos, em Parelheiros, Zona Sul de São Paulo, em outubro de 2025. Lésbica, negra e desfeminilizada, a adolescente foi morta pelo pai da namorada, Rogério Ambrosino Leite, de 46 anos, que confessou ter disparado cinco tiros contra a jovem após encontrá-la dormindo na casa junto da filha. Segundo familiares, Vitória já havia relatado que o pai da namorada não aceitava o relacionamento das duas. Após o crime, o assassino obrigou a própria filha a ajudar a esconder o corpo, que foi amarrado com arames em uma barra de concreto e jogado em um lago próximo à residência.

A invisibilidade nos dados oficiais

Especialistas e ativistas ressaltam que os números oficiais de mortes violentas contra mulheres LBTQIA+ dificilmente capturam a real dimensão do problema. Muitas ocorrências são subnotificadas ou enquadradas como homicídio comum, sem que se investigue adequadamente a motivação de ódio e discriminação por orientação sexual.

Dados do Grupo Gay da Bahia registraram 291 assassinatos de pessoas LGBTQIA+ no país em 2024, sendo 11 lésbicas. O LesboCenso Nacional (2021-2022), realizado pela Liga Brasileira de Lésbicas (LBL), que ouviu 22 mil mulheres lésbicas em todo o território nacional, revelou que 78,61% delas já sofreram algum ato lesbofóbico e 24,76% relataram ter sido vítimas de estupro.

Esses crimes refletem um padrão estrutural de lesbofobia, e ainda falta ao Estado uma resposta mais robusta em termos de registro, tipificação e enfrentamento dessa violência.

Luto e luta por justiça

Familiares, amigos e moradores de Remanso prestaram homenagens às vítimas e cobraram justiça. Atos simbólicos, manifestações e mensagens de solidariedade tomaram conta das redes sociais, reforçando o pedido por respostas rápidas e ações concretas do poder público.

O crime escancara a urgência de políticas públicas eficazes de prevenção, educação e proteção, além do fortalecimento das redes de acolhimento às vítimas de violência. No Congresso Nacional, o Projeto de Lei 3.983/2024, apresentado pela deputada Carla Ayres (PT-SC), propõe incluir o lesbocídio como qualificador no Código Penal, um passo fundamental para reconhecer a especificidade dessa violência.

A tragédia em Remanso se soma, assim, a um quadro preocupante de violência letal no Brasil, reforçando um chamado coletivo por justiça, pela proteção de vidas e pelo reconhecimento de que violência contra mulheres LBTQIA+ exige respostas concretas, políticas públicas eficazes e um enfrentamento direto ao preconceito e à intolerância.

O episódio deixa um alerta doloroso: celebrar a vida, amar e existir não deveria jamais terminar em luto. A memória das vítimas se transforma agora em um chamado coletivo por justiça, respeito e o direito fundamental de viver sem medo.

 

Foto em destaque: Reprodução

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