The Fire: Entre o fogo e o óleo, uma história de amor altamente inflamável!

Crítica Girls Love

O reencontro explosivo entre Fai e Kaphrao desafia as convenções do gênero e mostra que o clichê bem trabalhado incendeia corações. No encerramento da saga dos Quatro Elementos, o capítulo final abdica de plots mirabolantes para encontrar seu triunfo na simplicidade honesta de duas mulheres que, acima de tudo, aprendem a se escolher.

Por Carolina Luz Paulo

Chegou ao fim a jornada dos Quatro Elementos. Depois de cruzarmos os caminhos de The Earth (A Terra), The Water (A Água) e The Air (O Ar), o megaprojeto da North Star Entertainment se despediu do público com The Fire (O Fogo), o aguardado capítulo do fogo. A saga, que reuniu um elenco de peso em torno da influente família Watinwanich, trazendo Apple e Mimu no primeiro volume, Engfa e Charlotte no segundo, e as estrelas Freen e Becky no terceiro; agora passa o bastão para Namneung e Noey. Ex-integrantes do grupo idol BNK48 e donas de uma das duplas (ships) mais queridas do fandom, elas chegam com a missão difícil: acender a última chama da franquia.

Atrás das câmeras está Fuse Kittisak Cheewasatjasakun, diretor cujas obras anteriores pesam fortemente no currículo do Girls Love. The Loyal Pin é, para muitos, um dos pontos mais altos da história dos GLs, destacando-se por manter direção, roteiro e cinematografia na mesma régua de excelência. Já Love Design entregou quadros estéticos tão polidos que davam vontade de emoldurar. Tudo isso em uma comédia romântica encantadora, definida pelos próprios fãs de GLs como algo fora da curva. Era natural, portanto, que a expectativa do público estivesse no teto quando ele assumiu a direção de toda a saga.

A conta, porém, foi mudando ao longo dos elementos. As histórias não são ruins, mas apostam em artifícios muito conhecidos do gênero, sem grandes rupturas ou ousadias. Em um momento da indústria em que o público pede GLs que surpreendam e ousem, esse conforto cobrou um preço. The Fire herda esse DNA, e é justamente nessa dualidade que a série encontra tanto os seus maiores acertos quanto os seus limites. Além disso, a produção carrega um peso dramático de bastidores: o projeto chegou a correr o risco real de não sair do papel, o que torna ainda mais simbólico ver este ciclo concluído. 

A partir desse momento, vale sempre lembrar: essa crítica trará spoilers do enredo da trama.

A costura do universo compartilhado e o tropo do ódio

Quem acompanhou os capítulos anteriores já conhece Fai. Prima da família, ela esteve presente em todos os elementos anteriores como um elo vital entre as histórias: não sendo necessariamente quem move a ação principal, mas uma presença que ajuda a destravar conflitos alheios, quase sempre de forma superficial. Longe de ser apenas uma sidekick, ela funciona como uma personagem de ligação que costura o universo compartilhado.

Esse trabalho prévio fez com que o público criasse empatia por ela antes mesmo de ter sua história própria. Fai era apresentada como alguém que não entendia o amor: ou melhor, que não queria saber de relacionamentos. A produção cultivou essa curiosidade até chegar ao seu capítulo solo, onde descobrimos, aos poucos, as raízes de sua personalidade protetora e arisca.

Em The Fire, Fai é a herdeira de uma influente família do sul do país e reencontra Kaphrao, sua rival de infância, que acabou adotada por seu pai. O encontro das duas lembra a reação clássica de fogo e óleo: um contato altamente inflamável que pode fazer o amor arder ou queimar tudo de vez. O conflito central aqui é direto: duas mulheres alimentadas por uma antipatia que parece genuína, mas que depois se revela menos verdadeira, forçadas a conviver por uma cartada do pai de Fai. Dessa convivência coagida nascem o entendimento, a empatia e a retomada de uma intimidade há muito escondida. 

Resolvido o primeiro impasse, a dupla passa a enfrentar desafios maiores contra a vilã da história. Não há sequestros mirabolantes, como vimos em The Air, nem tentativas de assassinato, como em The Earth. É o roteiro mais enxuto dos quatro volumes e, por isso mesmo, o que mais cumpre o que promete. Nesse sentido, a série nos apresenta clichês muito bem executados. Clichês não são defeitos por si só; eles viram um problema quando são mal trabalhados e tiram o espectador da imersão. Quando bem lapidados, geram uma empatia rápida e eficiente por utilizarem situações universais que aproximam o público das personagens.

É exatamente o que The Fire faz. O ritmo tem suas escapadas, é verdade, mas, comparado aos outros elementos, a série se sai tão bem que chega a surpreender. Junto a The Water, a série acaba se consolidando como os dois capítulos mais bem-sucedidos da franquia ao sustentar conflitos simples, mas intimistas, até a sua resolução.

Desconstruindo dinâmicas e o peso do passado

No tropo tradicional de top e bottom dos romances sáficos tailandeses, a personagem de postura mais recatada costuma ser relegada à passividade. Não é o caso de Kaphrao. Se na infância ela vivia atrás de Fai, na fase adulta ela responde, retruca e dita a medida da dinâmica, o que deixa o relacionamento muito mais orgânico.

A maravilhosa dinâmica da Kaphrao com a Fai. Fonte: Divulgação iQIYI.

A apresentação dela, logo no primeiro episódio, já joga de forma inteligente com a nossa expectativa: ela chega em cena parecendo a jovem amante do pai de Fai, e o primeiro encontro das duas transborda pura antipatia. Mas é quando vemos o seu sorriso e o equilíbrio maduro com que ela responde às malcriações às quais é submetida, que nos apaixonamos perdidamente por ela. Isso equilibra a dinâmica de poder da relação, deixando-a mais saudável do que muitas que já vimos em GLs passados.

A série também não protege e nem passa pano para as atitudes de Fai. Nos episódios iniciais ela se mostra arisca, mimada e cria situações mesquinhas para espezinhar Kaphrao, até finalmente perceber que, na verdade, gosta dela. Em algum momento desse trajeto, a resposta natural do público é desgostar da protagonista, e isso é um ótimo sinal de sua boa construção no roteiro. Fai não é uma má pessoa: ela tem lapsos de moralidade que são alimentados por um ciúme cego e por uma criação cercada de dinheiro, mas carente de presença emocional paterna.

A associação da personagem com o elemento fogo aparece em sua tempestuosidade e até no seu gosto por corridas de carro, um detalhe interessante que o primeiro episódio apresenta com destaque, mas que a série infelizmente abandona logo depois, o que é uma pena. A implicância com Kaphrao carrega todo esse temperamento inflamável e rende uma excelente dinâmica de tela.

O roteiro resgata o passado para justificar esse comportamento: numa antiga brincadeira de esconde-esconde na infância, Fai mandou a pequena Kaphrao se esconder na caçamba de um caminhão refrigerado. O motorista deu partida no veículo sem saber, e a menina ficou desaparecida e presa dentro do espaço congelado. Foi uma inconsequência de criança que quase terminou em tragédia. 

A partir dali, a família separou as duas, em grande parte pela influência direta da tia. Os flashbacks mostram que a relação delas na infância nunca foi de tanto ódio e que, mais uma vez, a interferência errada dos adultos acabou prejudicando crianças que se entendiam perfeitamente sozinhas.

O ritmo do romance e os nós do roteiro

O título e o clima de rivalidade inicial criam no público a expectativa de um romance acelerado, o famoso fast burn. A série, contudo, entrega o oposto: um slow burn no mesmo compasso lento dos outros elementos, mantendo as duas juntas apenas mais adiante na história. A frustração, se existe, vem da expectativa externa de quem assiste, e não da coerência da narrativa. O percurso compensa. Fai descobre, junto com o público, quem Kaphrao realmente é e aceita que os seus sentimentos por ela datam da infância.

Fai apaixonada. Fonte: Divulgação iQIYI.

Quando as duas finalmente ficam juntas, Fai se revela incrivelmente fofa. É graças à entrega e à química das atrizes, em especial de Namneung, que essa virada de chave acontece com rapidez e naturalidade. Antes dessa união, o roteiro usa cenas de ciúme e um triângulo amoroso saudável com outra mulher (e não com a inserção de um homem) para manter a tensão romântica no ponto certo. A sequência em que já estão namorando, mas precisam esconder de todos, forçando Fai a fingir que mantém a mesma postura arrogante de antes, é puro clima de comédia romântica clássica, figurando como uma das partes mais divertidas da série.

Por outro lado, o maior ponto fraco de toda a narrativa cai na conta da tia de Fai, a vilã Panee. E o erro não é por ela ser intensa ou aparecer demais. Uma personagem insistente e caricata pode ser aceitável se a narrativa justificar bem os seus objetivos.  Um bom contraponto recente é In Love Forever, drama do Canal 3, no qual a vilã Kingkamol (Kik Suwatjanee), mãe de Runch (Lingling Kwong) e sogra de Neen (Orm Kornnaphat), tenta destruir o casamento das duas. A personagem também foi acusada de exagero e repetição de conflitos, mas ali a repetição era necessária para a engrenagem andar; a sogra precisava ser daquela forma como catalisadora das ações, e seu desfecho justificou a persona de uma mãe controladora que “ama” a ponto de querer pilotar a vida da filha.

Em The Fire, essa engrenagem simplesmente não encaixa. A motivação de Panee é rasa: ela odeia Kaphrao por achar que a jovem vai roubar a herança da sobrinha. Como Fai perdeu a mãe cedo, ela via na tia uma imagem materna e respeitava muito suas opiniões. Quando a tia descobre o romance, cria artimanhas absurdas que, no fim, parecem difíceis de justificar. Quando uma personagem espezinha tanto a outra, a virada exige uma situação muito específica de quebra. 

A série não resolve isso bem: a tia só muda de postura depois que Fai vai parar no hospital por conta de uma situação perigosa criada por ela mesma. E essa redenção ganha pouquíssimo tempo de tela, falhando em justificar o nível de ódio construído por episódios a fio. Logo em seguida, a história salta direto para o casamento e as conclusões do arco final. É um problema típico de GLs em que o conflito familiar é o centro: as figuras parentais muitas vezes recebem uma redenção apressada que não encontra espaço real de reparação pelo caminho tortuoso que elas mesmas construíram.

Panee e Kaphrao. Fonte: Divulgação iQIYI.

Outro ponto de relevância que causou estranheza foi a ausência de Lom. A personagem, que ganhou bastante espaço em The Earth e passou ativamente por The Water, aparece pouquíssimo no capítulo de Fai. Em contrapartida, as cenas em que revemos Din e Rose (The Earth) junto a Lada e Nam (The Water) rendem momentos irreverentes e divertidos, pois as primas não se furtam a expor as verdades na cara de uma Fai confusa e birrenta. Quando elas reaparecem juntas, a série ganha uma de suas sequências mais alegres. O cortejo de casamento de Kaphrao e Fai traz uma música e ritmo muito diferentes dos casamentos ocidentais tradicionais: todo mundo dançando em um ar festivo genuíno, que nos faz esquecer que tudo aquilo é roteirizado. É também uma belíssima janela para a cultura tailandesa, um tipo de celebração cultural que já havia aparecido com sucesso em outros GLs, como Somewhere Somehow.

As Primas no cortejo de casamento. Fonte: Divulgação iQIYI.

A assinatura técnica de Fuse Kittisak

Todos os elementos da franquia contam com oito episódios exibidos no iQIYI, que, por vezes, passam de uma hora de duração. Embora parte do público reclame que são curtos, a conta fecha perfeitamente quando comparamos a produções de outras emissoras que costumam ter de 10 a 12 episódios menores, de 45 minutos. No tempo total de tela, fica “elas por elas”. Isso não impede um incômodo recorrente: em todos os elementos, incluindo os melhores, há momentos visíveis de quebra de ritmo, algo que se repete mesmo nos GLs mais bem-sucedidos da atualidade.

Tecnicamente, The Fire é impecável. A fotografia e a coloração são fantásticas, trazendo uma paleta de cores mais quentes em diálogo direto com o nome da série. As locações escolhidas para toda a franquia são lindíssimas, daquelas que dão vontade de se mudar e nunca mais sair. O diretor Fuse Kittisak abre os ângulos, mostra paisagens amplas e imprime uma ideia de enormidade aos quadros, especialmente nas transições geográficas: da pedreira ao porto de frutos do mar, e dali para a ilha. Essa assinatura autoral vale tanto pela forma como filma as paisagens quanto pela maneira sensível como dirige as cenas e os atores.

O único ponto fraco na parte técnica está no uso dos cenários como caracterização psicológica das personagens. Os espaços físicos mostrados servem sobretudo para expressar a potência financeira da família de Fai e o quanto ela é rica, mas pouco dizem sobre a alma das protagonistas. Kaphrao passa boa parte da história vivendo em um alojamento impessoal. Fai vive com a tia em uma casa de madeira grande que parece não ter a sua identidade. 

Se a escolha da equipe de arte foi proposital, visando mostrar que a menina que Fai foi nunca teve um lugar verdadeiramente seu, o recurso até faz sentido conceitualmente, mas não parece ter alcançado esse nível de refinamento na tela. O mesmo vale para Kaphrao que, por ser adotada, também carece de um espaço com a sua cara. Os cenários acabam falando muito mais sobre o status da família do que sobre a personalidade de quem habita ali.

The Fire encerra uma franquia de grande sucesso e muito aguardada pelo público, com uma resolução satisfatória, orgânica e pé no chão. De todos os quatro elementos, este é talvez o que melhor consegue contar a sua própria história: pela simplicidade honesta do roteiro, pelo uso lógico e coerente dos clichês do melodrama, pela fotografia impecável e pela sólida direção de cena. Sem inventar tramas absurdas fora de casa ou ações descabidas, a produção cumpre bem o que se propôs a fazer.

Não é uma série que chega para reinventar o gênero sáfico, e quem esperava a ousadia extrema que o currículo pregresso do diretor prometia pode sair com um gostinho de “quero mais”. Mas, como o fechamento de um ciclo, entrega exatamente o que importa: duas protagonistas que começam se odiando, mas que se descobrem e se escolhem e evoluem, inseridas em um cenário paradisíaco em que dá vontade de morar.

Imagem em destaque: The FireFonte. Divulgação: iQIYI.

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