Entre o dever e o desejo: FreenBecky entregam atuações comoventes em The Air

Crítica Girls Love

O terceiro capítulo de Quatro Elementos (4 Elements), que dominou a programação sabatina da Channel 7HD e o streaming global da iQIYI ao longo de 2026, marcou o aguardado reencontro de FreenBecky, mas fica abaixo de concorrentes menores quando o assunto é o desenvolvimento da trama política e as cenas de ação.

Por Carolina Luz Paulo

Quatro Elementos nasceu da série de romances homônima da autora tailandesa Salmon, sendo anunciado em janeiro de 2025 como um “Mega Projeto Sáfico”. Quatro histórias GL independentes, cada uma batizada por um elemento clássico e ambientada em uma região diferente da Tailândia, com casais diferentes à frente. A ordem de estreia seguiu a sequência natural dos elementos: The Earth (Terra), The Water (Água), The Air (Ar) e The Fire (Fogo).

Esse recorte por elementos não foi apenas um recurso de marketing. O título completo do projeto na Tailândia é “4 Elements บ้านวาทินวณิช“, algo como “4 Elementos: a família Wathinwanit”. E cada uma das quatro histórias segue um membro diferente dessa família fictícia, todos batizados com nomes que remetem diretamente ao elemento que representam. Din (terra), Nam (água), Lom (apelido de Wayo, ar) e Fai (fogo) são as primas que fazem referência aos quatro elementos que, na cosmologia budista tailandesa, compõem o corpo e o universo. Assim, acompanhamos suas histórias e nos encantamos quando as primas se “intrometem” uma na vida da outra.

As primas Wathinwanit em 4E. Fonte: Divulgação.

Em The Air, Freen Sarocha veste o uniforme de Lom, policial encarregada de proteger a princesa Blue (Becky Armstrong), herdeira de um trono estrangeiro que visita a Tailândia. Um atentado obriga a princesa a fugir e a se esconder sob os cuidados de Lom e, entre perseguições e esconderijos, a linha entre dever e desejo vai ficando cada vez mais fina.

Pra quem chegou no mundo GL agora, ou estava perdida numa ilha deserta: Freen Sarocha e Becky Armstrong são, desde GAP: The Series (2022), a dupla mais consagrada do GL tailandês. Com uma base de fãs global extremamente leal, elas são praticamente sinônimo do gênero fora da Tailândia. E, por causa desse peso, The Air talvez tenha sido o elemento mais aguardado dos quatro. O público não estava só na expectativa por uma nova história de Quatro Elementos, mas por um reencontro das duas atrizes que ajudaram a colocar o GL tailandês no mapa internacional. Essa expectativa alta é também o motivo pelo qual qualquer deslize no roteiro pesa mais aqui do que pesaria em qualquer outro elemento da franquia.

Tirando o roteiro, ninguém duvida do que fez FreenBecky virar sinônimo de GL tailandês: a química. Aqui ela continua entregando o que promete: olhares, silêncios e tensão que carregam mais do que boa parte dos diálogos. Tanto Freen quanto Becky continuam apresentando uma atuação comovente. A fotografia também merece elogios à parte: as paisagens paradisíacas que servem de cenário para a fuga de Lom e Blue são muito bem enquadradas, aproveitando os cenários naturais que a produção visitou de norte a sul da Tailândia. As cenas de intimidade, por sua vez, são construídas com carinho, mesmo dentro do ritmo lento que a trama escolheu adotar. Por isso, quando finalmente rola algo entre as duas, o momento é bem trabalhado e recompensa a espera.

Freen e Becky como Lom e Blue. Fonte: Divulgação.

Falando em espera: The Air é, assumidamente, um slow burn. A tensão entre Lom e Blue demora para se resolver, o que pode desagradar quem está acostumado ao ritmo mais elétrico de outros GLs. Isso funciona a favor da construção da relação com a princesa, que ganha camadas justamente por não ser resolvida às pressas.

Dois papéis, uma vilã e um arco cortado pela metade

Voltemos ao capítulo à parte dessa história, a dobradinha de papéis de Becky Armstrong. Além da princesa Blue, a atriz também vive Helena, uma impostora que passa por cirurgias para ficar parecida com a princesa e é usada pelos vilões da trama numa tentativa de golpe. É um daqueles casos em que dá pra sentir, na tela, que são duas pessoas diferentes. Becky varia a postura, o olhar e até a cadência da fala entre as duas sem se perder em nenhuma delas. Conseguimos perceber que Helena está aterrorizada pela situação opressiva em que se encontra. E que Blue é imponente e nobre, em todos os sentidos da palavra.

Do lado dos vilões, quem rouba a cena é Grace, a pessoa de confiança da princesa e responsável por sua segurança, que a trai descaradamente. A atriz Renée Veronica Pagano entrega uma antagonista genuinamente ameaçadora. O confronto entre as duas no penúltimo episódio acabou virando uma das cenas mais comentadas da temporada. Foi um embate esperado, mas que surpreendeu pela intensidade e entrega das atrizes.

Renee como Grace. Fonte: Divulgação

Mas o que torna essa vilã superinteressante, e deixa ainda mais claro porque o arco merecia mais tempo, é a origem do rancor de Grace. Em dado momento, a trama sugere que a família dela foi dizimada numa disputa de sucessão violenta, aparentemente provocada pela própria família de Blue. Fica no ar a dúvida, e o gosto amargo refletido no rosto da própria Blue no momento do embate final, sobre quem teria mesmo o direito legítimo ao trono. 

O romance original nem chega a esclarecer isso direito. Mais um ponto para a adaptação, que faz um belo trabalho ao revelar a infância de Grace e o que aconteceu com os seus. O efeito é que a vingança dela deixa de soar gratuita. Mesmo sem justificar os métodos, dá para entender de onde vem a raiva. E com a entrega da atriz, o trauma é real, causado por uma disputa de poder, e não maldade pura. É esse tipo de camada que torna ainda mais frustrante ver o arco resolvido às pressas. Com apenas oito episódios, nem Helena nem Grace têm tempo de respirar. E a trama de traição dentro da corte acaba sendo encerrada rápido demais para o potencial que tinha.

Lom e as cenas de ação…

Do lado dos pontos fracos, um dos problemas é a própria Lom. E nem mesmo a atuação de Freen pôde salvar os pequenos furos que o roteiro apresenta, quando está empenhado em fazer da personagem sempre a mais esperta da sala. Isso deixa os conflitos com cara de armados, só para que ela os resolva e saia por cima, muitas vezes tirando um pouco da tensão e o senso de urgência real da trama.

Lom e Blue. Fonte: Divulgação.

As cenas de ação, essenciais para justificar o ritmo da trama e a essência de policial da protagonista, sofrem de um problema que vai além do orçamento. É como se cada conflito nunca representasse, de fato, um risco. E isso fica ainda mais evidente no penúltimo episódio, numa cena de sequestro que deveria ser catártica e o clímax da temporada. No entanto, pela escolha da direção, acaba soando esquisita, quase sem a tensão que o momento pedia.

E o argumento do orçamento nem se sustenta tanto assim: GLs com produções bem mais enxutas têm entregado cenas de ação mais bem resolvidas. Heart Code, da MONOMAX, com coreografias mais cruas e fisicamente convincentes, chegou a ser chamado de uma correção de rota para a ação no GL tailandês. Love Beyond Dreams, da Me Mind Y que até então só fazia BL, arriscou tiroteios e lutas sem medo de parecer exagerado. E Khom Khlang, da Star Hunter Entertainment, atualmente em exibição na WeTV, mesmo apostando mais no mistério sobrenatural do que na ação pura, ainda assim dirige suas cenas de confronto com mais cuidado do que The Air. No fim das contas, é difícil não sentir que a série fica um degrau abaixo do que FreenBecky vinha entregando em GAP e em The Loyal Pin. E, de certa forma, também abaixo do que o próprio gênero vem conseguindo fazer com bem menos dinheiro.

Dever, coroa e a coragem de escolher

Vale se debruçar um pouco mais sobre o conflito que sustenta o terceiro ato de The Air: a obrigação de Blue com o próprio povo colide de frente com o direito de viver aquele amor. E a série resolve essa tensão da forma mais radical possível, já que Blue renuncia à coroa. É uma escolha que rende boas discussões.

Por um lado, apresenta o lado mais ativo da princesa: em vez de esperar que a política se ajuste ao seu redor, é ela quem decide que a própria felicidade vale mais do que um destino imposto pelo nascimento. Por outro, é uma escolha que exige da princesa reflexão, pois o peso do seu dever para com o povo e as expectativas criadas pela família real é imenso. Não deixa de ser bonito ver o roteiro repaginar, sob uma ótica sáfica, um enredo clássico de abdicação por amor em detrimento do dever da nobreza. 

Vale notar mais um acerto sutil: o obstáculo do casal nunca é o fato de serem duas mulheres. A trama não trata a homossexualidade como o problema a ser superado, o que barra Lom e Blue é a política, a hierarquia, o dever, nunca a orientação das duas. Assim, The Air segue reforçando um dos maiores méritos do GL tailandês recente: normalizar o amor entre mulheres como parte do enredo, sem tratá-lo como uma revelação chocante ou um segredo vergonhoso.

Becky como Princesa Blue. Fonte: Divulgação.

Fica a desejar, por outro lado, o quanto a trama política ao redor de tudo isso (a rebelião, a tentativa de golpe, a impostora que tenta tomar o trono) funciona mais como pano de fundo para justificar a fuga do casal do que como um enredo desenvolvido por si só. A diferença de classe entre uma policial e uma herdeira do trono também aparece, mas raramente é aprofundada. A série prefere não puxar esse fio.

Fora das telas, The Air não teve vida fácil e o motivo vai muito além de uma simples reorganização interna. A Idol Factory, uma das produtoras originais do projeto, também era a agência que representava tanto Freen quanto Becky. No fim de 2025, as duas romperam contrato com a empresa alegando salários atrasados. Uma disputa contratual e não apenas uma questão administrativa travou legalmente a continuidade das gravações, já que sem contrato ativo, as atrizes não podiam voltar ao set. Ao assumir sozinha a produção do megaprojeto, a North Star Entertainment viabilizou uma temporada que talvez não veria a luz do dia.

Freen como Lom. Fonte: Divulgação.

Apesar do parto difícil, a recepção não deixou a desejar: The Air estreou com a melhor audiência entre os quatro elementos na Tailândia, gerando repercussão em dezenas de países. Mesmo com as ressalvas técnicas, o sucesso absoluto na TV e no streaming prova que o fenômeno FreenBecky vai muito além do roteiro. The Air entrega exatamente o que o público mais queria: a certeza de que a química e o magnetismo da dupla continuam sendo uma das forças mais avassaladoras do audiovisual sáfico atual.

Imagem em destaque: Freenbecky em The Air. Fonte: Divulgação.

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