Às vésperas da segunda temporada, o romance das personagens interpretadas por Alanis Guillen e Laura Dutra passa por uma tensão que atravessa as respostas das duas atrizes nesta entrevista: a diferença entre proteger alguém e querer decidir por ela.
Por Mylena Caitano e Marina Fiorani

A segunda temporada da série estreia nesta quinta-feira, 17 de setembro, no Globoplay. Criada e escrita por Claudia Sardinha e Rosane Svartman, com direção artística de Patricia Pedrosa, a produção retoma a história depois da transformação de Flora, salva por Celina após um grave acidente. O extraordinário que antes alimentava a imaginação da jovem se torna sua realidade — agora acompanhado de uma sede, de regras e de consequências que o encantamento inicial não dava conta de antecipar. A conversa avança para o que as duas desejam ver nas telas. Laura defende que casais lésbicos possam existir nas narrativas para além da condição de exceção, com espaço para família, desejos e conflitos cotidianos. Alanis ressalta a naturalidade com que a série aborda identidade e sexualidade. Nas perguntas individuais e compartilhadas a seguir, as atrizes discutem essas possibilidades, revisitam a construção das personagens e antecipam o que a nova temporada reserva para o casal.

LAURA DUTRA:
1. Celina passou séculos aprendendo a não se apegar e olhando para o mundo com certo cinismo. O que você acha que Flora desperta nela que ninguém conseguiu despertar durante todo esse tempo? De onde nasceu a atração da Celina por Flora?
É curioso pensar que uma vampira com mais de 200 anos se apaixona por uma doidinha de uma cidade pacata como Guarambá. Mas acho que a beleza do amor está precisamente aí: era suposto acontecer? Não. Podia ser apenas uma ficada de uma noite? Podia. O amor é um sentimento tão incontrolável que, quando acontece, nos faz perder completamente o lado racional. Eu consigo identificar o momento exato em que a Celina se encantou pela Flora. Para alguém que não teme praticamente nada — afinal a morte não lhe assiste — acho que o maior medo da Celina é precisamente tornar-se vulnerável a alguém.
Quando a Flora canta “Doce Vampira” no penhasco, ela desperta na Celina um lado humano que estava adormecido há muito tempo. Acho também que a ingenuidade da Flora, o desejo de se transformar e sobretudo a felicidade genuína com que ela vive aquela experiência fazem com que a Celina se apaixone por ela naquele momento em que as duas dançam. E existe ainda toda aquela noite potencializada pelo efeito alucinógeno do cogumelo, que faz com que as duas vivam algo completamente diferente de tudo o que já tinham vivido. A partir daí, acho que a Celina deixa de conseguir racionalizar o que sente. O coração dela fica completamente entregue a Flora.
2. Flora é impulsiva, curiosa e gosta de ultrapassar limites. Celina conhece as consequências desse mundo e é muito ligada à proteção do clã. Em que ponto a tentativa de proteger Flora começa a correr o risco de virar controle?
Há códigos dentro do clã que não podem ser quebrados e a Celina sabe disso há muitos anos. Ela sempre foi muito ligada à proteção e à união do clã e conhece as consequências de ultrapassar esses limites. Mas a Flora passa a ocupar um lugar tão único e raro na vida dela que, pela primeira vez, a Celina está disposta a colocar tudo isso em risco por alguém. E é aí que a proteção pode começar a transformar-se em controle. Porque a Celina acredita que sabe o que é melhor para a Flora e tenta protegê-la das consequências daquele mundo mas acaba por esquecer que a Flora também tem o direito de escolher e de correr os seus próprios riscos. Não posso dar spoilers, mas adianto que vai abalar muito a relação com Michel e a cabeça do clã – Elizabeta (Alli Willow) aparecerá por Guarambá.
3.Celina passou séculos colocando o clã acima de praticamente tudo. Nesta temporada, ela chega a ser colocada diante de uma escolha real entre sua família e Flora?
A partir do momento em que a Celina decide eternizar a “vida” da Flora naquele hospital, ela sabe que está tomando a decisão mais arriscada de todas. Não posso adiantar muito, mas o clã certamente não ficará contente se descobrir que houve uma humana transformada sem autorização. E só há uma pessoa que pode contar tudo ao clã. Será que o vai fazer?
4. Celina também foi transformada por Elizabeta em um momento de vulnerabilidade e, séculos depois, toma uma decisão semelhante para salvar Flora. Você enxerga um paralelo entre essas duas transformações? Celina percebe que, de alguma maneira, repetiu uma história que também aconteceu com ela?
Acho que sim. Na verdade acredito que a Flora tenha sido a primeira transformação que a Celina fez. A Elizabeta salvou a Celina há séculos, num momento de enorme vulnerabilidade, e por isso existe entre as duas uma dívida de gratidão e uma cumplicidade muito forte. A Celina nunca desrespeitou uma ordem da Elizabeta. E é interessante porque depois de tantos séculos, a Celina acaba por viver com a Flora algo muito semelhante ao que viveu com a Elizabeta. As mudanças no corpo, a primeira caçada, o primeiro contacto com o sol… Tudo isso foi vivido pela Celina ao lado da Elizabeta e agora é ela que acompanha a Flora nesse processo. Por isso acho que existe um paralelismo muito bonito entre as duas transformações, em séculos diferentes. A diferença é que desta vez, a Celina não está apenas a salvar alguém: está percebendo o peso e a responsabilidade de transformar a vida de uma humana.
5. Transformar Flora não muda apenas a vida da Flora. Essa decisão também altera a forma como Celina compreende a própria existência, sua transformação e sua relação com a eternidade?
Com toda a certeza. A partir da transformação existe um vínculo eterno entre as duas. Não estamos falando de uma relação que pode simplesmente terminar e cada uma seguir o seu caminho. Nenhum vampiro sobrevive verdadeiramente sozinho, por isso a transformação da Flora acaba também por ser um acréscimo ao clã – estejam eles de acordo ou não. E a Celina vai perceber ao longo da temporada o peso e as consequências da decisão que tomou. Acho que só no final ela vai compreender realmente até onde aquela escolha mudou a sua própria existência.
6. Celina sente ciúmes da história que Flora viveu com Luna?
Eu diria que não. Apesar dos “ciúmes não serem exclusividade da espécie humana”, acho que a Luna está muito longe da realidade que a Celina tem para oferecer à Flora. Existe também toda a relação entre o Michel e a Luna que acaba por deixar a história das duas exatamente no lugar onde ela deve estar: no passado. mesmo a Celina sendo poligâmica, existe uma rivalidade entre lobos e vampiros tão grande que ela nunca permitiria que isso voltasse a acontecer. E claro, acho que nem a Flora gostaria de ver a Celina num dia mau rs.
7. Qual foi o aspecto mais difícil de construir em uma personagem que não apenas é vampira, mas carrega quase três séculos de memórias, perdas, relações e experiências?
O mais difícil foi precisamente imaginar tudo o que uma mulher pode ter vivido ao longo de quase três séculos. A Rosane e a Claudia escreveram brilhantemente essa caminhada das vampiras. Há um episódio que mostra muito bem essa história, quando percebemos que a Celina e a Elizabeta eram vistas como bruxas por andarem juntas, serem independentes e não estarem casadas ou obrigadas a viver à custa de um homem. E se ainda hoje existe um longo caminho a percorrer em relação à liberdade feminina e ao poder sobre a própria vida, imagina há 200 ou 300 anos, quando muitas mulheres eram tratadas quase como mercadoria. Essas cenas da Celina e da Elizabeta são das minhas favoritas porque conseguimos perceber tudo o que a Celina sofreu e o quanto teve de lutar para chegar até aos dias de hoje. Acho que depois desse episódio o público consegue olhar para ela com muito mais empatia.

ALANIS GUILLEN:
1. A Flora passou a primeira temporada inteira querendo viver algo extraordinário e chegou até a desejar fazer parte desse universo sobrenatural. Só que, quando isso finalmente acontece, ela não escolhe ser vampira. O que mais te interessou nessa ironia: ela finalmente conseguiu o que queria ou descobriu que não queria daquela forma?
Ela finalmente conseguiu o que tanto queria e também descobre o que não queria, da pior forma. No começo, ela se sente muito empolgada e realizada em se tornar extraordinária, mas a realidade dos fatos faz com que encare o lado real de ser uma vampira: a sede por sangue e todas as circunstâncias que vêm junto com isso.
Ela descobre o que vem junto com esse “ser extraordinário”, no caso, ser uma vampira. Num primeiro momento, rola uma superempolgação, uma excitação por finalmente conseguir aquilo que ela tanto queria. Mas, aos poucos, vão acontecendo coisas que trazem essa realidade para ela — e ela percebe que não é nem um pouco fácil.
2. Para além da transformação física em vampira, qual foi a mudança mais profunda que você percebeu na Flora entre a primeira e a segunda temporada?
Acho que o que essa convivência revela de novo é, principalmente, um lado mais vulnerável da Celina. O apaixonamento coloca a gente nesse lugar: mais vulnerável, mais disponível para o outro. Quando a gente se apaixona, sai um pouco de si e se encanta pelo outro — ou até pelo que o outro desperta na gente. É bonito ver essa abertura e esse lado mais humano da Celina, porque até então ela aparecia muito fria, calculista, pragmática, séria e ácida. Já a Flora descobre uma força, uma autonomia e uma liberdade diferentes. Ela sempre foi muito livre, mas acho que existe uma virada da menina sonhadora para uma mulher mais realizada e consciente das próprias escolhas.
Ao mesmo tempo, essas escolhas também fazem com que ela questione os próprios desejos e até por que, em algum momento, quis deixar de ser quem era.
3. A Flora sempre teve uma vontade enorme de conhecer, experimentar e ultrapassar limites. Agora ela entra em um mundo em que, teoricamente, esses limites parecem ainda menores. Essa liberdade pode acabar se tornando um problema para ela?
Acho essa série muito especial porque, apesar de estar apoiada em uma história e em um universo fantásticos, ela fala de questões muito humanas. De alguma forma, a gente percebe que todo jovem, todo ser humano (e até os não humanos dessa história) atravessa crises existenciais, crises de identidade, conflitos nas relações, se apaixona, se machuca e também pode machucar o outro. É uma fase em que tudo está muito à flor da pele. Gostaria que o público levasse dessa história a ideia de que todos nós passamos por transformações, físicas, emocionais e psíquicas. É um momento da vida em que muita coisa aflora, em que estamos descobrindo quem somos e também quem desejamos ser, em meio a tantas influências.
Acho bonito pensar que o público jovem possa se reconhecer nessa história e entender que as transformações fazem parte da vida. A gente atravessa essas mudanças, aprende com elas e também se fortalece. E, no fim, por mais que a gente tente ser tantas coisas, não dá para escapar de quem a gente é.
4. Flora sempre quis sair de Guarambá e conhecer o mundo. Agora, teoricamente, ela tem a eternidade inteira para fazer isso. A nova temporada chega a explorar esse desejo dela de uma forma diferente?
Acho que o maior ponto de atenção na relação delas é o controle que a Celina tenta exercer. Mesmo que ela tenha suas razões e esteja tentando proteger a própria história e a sua família, algumas de suas escolhas acabam ferindo os valores e a própria existência da Flora. Acho que é aí que surge o maior conflito entre as duas.
5. No final da primeira temporada, conseguimos entender claramente o tamanho do sentimento da Celina pela Flora. E para a Flora? Em que momento ela percebe que existe algo muito maior entre as duas?
Celina fica completamente encantada pela Flora, e a Flora também se deixa levar por essa nova parceria e pela potência que as duas descobrem quando estão juntas. Existe uma troca muito forte entre elas, uma conexão que vai crescendo e revelando novas camadas das duas personagens ao longo da história. É uma relação cheia de descobertas, encantamento e intensidade. No mais, tem que assistir para entender e descobrir cada detalhe dessa relação
6. A Flora já estava apaixonada pela Celina antes da transformação ou ela só começa a compreender esse sentimento depois?
Acho que a Flora vai descobrindo essa paixão aos poucos, a partir da intensidade da troca entre elas. Ela vai se deixando envolver por essa conexão e entendendo, ao longo da relação, o que esse encontro com a Celina desperta nela.
7. Flora e Luna viveram algo muito intenso e, agora, Flora passa a fazer parte justamente do universo que antes ameaçava essa relação. Para você, esse amor é um capítulo encerrado ou ainda existe algo da história com Luna que Flora precisa elaborar?
Acho que a Flora acredita que já elaborou algumas dessas relações, mas, na verdade, ainda está nesse processo. Ela também está se conhecendo e entendendo os próprios sentimentos. Algumas coisas vão se transformando ao longo da história: o que antes podia ser um amor romântico ganha outros lugares, como admiração, cuidado e afeto. A Flora é uma personagem muito movida pelo que acredita ser certo e, quando ama alguém, esse sentimento permanece de alguma forma, mesmo que a relação se transforme.
FLORINA:
1. A gente já sabe que Flora e Celina entram nessa nova fase da história juntas. Mas qual é o primeiro choque de realidade desse casal? Em que momento essa paixão começa a cobrar algum preço das duas?
L: Acho que o primeiro choque acontece quando a Flora percebe que ser vampira é muito mais do que não poder apanhar sol e ter de beber sangue. Ela percebe que deixou de ser humana e que isso tem consequências para o resto da vida – ou melhor, para a eternidade rs. E acho que é aí que a paixão das duas começa a ser colocada à prova. A Celina já conhece essa realidade e sabe exatamente o peso daquela escolha, enquanto a Flora ainda está descobrindo o que significa viver para sempre. É inevitável que isso crie alguns conflitos entre as duas.
2. Celina já viveu quase tudo. Flora ainda quer experimentar tudo. O que vocês acham que uma reconheceu na outra para essa atração acontecer?
L: Acho que nesse caso os opostos realmente se atraíram. A Celina já viveu séculos, viu de tudo e aprendeu a olhar para o mundo com algum cinismo. A Flora, pelo contrário, ainda tem essa curiosidade, essa vontade de experimentar e de se deixar surpreender pela vida. Acho que uma encontra na outra precisamente aquilo que lhes falta: a Flora encontra na Celina uma experiência e uma segurança que não conhece, e a Celina reencontra na Flora uma vontade de viver que há muito tinha perdido.
3. A Flora sempre quis conhecer o mundo e agora, teoricamente, tem uma eternidade pela frente. A série chega a colocar Flora e Celina imaginando uma vida juntas para além de Guarambá?
L: Sim. Foram cenas muito boas de fazer porque as personagens saem completamente da cidade da Flora e vão para um destino que ela sempre desejou conhecer. A forma como essa viagem acontece também é muito interessante, porque acaba por desencadear vários “problemas” que fazem parte da vida de duas vampiras. Posso adiantar que a Celina gostou bastante do sotaque carioca.
4. Agora existem duas vampiras em momentos completamente opostos: Celina carrega quase três séculos de experiência e Flora está descobrindo tudo pela primeira vez. Como vocês construíram essa diferença entre as duas?
L: Acho que essa diferença acaba por fluir naturalmente da personalidade de cada uma, que já estava muito bem construída na primeira temporada. A Flora não deixa de ser aluada só porque se tornou vampira, e a Celina não deixa de ser irônica por estar apaixonada. Essas diferenças das duas são o que as cativa como casal. São as mesmas personagens, mas lidando com uma realidade completamente nova. Acho que vai ser muito interessante perceber como cada uma reage a essa nova fase.
A: Foi muito divertido viver essa nova fase da Flora porque ela chega a esse universo descobrindo tudo pela primeira vez. Ela é muito curiosa, impulsiva, quer experimentar, testar os limites, apertar o botão mesmo quando dizem para não apertar. E a Celina faz esse contraponto, tentando conter um pouco esse impulso e mostrando para a Flora como lidar com tudo o que ainda é novo para ela. Essa dinâmica entre as duas foi muito divertida de construir e interpretar.
CONSTRUÇÃO E BASTIDORES
1. Vocês receberam essa dinâmica entre Flora e Celina muito claramente no roteiro ou parte dessa relação foi sendo construída entre vocês durante as gravações?
L: A gente sabia desde o início, quando recebemos o roteiro que as duas iam se relacionar. Eu confesso que devorei os episódios, porque a cada página muita coisa mudava e eu ficava cada vez mais entusiasmada com o caminho que a história levava. É claro que saber disso de antemão ajuda, mas um casal de ficção é sempre muito imprevisível e nunca sabemos qual será o impacto que vai ter no público. Eu acredito muito que química em ficção é algo real, e eu e a Alanis sempre estivemos muito disponíveis uma para a outra. Conseguimos improvisar, brincar e sentir as coisas de uma forma muito natural mas também muito consciente. Acho que isso passou para o ecrã. Fiquei muito feliz e sinceramente não esperava essa repercussão que Florina está tendo. Tem sido muito bom ver esse carinho do público.
A: Existe, claro, uma construção anterior às gravações, e o roteiro é sempre o nosso principal ponto de partida. Mas acredito muito no que acontece no encontro com o set. É ali que a relação entre as personagens ganha corpo, a partir da troca entre os atores, da direção e da própria atmosfera de cada cena. Por isso, procuro não chegar com uma ideia completamente fechada. O trabalho também está em permanecer disponível para perceber o que funciona, o que precisa ser transformado e os caminhos que surgem durante o processo. Muitas vezes, é justamente nessa experiência que aparecem as nuances mais interessantes e a relação encontra sua verdade.
2. Existe algum gesto, detalhe, troca, improviso ou característica da relação de Flora e Celina que surgiu de vocês e não estava necessariamente escrito no roteiro?
L: Sempre improvisávamos. Podia ser a Celina acrescentando alguma coisa mais irônica ou a Flora, por exemplo, começando algumas frases com sotaque de Portugal. Foram pequenos detalhes que fomos trazendo para as personagens. Divertimo-nos muito e fomos muito felizes no processo e na descoberta da relação das duas.
3. Sem contar exatamente o que acontece: existe alguma cena de Flora e Celina nesta temporada que vocês terminaram de gravar e pensaram “quando isso for ao ar, a internet vai surtar”? O que conseguem contar sobre ela?
L: Sim! A cena da festa foi uma daquelas em que acabámos de gravar, olhámos uma para a outra e pensámos: “Caraca… está bonito, hein?”. Os beijos encaixaram, a luz estava linda e aí tivemos a sensação de que a galera ia gostar. E há também a cena do hospital, que para mim é muito especial porque mostra um lado mais vulnerável das duas. A maravilhosa Patrícia Pedrosa – coordenadora do projeto, decidiu na edição retirar uma frase da Celina e eu acho que a cena ficou ainda mais bonita assim. Todo o entendimento da cena e toda a emoção estão ali, sem ser preciso explicar através do texto. Se a galera surtou com a primeira temporada, se preparem para a segunda. Teremos Florina em momentos que nunca vimos antes. Vem aí coisa inédita.
4. Existe alguma cena de Flora e Celina à qual vocês recomendariam que os fãs prestassem atenção especial nesta temporada?
L: Eu diria que vale a pena rever a primeira temporada e prestar atenção às relações, não só entre Flora e Celina, mas também à forma como elas se relacionam com os outros núcleos da série. Acho que isso ajuda a perceber melhor algumas coisas que vão acontecer agora. Mas de resto acho que a galera pode confiar na série. Ela é muito bem escrita e não deixa margem para dúvidas. As coisas vão acontecendo de forma muito natural e o público vai entender tudo no tempo certo.
A: Todas!!!!
FANDOM E TEORIAS
1. Vocês já caíram no universo das fanfics de Flora e Celina? Já chegaram a ler alguma história criada pelos fãs?
L: O universo de Flora e Celina é absurdamente fascinante. Eu não tenho Twitter, mas às vezes amigos me mandam algumas coisas e fico maravilhada com a originalidade e a criatividade desse fandom. Há teorias, histórias e interpretações que vão para lugares que nós próprias nunca teríamos imaginado. E, no fundo, são esses fãs que fazem o casal crescer e chegar a cada vez mais pessoas. Somos muito gratas por isso e por todas as pessoas que vibram com as duas e se envolvem tanto com a história delas. Eu adoro ler as teorias e acho que, enquanto houver imaginação e pensamento próprio, tudo pode ser válido dentro desse universo.
A: Não!
2. Ao acompanhar a recepção da série e das personagens, qual foi o comentário de fã que mais marcou vocês até hoje?
L: Não há nada que me deixe mais feliz saber que as pessoas não conseguem detestar a Celina. Esse era um dos meus principais objetivos: construir uma personagem que apesar de todas as suas contradições e de tudo aquilo que faz, não fosse uma vilã fácil de odiar. Saber que o público consegue compreender as suas camadas e de alguma forma criar carinho por ela é muito especial para mim.
Também me marcaram muito os comentários sobre o sotaque de Portugal. Fiquei muito feliz com a forma como foi recebido e tem um significado especial poder levar um bocadinho de Portugal para uma produção brasileira. Acho muito importante que os meus dois países estejam cada vez mais próximos através do audiovisual. Ansiosamente à espera de mais co produções dos dois países!
A: A Doidinha do centro, eu amei!!!
NARRATIVAS SÁFICAS
1. Tem alguma coisa que vocês conseguiram viver através de Flora e Celina que gostariam de ver mais nas narrativas sáficas?
L: Acho que o universo das duas daria perfeitamente para um casal de novela — tirando (obviamente) a parte da transformação. Seria muito interessante contar a história de uma menina de uma aldeia, curiosa e encantada pelo mundo, que se apaixona por uma mulher mais velha que já viveu em vários lugares e tem uma vida completamente diferente da dela.
Podia começar quase assim mesmo: as duas se conhecem na mesma uma festa e acabam por viver uma das noites mais marcantes de cada uma. E, a partir daí, acompanharíamos tudo o que nasce dessa relação. Acho que seria uma história muito bonita para vermos no horário da noite.
2. Existe alguma dimensão das relações entre mulheres que vocês sentem que a ficção, especialmente a brasileira, ainda explora pouco?
L: Acho que seria importante normalizar cada vez mais a presença de casais lésbicos nas narrativas, em todos os tipos de projetos. Porque é que um casal lésbico tem de ser sempre a exceção? Porque não pode simplesmente fazer parte da história, como acontece com tantos outros casais?
Sinto particularmente falta de vermos mais famílias lésbicas: a relação com os filhos, a construção de uma família, a adoção, a inseminação, o casamento… São temas que ainda aparecem pouco e que acho extremamente importante ser explorado. Gostaria de ver personagens lésbicas a viverem histórias que não estejam necessariamente centradas nas suas batalhas, mas também nos temas banais da vida e comuns como: o amor, família, conflitos, desejos e tudo aquilo que faz parte de qualquer relação.
3. O que mais anima vocês em poder contar uma relação entre duas mulheres dentro de um universo de vampiros, lobimoças, mitologia e fantasia?
L: Neste set de filmagem os limites eram quase nulos. A gente conseguia sonhar alto porque estava dentro de um universo místico, utópico e irreal, onde havia espaço para imaginar muita coisa. E acho que isso foi muito especial na relação da Flora e da Celina porque podíamos explorar sentimentos muito humanos dentro de uma realidade completamente fantástica.
Podemos falar de desejo, transformação, eternidade, poder, mortalidade… e levar tudo isso para lugares que talvez fossem mais difíceis num universo realista. Acho que essa liberdade para imaginar sem tantas regras tornou a relação das duas ainda mais especial.
4. Depois de tudo que essa história já representou para tantas pessoas e da relação construída com o público, o que Vermelho Sangue representa hoje para vocês?
L: Para mim, Vermelho Sangue representa uma grande oportunidade na minha carreira. Esse projeto abriu as portas para o país onde eu sempre sonhei trabalhar e onde também tenho as minhas raízes. Sou igualmente e orgulhosamente filha deste país, por isso poder iniciar a minha carreira no Brasil, interpretando uma vilã vampira numa grande produção do Globoplay, foi realmente uma bênção.
Levo também comigo as pessoas que conheci, as amizades que construí e todos os momentos que vivemos ao longo desta caminhada. Acho que há projetos que acabam por fazer parte da nossa história de uma forma muito especial, e Vermelho Sangue é definitivamente um deles. Serei eternamente grata por esta oportunidade e por tudo o que ela me proporcionou.
A: Acho que Vermelho Sangue mostra a potência do Brasil para produzir uma obra de realismo fantástico com qualidade, identidade e uma dramaturgia muito brasileira. A série parte de um universo que há muitos anos habita o nosso imaginário, tantas vezes contado por produções estrangeiras, e o traz para o nosso território e para os nossos símbolos. A presença do lobo-guará, que aqui é uma loba, reforça também a força do feminino nessa narrativa. Ao mesmo tempo, é uma série muito contemporânea, que fala de identidade, desejo, relações e sexualidade com naturalidade, incluindo a bissexualidade sem precisar transformá-la em uma questão a ser explicada. Tenho me surpreendido muito com o alcance da série. Pessoas muito jovens, jovens, adultos, atores, atrizes, profissionais do mercado e gente de fora do nosso meio vêm falar comigo e elogiar o trabalho. Acho muito bonito ver uma história tão brasileira atravessando públicos e gerações tão diferentes.
PARA FECHAR
1. Agora uma completamente pessoal: cada uma pode deixar uma obsessão atual para os fãs? Pode ser livro, série, filme, música ou qualquer coisa que vocês estejam indicando para todo mundo ultimamente.
L: Eu vou indicar o livro que li na construção da Celina que se chama Carmilla – escrito por Joseph Sheridan Le Fanu em 1852 e apresenta uma forte relação romântica e atração física entre mulheres, sendo considerado uma das primeiras obras da literatura a trazer uma vampira com desejos sáficos.
2. Agora vocês podem escolher o spoiler: tem alguma coisa sobre Flora e Celina que ninguém perguntou, mas que vocês estão morrendo de vontade de contar para os fãs?
L: Tem a viagem das duas que eu estou louca para poder falar sobre. Lá em cima falei do estado e agora vou abrir com vocês: Florina passeará pelas praias de Copacabana.
3. Existe algum detalhe da construção, da história ou da relação das duas que vocês consideram importante, mas que passou despercebido pelo público ou pelas entrevistas até agora?
L: Eu sempre tive muita atenção ao português porque o sotaque de Portugal é mais fechado e o meu maior medo era a dicção dela ficar ruim, então foi muito importante para mim esse processo de readaptação das frases em português br para pt e também adicionou algumas frases noutras línguas, para demonstrar a vivência da Celina.