A estreia da segunda temporada da obra Vermelho Sangue, série original Globoplay, acontece nesta quinta feira (17) e promete surpreender os fãs com desdobramentos inesperados nas histórias de Guarambá.
Por Marina Fiorani e Mylena Caitano

No cenário do cerrado, em Minas Gerais, a cidade fictícia de Guarambá volta a ser palco para os desafios e dilemas dos personagens de Vermelho Sangue, a primeira série Original de fantasia e suspense da Globoplay. Com dez novos episódios, disponibilizados de uma só vez (e o primeiro disponível também para não assinantes), a segunda temporada chega ao streaming trazendo o intrigante encontro da lobimoça Luna (Leticia Vieira) com sua essência selvagem, e o perigoso deslumbre de Flora (Alanis Guillen) com sua nova vida como vampira.
A nova fase da série criada e escrita por Claudia Sardinha e Rosane Svartman, com direção artística de Patricia Pedrosa, busca transformar os seres sobrenaturais em uma metáfora direta para o amadurecimento, a busca por identidade e a transição para a vida adulta. Nessa nova etapa, o enredo acompanha os novos dilemas de Luna, que passa a entender sua verdadeira identidade de lobimoça ao reencontrar o pai lobisomem, Martín (Milhem Cortaz). Sua chegada reabre feridas do passado com Carol (Heloísa Jorge), mãe da jovem e cientista focada em encontrar uma “cura” genética para os filhos; e o conflito se agrava ainda mais com a presença do irmão gêmeo de Luna, Juan (Lucas Leto), que chega para integrar ao meio acadêmico enquanto manifesta o desejo de se curar, ao contrário da irmã e do pai.

Em paralelo, Flora (Alanis Guillen) se deleita com a imortalidade e o domínio de seus novos poderes da vida de vampira, após ser transformada por Celina (Laura Dutra). O fascínio de Flora pelo extraordinário, contudo, passa a chamar a atenção de sua avó, a curandeira Barbina (Bete Mendes), colocando em risco o sigilo exigido pela linhagem dos vampiros. Já Celina busca orientar a nova vampira para proteger os segredos de seu clã, enquanto lida com o sentimento inédito que passa a existir entre as duas. Nesse contexto, a lobimoça Luna enfrenta a culpa e a dor de ver sua melhor amiga transformada, enquanto tenta se reconectar com sua essência selvagem.

A redação do Lesbocine esteve presente na coletiva de imprensa da segunda temporada de Vermelho Sangue, que aconteceu virtualmente na última terça-feira (15). Na ocasião, Alanis Guillen, Leticia Vieira, Pedro Alves e Alli Willow se juntaram às criadoras da série, Claudia Sardinha e Rosane Svartman, e à diretora artística Patricia Pedrosa, para revelar mais detalhes sobre os bastidores e futuros acontecimentos na trama da obra.
Quando questionados sobre a construção dos personagens e a parceria entre o elenco, Alanis contou sobre sua dinâmica com a equipe da obra e os parceiros de cena: “Tínhamos uma equipe maravilhosa, criando os cenários e as circunstâncias para cada momento. Houve muita entrega”, comentou. “Os jogos foram se criando, e fomos descobrindo tudo juntos, com a condução maravilhosa da Patrícia e atores muito generosos. Foi um desafio delicioso de enfrentar e de se descobrir como atriz”. Na sequência, a atriz se aprofundou em sua relação com Laura Dutra, que interpreta Celina, par romântico de sua personagem, Flora, e no futuro desenhado para as duas nesta temporada. O casal fictício despertou o interesse do público e conquistou uma comunidade de fãs apaixonada e engajada, que adotou o apelido de “Florinas”.

Para Alanis, trabalhar com Laura é um privilégio: “Ela é uma grande atriz, muito preparada, entregue e visceral. Aprendi muito com ela a cada troca e, com certeza, saí melhor desse projeto”. Ela conta que a relação entre suas personagens será surpreendente na nova fase da série, inclusive para o próprio casal de vampiras. “Acho que as duas são surpreendidas pelo afeto que descobrem. A Celina se apaixona quase involuntariamente. Ela vai percebendo que aquilo é mais forte do que ela. E a Flora está muito entregue a tudo de novo que está vivendo. Vai ser muito especial ver para onde essa relação vai, as experiências que elas vivem e como descobrem e vivem esse amor. Também existem bons desafios e situações-limite que colocam esse amor em questionamento”, completa.
A atriz reflete sobre suas próprias experiências e impressões ao falar de sua personagem. Alanis explica que a jornada de Flora traz questões existenciais da juventude, fase em que “criamos muitas expectativas, ideais e sonhos e vamos colocando tudo isso à prova”. A vampira recém transformada,então, descobrirá que nem tudo será da forma que ela, muito sonhadora e encantada pelo desconhecido, idealizou. “ Quando a gente busca muito fora, talvez perca algo essencial. Nessa busca por ser alguém, ela vai se dando conta de que não há nada melhor do que ser quem a gente é. É uma jornada de busca: quem eu sou, quem gostaria de ser e quem posso ser. A Flora é muito viva e desejante, interessada e interessante. Não liga para os julgamentos e tem as crenças e as buscas dela. Acompanhar sua jornada é acompanhar a aventura dessa jovem, e acho que isso gera identificação”. Completa, ainda: “Eu mesma consigo reconhecer momentos da minha vida nessas questões da juventude, nessa sensibilidade e nesse ser desejante. Acho que vai ser uma aventura muito bonita de acompanhar até o final. Estou muito ansiosa para ver tudo o que acontece. Ela se fortalece e se conhece ao atravessar essa jornada. No final, vamos ver em quem vai se transformar, com todos os desafios e as responsabilidades que assume”.
A obra Vermelho Sangue é conhecida por reinventar o universo dos vampiros e lobisomens sob a perspectiva da brasilidade contemporânea, misturando romance e fantasia numa fusão inédita e genial entre o folclore brasileiro e a mitologia global clássica. Questionadas quanto à importância de adaptar referências da fantasia universal para a cultura brasileira, as criadoras da série discorrem sobre o público brasileiro e sua forte relação com o imaginário popular e o realismo fantástico. Rosane Svartman falou sobre sua própria experiência com a ficção e o imaginário: “Eu fui uma adolescente que fugia para as narrativas de fantasia e ficção científica, e continuo fugindo de vez em quando. É muito bom poder contar uma história com DNA brasileiro e mostrar a qualidade que podemos fazer”. Especificamente sobre a segunda temporada, ela conta que o enredo se aprofundará na trajetória dos personagens em busca de quem são: “É uma oportunidade de falar de temas que transcendem o amadurecimento pessoal, o autoconhecimento e a compreensão de quem você é”.
Claudia Sardinha se aprofunda ainda mais na proposta: “Sempre foi nossa intenção falar das nossas questões a partir de um gênero universal e trazer a brasilidade como uma inovação. Esse é o nosso twist do gênero. Vemos as adaptações dos clássicos, mas podemos olhar para elas à nossa maneira e perguntar: como isso é para a gente?”, pondera. “Usamos o simbólico para abordar as questões do nosso tempo e da nossa localidade. O olhar da criação não estava só na brasilidade, mas também no feminino. Nossa brincadeira era pensar como fazer, à nossa maneira e dentro do feminino, esse gênero que estamos acostumados a ver representado internacionalmente de uma forma tão masculina”.
Dentro desta abordagem, pensando no laço criado por Flora e Celina, nossa redação perguntou a Alanis o que uma encontrou na outra que, em sua opinião, fez essa atração se transformar em algo tão forte. “A Celina tem uma vasta experiência e uma postura mais dominante, inclusive de ensinar essa nova vida à Flora. A relação se desenvolve muito a partir disso. A Flora vai confiando nela e se abrindo para viver essa relação, curiosa para experimentar o desejo e o apaixonamento que a tocaram. A descoberta da sexualidade vem um pouco antes. Com a Celina, a Flora materializa mais a experiência romântica, de afeto e de uma troca mais íntima”, detalhou.
“A Celina vai conduzindo de alguma forma, enquanto a Flora está ali na curiosidade, no envolvimento e na entrega. Acho que há essa confiança e essa liberdade que elas experimentam. A Flora é muito livre, e a Celina respeita isso, os desejos e as descobertas dela. Vai ser muito bonito ver como elas vão se conhecer e se expandir nessa relação”.
Ainda sobre o casal, sabe-se que, antes de Florina existir para o público, o ship precisou existir para as criadoras como uma escolha de roteiro. Perguntamos às criadoras, então, o que havia em Flora e Celina, individualmente, que levou-as a entender que colocar essas duas mulheres juntas poderia revelar lados delas que nenhuma outra relação da história conseguiria revelar. Em resposta, Rosane divide que a primeira versão da série foi escrita na pandemia, e que quando escreveram a série, as personagens já tinham essa relação. “Costumamos dizer que série não é uma obra aberta porque os capítulos já estão escritos”, Rosane explica, mas também conta que, com a chegada do elenco, esse cenário mudou: “A entrada dessas mulheres incríveis contaminou a obra no melhor sentido”, tópico a que Patricia Pedrosa complementa: “Quando uma série está muito fechada do início ao fim, é mais difícil encontrar espaços para essa construção coletiva. O audiovisual é a obra mais coletiva que existe. Ter profissionais abertos a isso fez a diferença no resultado que tivemos. As autoras, a equipe de arte, cenografia, figurino e caracterização estavam trabalhando de forma muito coesa. Quando o elenco chegou, trouxe uma contribuição gigante e foi nos surpreendendo a cada leitura. A obra foi sendo construída ao longo do tempo.
“Quando entram a Alanis, a Laura e a Patrícia, com suas ideias de paleta de cor e figurino, tudo cresce muito. Vamos conhecer mais sobre o passado da personagem da Laura. O figurino tem a ver com tudo o que ela conheceu ao longo do caminho e com seu gosto por moda e costura. O elenco, a direção e toda a equipe criativa ajudam a adensar os personagens, mesmo que as histórias já estejam ali. Uma parte da história delas na praia, pelo Rio de Janeiro, que aparece um pouquinho no trailer, surgiu nesse momento”, revelou Rosane.
A menção às cenas de Flora e Celina na praia trouxe um novo tópico para a mesa. Patrícia afirmou que não imaginava que haveria tanto afeto para com as personagens, e que foram entendendo a força das personagens durante as leituras e testes. Apesar de os textos já existirem, o material passou por ajustes no mesmo período em que começaram a escalar e conhecer as atrizes. Ela adiantou à imprensa um importante detalhe sobre as cenas do casal: “Quando entendemos a força de Florina, pensamos em fazer quase um spin-off delas dentro de um episódio. Vocês vão ver isso na segunda temporada: levar as duas para uma aventura e mergulhar mais na relação delas”.
Quanto à dualidade entre Flora e Celina, que trazem personalidades praticamente opostas, Claudia Sardinha surpreende ao dizer que, justamente por esse contraste, a união delas foi inevitável desde a sala de roteiro. Depois, a expansão do universo foi reforçando essas diferenças. “Uma é ingênua e está experimentando tudo pela primeira vez; a outra é experiente e já perdeu a graça da vida. A Celina está morta, e a Flora é pura vida. Ao se conectar com essa pulsão da Flora, a Celina recupera algo: o ineditismo, a paixão e a capacidade de se encantar. É isso que ela quer sugar ali”, explica. “Ao mesmo tempo, a Celina é um canal de amadurecimento para a Flora, que vai entender a responsabilidade das suas escolhas e do poder que está adquirindo”.
“Normalmente, achamos que o equilíbrio vem do meio. Mas acredito que ele pode vir desse puxa-puxa entre os opostos, que gera uma combustão muito potente. É fogo e gasolina. Desde a sala, percebemos que elas eram muito diferentes e tinham muito a aprender uma com a outra. Foi um encontro inesperado para as duas”.
Na sequência, perguntamos como as autoras construíram o roteiro da segunda fase para aprofundar os conflitos e trazer novos temas, considerando que as duas temporadas foram feitas juntas. Rosane se mostrou empolgada ao compartilhar mais detalhes: “A segunda temporada nos dá a oportunidade de adensar e trazer novos temas. Tivemos uma sala de roteiro durante a pandemia, pela tela do computador, trabalhando com a equipe. Gosto de explorar a história a partir das personagens: desenvolver seus arcos e depois ver como eles se cruzam. A Claudinha preparava as escaletas, e a gente discutia, num processo de idas e vindas, até chegar aos vinte primeiros roteiros. Mais perto da filmagem, voltamos a trabalhar sobre esse material”. Mas esse processo depende de uma boa organização e planejamento: “Tudo isso dentro de um cronograma de criação e das ferramentas que uma obra audiovisual exige – um bom gancho, personagens que se revelem por meio da ação e arcos de transformação”.
“Na primeira temporada, os conflitos são muito internos, de autodescoberta e autoaceitação. Estamos apresentando os personagens não só ao público, mas a eles mesmos. Eles estão se descobrindo e se conhecendo”, diz Claudia. “Na segunda, os conflitos se ampliam, além de se aprofundarem. Vamos mais fundo dentro deles, mas isso também gera um impacto externo, na sociedade”.
Por fim, Claudia deixa, espontaneamente, um recado direto à comunidade de fãs de Vermelho Sangue: “Adoro interagir com o fandom e percebo que os fãs perguntam muito nas redes sociais: ‘E o endgame?’. Eu digo: ‘Gente, o jogo só acaba quando termina’. Ainda não terminamos de contar essa história. O campo continua aberto, porque temos muita coisa para contar e muito conflito para solucionar. Minha cabeça já está borbulhando”.