Produção reúne um elenco carismático e uma premissa promissora, mas falha ao desenvolver seus conflitos e personagens.
Por Laura Magro
Dois anos foi o tempo que o público esperou ansiosamente por Girl Rules, uma série que prometia ser uma produção de peso. Anunciada em 2024, reunia uma empresa consolidada, um diretor conhecido e, principalmente, três casais extremamente populares. Tinha todos os ingredientes para se tornar uma das melhores séries do ano. Infelizmente, esse potencial ficou apenas na expectativa.
Girl Rules se passa no contexto da indústria do entretenimento tailandesa. A trama acompanha as amigas Prim (Namtan Tipnaree) e Min (View Benyapa), responsáveis pela produtora audiovisual Lady Bird, que cresce cada vez mais no mercado. Ao lado delas estão a figurinista Gorya (Love Pattranite) e a fotógrafa freelancer Praew (Mim Rattanawadee). Também conhecemos Shasha (Milk Pansa), modelo que protagoniza alguns dos trabalhos da produtora. Quando Bambi (Film Rachanun), ex-namorada de Prim, retorna à Tailândia após passar um ano em Nova Iorque, conflitos amorosos e de amizade começam a surgir. A narrativa desenvolve — ou pelo menos tenta desenvolver — a trajetória dos três casais principais: PrimBambi (NamtanFilm), ShashaGorya (MilkLove) e MinPraew (ViewMim).
A introdução de Girl Rules é boa, isso não dá para negar. Ao apresentar esse universo, a série estabelece rapidamente a dinâmica entre as personagens. Mais do que isso, chama atenção pela estética marcante: uma identidade visual colorida, com forte inspiração nos anos 2000, mesmo se passando no presente. A direção de arte merece todos os elogios. Figurinos, cenários e decoração dialogam diretamente com as personalidades das protagonistas e com o universo da história. Até a montagem mais exagerada e cheia de clichês funciona dentro dessa proposta, aproximando a série de uma estética camp.

Desde o início, fica claro que a volta de Bambi à Tailândia é o ponto de partida de toda a trama, e isso acontece de forma bastante envolvente. A cena em que ela aparece na casa de Prim e interrompe o momento que ela vivia com Gorya mistura confusão, tristeza, ciúmes e irritação em uma sequência divertida e eficiente para apresentar a personalidade das três personagens.
O problema é que esse bom começo acaba sendo prejudicado por falhas técnicas difíceis de ignorar, especialmente no trabalho de som. Para uma produção de uma empresa do tamanho da GMMTV, alguns erros são simplesmente inaceitáveis. E o pior é que eles se repetem durante toda a série. Há cenas que perdem completamente a potência emocional por conta de uma construção sonora descuidada, seja pela má captação do áudio, seja pela escolha de músicas que não conversam com a carga dramática do momento. Som estourado, vozes da equipe vazando e trilhas animadas em cenas de tristeza ou tensão acabam comprometendo a experiência. Problemas de áudio não são incomuns em produções de GL, mas em Girl Rules eles atingem um nível extremo.
A história, que começa interessante apesar dessas falhas técnicas, vai se perdendo ao longo do caminho. O maior problema está na forma como o roteiro conduz Prim e Bambi. Inicialmente, a narrativa nos faz acreditar que Bambi simplesmente abandonou Prim e desapareceu por um ano, justificando toda a mágoa da protagonista. Mais tarde, porém, descobrimos que as duas haviam terminado antes da mudança para Nova Iorque, o que altera completamente a percepção desse conflito. Essa contradição nunca é devidamente trabalhada.
Ainda assim, a série parecia caminhar para um desfecho interessante. No final do episódio 11, há uma das cenas mais bonitas de toda a produção. Em um diálogo emocionante, Bambi decide terminar o relacionamento. O que torna esse momento tão forte é a sinceridade da personagem ao admitir que não consegue se sentir bem dentro da relação porque não consegue se sentir bem consigo mesma. Independentemente de ela ser ou não um peso para Prim, o que importa é que ela acredita que é. Ao longo da série, vemos Bambi enfrentando problemas psicológicos, fazendo terapia e tratamento com medicamentos. Encerrar o relacionamento, mesmo ainda amando Prim, parecia uma tentativa de cuidar da própria saúde mental antes de tentar construir uma vida ao lado de outra pessoa.
Por isso, o episódio final causa tanta frustração. Em vez de desenvolver essa questão, a série simplesmente faz Bambi aceitar que foi egoísta por terminar, e as duas voltam a namorar sem realmente conversarem sobre seus sentimentos ou sobre os problemas que levaram à separação. Todo o desenvolvimento do casal, que teve altos e baixos, acaba sendo descartado.

Min e Praew também sofrem com as escolhas do roteiro. O casal começa de forma promissora, mas, conforme os episódios avançam, a dinâmica se torna repetitiva. Diversas cenas parecem girar em torno do mesmo conflito: tentar entender qual é a natureza do relacionamento entre as duas. Em determinado momento, a própria Praew parece perder sua individualidade e passa a existir quase exclusivamente em função da Min, o que é uma pena, já que a personagem demonstra potencial para muito mais.
Apesar disso, o arco de Min sobre se descobrir, se aceitar e se assumir é uma uma boa escolha da série. Infelizmente, roteiro e direção não conseguem conduzir essa trajetória com a força que ela merecia. No último episódio, a cena em que a família a aceita e Praew tira uma foto com todos perde parte de sua potência emocional. Isso acontece tanto pela construção irregular ao longo da temporada quanto pelos diálogos e pela direção, que não consegue extrair dos atores a mesma força dramática demonstrada em outros momentos.
Pelo menos Shasha e Gorya foram salvas pelo roteiro. Sem dúvida, são o casal mais consistente da série. A relação entre as duas é construída de forma natural e prazerosa de acompanhar, passando da rivalidade para a atração, depois para a aproximação e, finalmente, para o romance. Ainda sobra espaço para desenvolver o conflito envolvendo a mãe de Shasha, tornando esse o arco mais equilibrado da produção.

O que também ajuda a sustentar Girl Rules é a química entre os casais, que existe de sobra. Mas até nisso a direção consegue interferir negativamente. Muitas das cenas íntimas parecem inseridas apenas para atender à expectativa do público. Em vez de aprofundarem a relação das personagens, raramente revelam algo novo sobre elas ou sobre a dinâmica dos casais. Não se trata de mostrar mais ou menos, mas de dar significado a esses momentos. Boas cenas românticas ajudam a contar a história; aqui, muitas acabam funcionando apenas como um “e se amaram a noite toda”.
Apesar de todos esses problemas, Girl Rules também tem seus acertos. Além da excelente direção de arte, a série aborda temas sociais importantes de forma bastante natural, especialmente questões relacionadas à violência contra a mulher, relacionamentos abusivos e respeito aos limites. Em vários momentos, as personagens reforçam a importância do consentimento e da imposição de seus próprios limites, algo que merece reconhecimento.
A proposta da série era excelente. Havia espaço para explorar diferentes formas de relacionamento dentro da comunidade lésbica, tanto amorosos quanto de amizade, por meio de personagens complexas, humanas e contraditórias. O problema é que a sensação é de que a produção foi apressada para atender à enorme expectativa criada ao longo de dois anos de espera. O resultado é uma obra que acerta na estética, no carisma do elenco e em algumas discussões sociais importantes, mas que desperdiça boa parte do potencial de sua própria história.
Foto em destaque: Reprodução/GMMTV