Roteirista e criadora de “Vermelho Sangue” conta mais detalhes sobre os próximos acontecimentos da série original da Globoplay, e o que a obra significou em sua trajetória.
Redação
Mylena Caitano, Ingrid Zelinschi, Marina Fiorani
Reinventando o universo dos vampiros e lobisomens sob a perspectiva da brasilidade contemporânea, a série “Vermelho Sangue” conquistou uma comunidade de fãs intensos e dedicados ao misturar romance e fantasia numa fusão inédita entre o folclore brasileiro e a mitologia global clássica. A obra estrelada por Letícia Vieira (Luna), Alanis Guillen (Flora) e Laura Dutra (Celina) estreou oficialmente em outubro de 2025 no catálogo da Globoplay; e dialoga com a temática da autoaceitação, trazendo os dilemas da lobimoça Luna, que anseia por conquistar uma vida “normal”, em contraste com os sonhos de Flora, uma humana que deseja mais do que tudo ser extraordinária. A segunda temporada da série ainda não tem data de estreia divulgada, mas chega ao streaming ainda no segundo semestre de 2026.

A redação do Lesbocine teve a oportunidade de conversar com Claudia Sardinha, escritora e criadora de Vermelho Sangue. Conhecida também por criar a série “Quero Ser Solteira” (Multishow) e ter colaborado em obras como “Malhação: Sonhos” e “Totalmente Demais”, Claudia nos revelou mais detalhes sobre a segunda temporada da obra e as possibilidades de expansão do universo da série. Além disso, a autora contou um pouco de sua relação com os fãs de Vermelho Sangue e os relatos que já trouxeram a ela, discorrendo também sobre o que a obra, cuja criação ela assina junto de Rosane Svartman, representa para ela como pessoa e como profissional.
Confira a entrevista completa:
Quando você começou a escrever Vermelho Sangue, em que momento percebeu que a história tinha potencial para criar uma comunidade tão apaixonada ao redor dela?
Desde o início, sabíamos que estávamos lidando com uma série de gênero, e esse costuma ser um público muito apaixonado e também muito exigente em relação aos tropos que fazem parte dessas narrativas. Tínhamos referências de altíssima qualidade e queríamos criar uma série que estivesse à altura daquilo que nós mesmas gostamos de assistir quando consumimos terror e fantasia. Também entendíamos que histórias de vampiros, lobisomens e romantasia dialogam profundamente com experiências de identidade, pertencimento e auto aceitação, temas que historicamente conversam com o público queer. Sabíamos que estávamos contando uma história sobre encontrar o próprio lugar no mundo e aceitar quem se é, e esse tipo de jornada costuma gerar uma identificação muito forte. Além disso, sempre usamos o fantástico como uma forma de falar sobre questões muito humanas e cotidianas. As criaturas e os elementos sobrenaturais funcionam como metáforas para experiências reais. Então esperávamos que o público se conectasse emocionalmente com esses personagens. O que talvez não imaginássemos era a intensidade dessa conexão e a comunidade tão apaixonada que se formou em torno da série. Foi muito bonito ver isso acontecer.
Você acredita que produções sáficas ainda precisam “provar” seu valor no audiovisual ou sente que o mercado finalmente começou a enxergar esse público de outra forma?
Como criadora, eu sempre vi valor nas produções sáficas. O que mudou nos últimos anos não foi necessariamente a existência desse valor, mas a forma como o mercado consegue alcançar a audiência. A chegada do streaming e o crescimento das produções independentes ampliaram muito as possibilidades de circulação das histórias. Acredito que essa capilaridade contribui para uma maior diversidade de narrativas. Quando você conhece melhor o público com quem está dialogando, pode ser mais específico, mais ousado e mais autêntico. No fim, acho que o mercado está enxergando esse público de outra forma porque hoje existem mais oportunidades para que essas histórias encontrem quem estava esperando por elas.
Ao olhar para a recepção da série, qual foi o comentário de fã que mais te marcou até hoje?
O comentário que mais me marcou foi ouvir de muitas pessoas que elas passaram a se aceitar melhor depois de assistir à série, principalmente em questões relacionadas à neurodiversidade e à orientação sexual. O que mais me surpreendeu, porém, foi a repercussão de uma cena relativamente simples entre Luna e sua mãe, Carol, logo nos primeiros episódios. Depois de conhecer a Flora, Luna conta para a mãe que beijou uma garota. E a reação da Carol é de naturalidade e até de alegria, porque ela percebe que aquela filha tão introspectiva e retraída está finalmente se abrindo para o afeto e para as experiências da vida. Muitos fãs comentaram essa cena como um momento marcante justamente porque ela quebra uma expectativa. Em vez de transformar a orientação sexual da personagem em um conflito familiar, a série mostra uma relação baseada em confiança. Luna se sente segura para compartilhar aquela experiência com a mãe, e nenhuma das duas encara aquilo como um problema. Fiquei muito tocada ao perceber quantas pessoas destacaram essa cena. Para muita gente, o que foi especial não foi o drama, mas essa naturalidade. Espero que cada vez mais famílias possam viver esse tipo de experiência com a mesma acolhida e a mesma leveza.
A segunda temporada promete ser mais madura, mais intensa ou mais dolorosa emocionalmente para o público?
Acho que a principal diferença entre as duas temporadas está na natureza dos conflitos. Na sala de roteiro, a gente costumava dizer que a primeira temporada é mais sobre conflitos internos, enquanto a segunda é sobre conflitos externos. Na primeira temporada, muitos personagens estão tentando entender quem são, lidar com suas diferenças e encontrar um caminho de autoaceitação. Na segunda, boa parte dessa jornada já aconteceu. Agora eles precisam lidar com o mundo ao redor, com as consequências das próprias escolhas e com forças que vão muito além deles. Isso faz com que os conflitos ganhem novas dimensões e que a história fique emocionalmente mais intensa. Todos os personagens amadurecem, os desafios se aprofundam e as relações são colocadas à prova de maneiras muito diferentes. Sem dar spoilers, posso dizer que a segunda temporada expande o universo da série e leva os personagens para territórios mais complexos. E, consequentemente, leva o público junto nessa jornada.
Você pensa em Vermelho Sangue como uma história fechada ou sente que esse universo ainda pode crescer futuramente?
Não vejo Vermelho Sangue como uma história fechada. A segunda temporada não foi pensada como um ponto final para a série. Ela encerra os conflitos que propõe para esse momento da narrativa, mas também abre novas questões, novos desafios e novos caminhos para os personagens. Talvez por isso exista um desejo tão grande, por parte das criadoras, da sala de roteiro, do elenco e de toda a equipe, de continuar contando essa história. Sentimos que ainda há muito a ser explorado nesse universo. Acho que isso acontece porq

ue Vermelho Sangue é construída a partir de personagens complexos, cativantes e cheios de camadas, que ainda têm muito potencial de transformação. E, quando você soma isso a um universo sobrenatural, as possibilidades de expansão da narrativa se tornam ainda maiores. Então, sim, sentimos que esse universo ainda pode crescer bastante. E torcemos para ter a oportunidade de continuar acompanhando esses personagens em novas jornadas.
Como autora, o que mais te interessa explorar em narrativas sáficas que ainda sente falta no mercado?
O que mais me interessa explorar é justamente a diversidade de possibilidades. Acho que toda vez que existe pouca representatividade, corre-se o risco da história única, da ideia de que uma experiência pode falar por todas as outras. Por isso, quanto mais personagens sáficos tivermos, mais diferentes eles poderão ser entre si. Diferentes em personalidade, em trajetória, em conflitos, em desejos e até nos gêneros das histórias que habitam. O que sinto falta não é necessariamente de um tipo específico de narrativa, mas de mais espaço para que essas narrativas existam em toda a sua pluralidade. Porque pessoas sáficas não vivem uma experiência única, e suas histórias também não deveriam viver.
O que podemos esperar do casal Flora e Celina? Estamos muito ansiosas para esse desenvolvimento.
Podemos esperar muitas emoções de Florina. Quando a Celina decide transformar a Flora sem a autorização do clã, ela toma uma decisão movida pelo amor, mas que também traz consequências profundas. É uma transgressão que cria conflitos importantes para a Celina e muda completamente o rumo da vida das duas. Ao mesmo tempo, a Flora passa pela maior transformação possível. Ela deixa de ser humana e se torna exatamente aquilo que sempre sonhou ser: extraordinária. Só que realizar um sonho não significa que os desafios acabam. Pelo contrário. Agora ela precisa descobrir qual é o seu lugar nesse novo mundo e lidar com as consequências, boas e ruins, de quem ela se tornou. O que mais me interessa nessa relação é que elas entram na segunda temporada ligadas de uma forma muito mais profunda do que antes. A Flora é a primeira criatura transformada pela Celina, e isso cria entre elas um vínculo eterno. Então o público pode esperar muito amor, muita paixão, muitos conflitos e muitas aventuras. Porque as vidas dessas duas personagens agora estão entrelaçadas para sempre.
Tem alguma cena ou arco da nova temporada que você está especialmente ansiosa para ver a reação do público?
Tenho várias, mas acho que as sequências de Florina estão no topo da lista. São cenas que os fãs esperam há muito tempo e que ocupam um lugar muito importante na temporada. O que me deixa mais ansiosa é que, mesmo quem acredita saber para onde essa história vai, provavelmente vai se surpreender com alguns dos caminhos que ela toma. Estou muito curiosa para acompanhar a reação do público tanto aos arcos individuais da Flora e da Celina quanto à trajetória do casal. Também estou ansiosa para ver como os fãs vão reagir às novidades do núcleo da Luna. A chegada do pai e do irmão dela muda bastante a dinâmica da personagem, e o Milhem Cortaz está brilhante nessa temporada. As relações que surgem a partir dessa chegada rendem momentos muito emocionantes. E existe ainda uma terceira frente que me empolga muito: a expansão da mitologia dos vampiros. Nesta temporada, conhecemos melhor o passado do Michel e da Celina, entendemos um pouco mais sobre os eventos que os transformaram em quem são hoje e finalmente encontramos a Elizabetha, uma personagem que tem um papel fundamental nesse universo. Estou muito curiosa para ver o público descobrindo tudo isso junto com a gente.
O que mais mudou em você, como autora, entre a primeira e a segunda temporada?
Acho que o que mais mudou em mim como autora foi o diálogo com o público. Muita gente não sabe, mas a primeira e a segunda temporadas foram escritas praticamente ao mesmo tempo e também foram gravadas numa mesma etapa de produção. Então a experiência de criar a segunda temporada não foi influenciada pela recepção da primeira, porque, naquele momento, nós ainda não sabíamos como a série seria recebida. O que mudou veio depois da estreia. Hoje eu conheço muito melhor o público de Vermelho Sangue. Conheço suas leituras, suas teorias, os personagens com quem mais se conectam e os aspectos da história que mais os emocionam. Esse diálogo foi muito enriquecedor para mim como autora. Outra mudança importante foi poder ver a série ganhar vida. Depois do trabalho incrível da Patrícia Pedrosa, do elenco e de toda a equipe, hoje conheço esse universo de uma forma muito mais concreta. Os personagens deixaram de existir apenas na página e passaram a ter rostos, vozes, gestos e uma presença muito viva. Por isso tenho tanta vontade de continuar contando essa história. Acho que uma eventual terceira temporada seria escrita a partir de um lugar muito diferente: conhecendo melhor a série, conhecendo melhor os personagens e, principalmente, conhecendo melhor o público que abraçou esse universo de uma forma tão generosa.
Depois de tudo que essa história já representou para tantas pessoas, o que Vermelho Sangue representa hoje para você?

Para mim, Vermelho Sangue tem muito sabor de realização. É uma série que representa a oportunidade de criar uma obra autoral, autêntica e ambiciosa dentro de uma estrutura tão potente como a da Globo. Também é a consolidação de uma parceria muito importante na minha vida. A Rosane Svartman é minha mestra, minha amiga e foi quem me convidou para criar essa série ao lado dela. Depois de quase dez anos trabalhando juntas, dividir essa criação foi uma realização profissional imensa. Mas, olhando para tudo o que essa história já representou, acho que o que mais me emociona hoje é a relação que ela me proporcionou com o público. Eu acompanho muito de perto o que os fãs criam. Os edits, as ilustrações, os desenhos, as fanfics, as teorias. E acho muito bonito perceber como um universo que começou dentro de uma sala de roteiro foi sendo transformado por tantas pessoas ao longo do caminho. Primeiro pelas pesquisadoras, consultores, colaboradores de roteiro, direção, elenco e equipe. Depois pelo público, que recebeu essa história e passou a dialogar com ela. O que mais me encanta é que não encontrei uma audiência passiva. Encontrei pessoas criativas, inteligentes, talentosas e profundamente engajadas. Pessoas que expandem esse universo junto com a gente, que se apropriam da narrativa, criam novas leituras e mantêm a história viva muito além da tela. Então, se no início Vermelho Sangue representava a realização de um sonho profissional, hoje ela também representa algo que eu não esperava encontrar: uma comunidade com a qual eu adoro conversar, trocar ideias e crescer junto. E isso, sinceramente, é uma das coisas mais extraordinárias que essa série trouxe pra minha vida .
Imagem em destaque: Reprodução/Globo