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Um “antes e depois de Lorena e Juquinha”: os primeiros meses de um legado histórico e definitivo

Crítica Novela

Sucesso astronômico da novela vertical evidencia como a representação singular de um casal lésbico, junto a um respeito pelas vozes do público, se tornou um divisor de águas no audiovisual 

Por Marina Fiorani

Muito aguardada pelo público e com uma narrativa cativante, a novela vertical “LOQUINHA”, spin-off derivado da obra “Três Graças”, foi recebida pela audiência na noite do dia 6 de abril, com direito a elogios fervorosos e brados de comemoração por parte dos internautas. O projeto se aprofunda no cotidiano de Lorena Ferette e Eduarda Fragoso (que recebeu o apelido “Juquinha”), casal queridinho dos telespectadores da novela de Aguinaldo Silva. A obra foi dirigida por Naína de Paula, com assistência de direção de Karla Bittencourt, direção artística de Luiz Henrique Rios e fotografia por Leonardo Paiola, e chegou a ultrapassar a marca de 100 milhões de visualizações em suas primeiras 24 horas de estreia.

Loquinha, nome atribuído ao ship através da junção dos nomes das protagonistas, já era um fenômeno mesmo antes da cena do primeiro beijo entre as personagens ir ao ar. O capítulo em que Lorena e Eduarda se conhecem no final de novembro, ainda nos primeiros atos da novela, chegou rapidamente aos assuntos mais comentados do Twitter (atual X), e a repercussão inegável fez com que a Rede Globo optasse por dar mais destaque à trama das duas, anunciando a produção do spin-off logo após a cena em que o casal oficializa o namoro ser transmitida.

Na última semana, o Lesbocine teve o privilégio de participar dos eventos de lançamento da novelinha, que foi disponibilizada integralmente nas redes sociais da TV Globo durante o capítulo da novela de segunda-feira. A coletiva de imprensa oficial, que aconteceu nos Estúdios Globo no Rio de Janeiro na última quinta (02), contou com a presença das protagonistas da obra, Alanis Guillen (Lorena) e Gabriela Medvedovsky (Juquinha/Eduarda); além de Daphne Bozaski, que dá vida à vilã Lucélia, e Mell Muzzillo, que vive Maggye, a melhor amiga do casal e prima de Lucélia. Já o encontro de fãs oficial que aconteceu na manhã do dia 6 de abril, horas antes do lançamento, recebeu a diretora Naína de Paula, que também compõe a direção da novela “Três Graças”, e Ingrid Gaigher, que interpreta Teca, a ex-namorada de Eduarda. Enquanto a coletiva recebeu cerca de vinte veículos de imprensa e criadores de conteúdo, que também puderam conhecer os cenários em que se passam as cenas da novelinha, o encontro sediado na cidade de São Paulo trouxe uma aura intimista ao convidar por volta de trinta fãs para um bate-papo descontraído e regado de afeto.

Alanis Guillen e Gabriela Medvedovsky na coletiva de imprensa da novela vertical “Loquinha”
Alanis Guillen e Gabriela Medvedovsky na coletiva de imprensa da novela vertical “Loquinha” Imagens: Acervo pessoal

O clima eufórico na sala de imprensa deu lugar a uma expectativa doce e a uma admiração ansiosa no instante em que Alanis e Gabriela adentraram o ambiente. Sempre olhando fundo nos olhos de cada jornalista e com um carisma contagiante, a dupla respondeu energicamente às perguntas sobre o enredo da novelinha e a importância de se contar essa história em horário nobre. A todo momento, as atrizes deixavam clara a sinergia desenvolvida para compor a dinâmica entre elas, complementando-se entre si e demonstrando sua admiração pelo trabalho que está sendo feito. “Apesar de elas [Lorena e Eduarda] terem tido criações muito diferentes, elas têm valores muito parecidos, uma consciência e empatia muito parecidas”, afirmou Alanis sobre a conexão entre as personagens, ao que Gabriela acrescenta: “Esse encontro delas é de muita cumplicidade. Não à toa existiu essa conexão entre elas, porque elas se reconhecem muito uma na outra”. 

Uma das razões para a adoração do relacionamento entre as duas mulheres pelo público, tanto na trama de “Três Graças” quanto na novelinha, pode ser atribuída ao profundo respeito pela relevância de Loquinha que as atrizes demonstram ao abordar o assunto. É perceptível a consciência quase reverente que Alanis, Gabriela e toda a equipe possuem da responsabilidade que carregam ao contar essa história: anos de apagamento de toda uma comunidade começando a serem reparados com muito cuidado e sensibilidade. E isso não passa batido pelo público, que não poupa esforços para repassar sua gratidão.

Quando questionadas quanto a esse aspecto, a dupla de atrizes novamente assume uma postura orgulhosa e com brilho nos olhos, contando relatos tocantes sobre os comentários que já receberam de pessoas de diferentes gerações. Gabriela trouxe para a sala seu encontro com uma senhora de idade que muito elogiou a história das personagens, explicando como é gratificante quando esse fenômeno “fura a bolha”: “Esses retornos de pessoas que a gente nem imagina que poderiam estar apreciando nosso trabalho… Talvez, anos atrás, isso não aconteceria”. Alanis, por sua vez, falou sobre uma menina de cerca de doze anos que a abordou no aeroporto, emocionada, dizendo-lhe o quanto achava importante o que está sendo feito com Loquinha. “É uma missão nossa, contar a história e representar pessoas (…) Isso já é uma grande transformação. É o propósito”, concluiu.

A novela vertical, que recebeu o título de “LOQUINHA: Uma novelinha Três Graças”, teve seus vinte e cinco episódios de cerca de três minutos disponibilizados de uma só vez nas redes sociais da emissora. Trata-se de um formato novo sendo explorado pela TV Globo, pensado para ser consumido em dispositivos móveis e acompanhar o ritmo frenético e agitado da sociedade atual. O projeto roteirizado por Márcia Prates tem uma narrativa própria, mas que dialoga com os acontecimentos da novela das nove. Ele marca um momento importante para a Globo e sua aposta nos microdramas, formato impulsionado pela associação da cultura de novelas com a predominância do consumo de conteúdo mobile. 

Os cortes descontínuos, os arcos dramáticos curtos e a cadência acelerada da narrativa são pensados para capturar a atenção do espectador de forma precisa e rápida, e reter seu foco até o gancho que o levará inevitavelmente a passar para o próximo capítulo. Apesar desse modelo um tanto vertiginoso poder causar certo desconforto inicial para quem se atenta a aspectos de montagem no audiovisual, percebe-se como a direção usa esse elemento a seu favor para constituir um produto final viciante e apaixonante. A verticalidade também muda a configuração da dinâmica das personagens: a proximidade física agrega às cenas uma intimidade ainda mais intensa para o casal, que o público já conhece pela afinidade e comportamento afetuoso; além de uma atmosfera de tensão acentuada nas cenas mais dramáticas. 

Cerca de 4 meses após nossa última conversa, nossa redação convidou novamente a fã Alana Bressan, que esteve presente no encontro, a compartilhar sua visão sobre o desenvolvimento da trama do casal. Anteriormente, Alana falou um pouco sobre suas expectativas quanto ao destaque e importância que Loquinha receberia no enredo de “Três Graças”, e agora, com o lançamento da novela vertical, a assistente comercial revela que se surpreendeu positivamente: “Antes de Loquinha, era muito raro ver uma história sáfica retratada com tanta naturalidade no dia a dia. Muitas vezes essas narrativas vinham carregadas de muito drama ou não tinham espaço para mostrar momentos simples e humanos da relação. Com Loquinha, a gente conseguiu ver essas personagens vivendo o amor delas de forma mais cotidiana e verdadeira”. 

Sobre a modalidade vertical e a nova proposta da obra, ela comenta que teve receios de que a história ficasse “muito corrida” em decorrência dos capítulos curtos, mas afirma que a produção superou suas expectativas. “A narrativa consegue ser envolvente mesmo nesse formato mais rápido, e acho que os números também falam por si só sobre o quanto a história conquistou o público. E, claro, isso também é reflexo do talento impecável do elenco: quando uma boa história encontra um elenco tão comprometido, o resultado dificilmente poderia ser diferente”, fez questão de acrescentar.

Naína de Paula e Ingrid Gaigher no encontro de fãs oficial de Loquinha
Naína de Paula e Ingrid Gaigher no encontro de fãs oficial de Loquinha              Imagens: Acervo Pessoal

Naína, diretora da obra, abordou os aspectos técnicos e cinematográficos da novelinha em diferentes momentos e entrevistas; mas no encontro com as fãs, compartilhou sua visão sobre a outra (e indissociável) face da criação, e fez transbordar nas convidadas uma comoção de quem subitamente se dá conta de que está vivendo um momento histórico e inesquecível. Durante o evento, ela reforçou a importância da produção, reiterando com firmeza orgulhosa que as histórias de amor entre mulheres merecem ser contadas, principalmente após muitas gerações terem crescido assistindo a narrativas que não dialogavam com elas. “É possível fazer revoluções de uma maneira amorosa”, afirmou. 

 A presença de tantas mulheres da comunidade lésbica e bissexual na equipe, tanto no elenco quanto na produção e no marketing, acrescentou um olhar essencial e um respeito louvável pela abordagem da obra, que certamente fizeram toda a diferença na recepção do público. É evidente que o êxito avassalador do fenômeno Loquinha se dá não necessariamente pela novidade do formato, mas com certeza pelo trabalho primoroso investido em falar em voz alta sobre uma representatividade tão necessária com coragem e de queixo erguido. Sem dúvidas, a dedicação da equipe e do elenco, em especial o time de mulheres esmeradas e zelosas que atuou no projeto, foi indispensável para transformar a novelinha, gênero antes tão criticado nas redes sociais, em um triunfo inebriante e encantador.

Ainda no encontro de fãs, Ingrid Gaigher, que dá vida à personagem Teca, levou ao evento uma simpatia vibrante e um agito magnético no sorriso. A atriz apresentou a si mesma e a personagem nova para as convidadas com toda a sua confiança e carisma, convencendo-as a “adotar” a personalidade alvoroçadora de Teca antes mesmo de termos a oportunidade de odiar a antagonista. A DJ não chega com um papel de vilã como Lucélia, e sim como uma ex-namorada apaixonada que alia-se à uma antagonista supostamente bem-intencionada para separar o “casal nojinho”, alheia ao caráter perverso da nova  parceira.

E falando nela, a personagem de Daphne Bozaski retorna com uma ardilosidade ainda mais desenfreada na trama, determinada a sabotar o namoro de Lorena e Eduarda, e contando com o apoio moral e financeiro de Santiago Ferette (Murilo Benício), pai de Lorena, para cumprir sua missão. Daphne executou com maestria o papel de vilã da trama, e conforme pontuou a própria Grazi Massafera, também presente no elenco de “Três Graças”, ao dedicar seu prêmio de Melhores do Ano a Sophie Charlotte, “sem a protagonista não existiria a antagonista”, e vice versa. Pode-se dizer com segurança que a química fantástica entre Alanis, Gabriela e Daphne, somada ao talento gracioso que Mell Muzzillo traz ao completar o quarteto, foi uma junção esplendorosa que deleitou o público também com o recurso cômico, já que o senso de humor da novelinha foi um ponto impossível de não ser comentado.

Em todas as etapas do lançamento, muito ouvimos o elenco e a própria Naína frisarem o quanto a participação do público foi imprescindível para a continuação da história de Loquinha, bem como para o lançamento da novelinha em si. O apreço da fascinada comunidade de fãs que o casal conquistou foi determinante para que o enredo de Lorena e Eduarda ganhasse mais destaque na trama principal da novela; e o reconhecimento dessa potência e mérito por parte da emissora ficou evidente não somente na criação da novela vertical, mas também na relação curiosa que os fãs criaram com a TV Globo. 

A comunidade que acompanha as histórias nas redes sociais criou uma cultura própria e auto-gerida, marcada por inúmeras referências compreendidas somente pela própria fanbase. Essa coletânea inclui elementos que variam desde memes de momentos divertidos do elenco, até fanfictions e bordões incompreensíveis para quem observa de fora. Tudo isso é acompanhado de perto pela equipe de marketing da emissora, que interage diariamente com os fãs na internet, em especial no Twitter, e cuja social media ganhou até um apelido: Adm Sapa de 3G (Três Graças). Fica fácil notar a forma como a Globo compreendeu a força que a comunidade de fãs representa para a repercussão de suas obras; e é interessante observar como ela busca acompanhar de perto a maneira como a fanbase se organiza, integrando-se a ela para entender seus anseios. 

Esse empenho se reflete na satisfação do público geral e dos criadores de conteúdo, alguns dos maiores responsáveis pelo engajamento contínuo e incansável da novela desde o começo. Eles reafirmam com frequência seu entusiasmo com o rumo que a trama tomou, e também com as diferentes experiências proporcionadas pela equipe da emissora: visitas aos estúdios de gravação, pequenos “mimos” presenteados pela Globo, além das próprias interações nas redes pelo perfil oficial. 

A maior conquista, no entanto, sempre será o alcance do interesse em comum, atingido com muita garra e resiliência após anos de luta. O formato diferenciado chamou muita atenção, e a forma como a TV Globo conduziu a experiência do público com ambas as obras foi uma verdadeira aula de marketing e gestão de comunidade. Contudo, o que justifica o sucesso arrebatador do “fenômeno Loquinha” é, sem dúvida alguma, a paixão e a vivacidade despertadas pelo ato de dar voz ao amor lésbico e bissexual; através de um trabalho minucioso e impecável de todo o elenco e equipe que, inegavelmente e sem exceções, merecem todas as “notas 10” do mundo por sua necessária contribuição.

É possível afirmar, com muito orgulho e esperança, que o amor de Lorena e Juquinha se tornou um vitorioso divisor de águas para a representatividade. Tratar com tamanho respeito e legitimidade as vivências de uma comunidade cujas histórias foram censuradas por anos, foi um feito histórico impossível de ser ignorado, e que revolucionou de maneira irreversível o olhar que o audiovisual passará a ter para representar relacionamentos entre mulheres – assim esperamos. 

Imagem em destaque: Beatriz Damy/Globo

 

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