Pluribus: por que esta pode ser a melhor série de 2025

Crítica Séries

Série de Vince Gilligan, estreou na Apple TV+ em novembro, com Rhea Seehorn como Carol, e já conquistou fãs e excelentes avaliações de críticos e dos principais portais de cinema. Além disso, a produção já está oficialmente renovada para a segunda temporada, embora ainda sem data de estreia divulgada.

por Rayanne Tovar

Com a premissa de acompanhar a mulher “mais triste do mundo” em um cenário onde a felicidade domina, nossa protagonista se torna a última esperança para restaurar o equilíbrio emocional da humanidade. Pluribus acompanha Carol (Rhea Seehorn), uma escritora que é uma das 13 “imunes” espalhadas ao redor do mundo após uma invasão alienígena, se é que podemos chamar assim. Um vírus contamina toda a população, fazendo com que todas as pessoas infectadas compartilhem uma mente coletiva, sendo extremamente gentis e felizes. Porém, sem nenhuma autonomia: todas as pessoas ainda existem, mas é como se fossem controladas por uma única consciência pensante, com suas mentes interligadas.

Durante os 9 episódios da série, acompanhamos nossa protagonista, Carol, uma quase anti-heroína tentando salvar a humanidade desse vírus e reverter essa mente coletiva que transformou os humanos em seres sem autonomia e pensamento próprio. Há quem diga que ela é chata ou que a série é muito devagar, mas quem aqui não faria exatamente igual a Carol em uma situação dessas? Quem não tentaria salvar as pessoas de se tornarem quase como robôs ambulantes? Quem não surtaria em uma situação em que todos à sua volta se encontram em transe, sua esposa morre na sua frente e, de repente, todos sabem seu nome e tudo sobre sua vida? Bom, se você não surtaria, é melhor começar a repensar o seu senso crítico e de humanidade.

Podemos dizer que Pluribus agradou muito, mas também houveram reclamações em relação ao desenvolvimento da série: a personagem antipática, amargurada e reclamona demais; e a série com poucos diálogos. Mas, em um momento em que vivemos no 2x, seja no mísero WhatsApp diário ou até mesmo assistindo séries e vídeos no YouTube, uma série com a densidade de Pluribus não é o problema aqui. A série não precisa de afirmações ditas o tempo inteiro; a atuação e a direção deixam estampadas nas nossas telas o que os atores querem transmitir. Tudo é muito bem pensado e executado por todas as partes técnicas para que a gente entenda as emoções da nossa protagonista e sua relação com os “contaminados” e os outros “sobreviventes”.

 

Diferente das apostas atuais do audiovisual, Pluribus te puxa para dentro da história de forma que você se imagina como Carol ou, de repente, se pega imaginando se viveria como o sobrevivente francês Mr. Diabaté (Samba Schutte), ou se alguém da sua família sobrevivesse, você seria como a Laxmi (Menik Gooneratne)? Ou será que se isolaria completamente como Manousos Oviedo (Carlos Manuel Vesga)? Mesmo com pouco tempo de tela, pudemos ter um vislumbre de como os outros sobreviventes têm vivido durante os meses desde a infestação desse vírus, nos deixando até querendo conhecer mais sobre suas rotinas.

Não existe resposta certa ou errada aqui, porque cada pessoa é única e cada indivíduo tem sua própria reação. O que é fato é que não devemos esperar pouco de uma série de Vince Gilligan, simplesmente o criador de Breaking Bad e Better Call Saul. O que não falta aqui é presença, criatividade e a estranheza clássica do diretor.

Quem acompanhou Breaking Bad e/ou Better Call Saul reconhecerá imediatamente a assinatura visual de Vince Gilligan em Pluribus. Filmada em Albuquerque, Novo México, mesmo cenário das obras anteriores, a série traz de volta o diretor de fotografia Marshall Adams, responsável pela cinematografia de Better Call Saul. O resultado é uma fotografia deslumbrante e vibrante, sem medo de cores e com planos cinematográficos amplos, que tratam tanto os interiores de supermercados vazios quanto as paisagens desérticas com a mesma atenção.

O ritmo deliberado e contemplativo, marca registrada de Gilligan, permanece: sequências que se deleitam em representar processo e atmosfera, confiando no silêncio em vez de abarrotar a tela com diálogos.

 

Enredo sáfico

Carol Sturka, interpretada pela brilhante Rhea Seehorn, que deu vida à inesquecível Kim Wexler em Better Call Saul, é uma escritora best-seller de fantasia que, apesar do grande sucesso de seus livros, não aparenta estar feliz com seu trabalho. Será porque Carol esconde um segredo de seus leitores? Na verdade, o personagem principal, o galã de seu livro, era para ser uma mulher. Sua intenção era fazer um romance de fantasia com um par romântico lésbico.

No primeiro episódio, já descobrimos sobre a sexualidade de Carol, e isso não precisa ficar sendo gritado aos quatro ventos ou reafirmado a cada segundo da série. Em poucas cenas e palavras, já entendemos o recado: Carol era casada com sua agente, Helen (Miriam Shor), que morre logo no primeiro episódio, assim como milhões de pessoas durante a infestação do vírus. É sofrendo o luto e a solidão de ser uma das poucas sobreviventes que a mente coletiva envia Zosia (Karolina Wydra) para ser a “supervisora” de Carol. A mulher, que é uma das infectadas, é fisicamente parecida com Raban, o personagem principal do livro de Carol, uma versão feminina dele, escolhida especialmente porque a mente coletiva sabia das preferências de Carol.

É durante os episódios que vemos a dinâmica entre Carol e Zosia crescer e se desenvolver. Apesar de Carol ser completamente contra se juntar à mente coletiva, ela acaba se apegando a Zosia, seja pela solidão de viver em um mundo onde a interação humana genuína é quase zero, seja pela atração que sente por sua supervisora. No episódio 8, Carol enfrenta um dilema: “salvar a garota ou salvar o mundo?”, que, inclusive, é o título do episódio.

Em meio à solidão, carência e confusão deste mundo tão diferente do que estamos acostumados a viver, Carol acaba se permitindo ficar com Zosia. O desenvolvimento e a nuance da personagem é o que torna tudo mais interessante de ser assistido, o que faz a gente ficar torcendo para que Carol consiga salvar a humanidade e, assim, salvar Zosia, para que ambas possam ficar juntas e felizes, mesmo em um mundo caótico como o nosso.

A série é muito mais do que o casal ou a sexualidade da nossa protagonista, mas, em um cenário em que dezenas de séries com protagonismo sáfico/lésbico são canceladas, é um alívio ver o sucesso de Pluribus e a coragem de ter uma protagonista lésbica fora do padrão comercial, com relações que vão além do comum.

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