Por Carolina Luz Paulo
Ieda Aparecida Simplício Kojitani, de 62 anos, e Fabiana de Fátima Nogueira, de 47, saíram de casa em Praia Grande (SP) na noite de 9 de julho de 2026, dizendo que precisavam “resolver um negócio”. Não voltaram. Nove dias depois, foram encontradas enterradas numa cova rasa em área de mata no bairro Samaritá, em São Vicente, no litoral paulista, ao lado de um crânio humano cuja origem a polícia ainda apura. Os corpos só apareceram porque a ex-companheira de uma das vítimas recebeu uma pista sobre o paradeiro do casal e foi, com familiares, escavar o terreno com as próprias mãos.
Não existe, até o fechamento desta matéria, motivação oficialmente confirmada para o duplo homicídio. Mas o caso de Ieda e Fabiana entrou de imediato para uma lista que o Brasil segue alimentando, ano após ano, sem que exista sequer um sistema público de dados capaz de dizer, com precisão, quantas mulheres sáficas foram assassinadas por serem quem são.
O Brasil lidera o ranking mundial de mortes violentas de pessoas LGBT+. Em 2025, foram 257 registros: a cada 34 horas, uma vida interrompida por violência motivada por LGBTfobia, segundo o levantamento anual do Grupo Gay da Bahia (GGB), que soma 204 homicídios, 20 suicídios, 17 latrocínios e 16 mortes por outras causas associadas ao ódio. O número de 2025 é apenas 11,7% menor que o de 2024, quando foram contabilizadas 291 mortes.
Dentro desse total, as mulheres lésbicas ocupam um lugar particularmente nebuloso: o de quem morre, mas não é “contabilizada”. O primeiro, e também um dos únicos esforços para medir especificamente o assassinato de lésbicas no país até aquele ano, foi o Dossiê sobre Lesbocídio no Brasil, lançado em 2018 pelo Grupo Gay da Bahia em parceria com pesquisadoras acadêmicas. O documento mapeou casos de assassinato e suicídio de mulheres lésbicas, entre 2014 e 2017; e constatou um salto nos registros que, a depender da fonte, variou entre 150% e 237%. Essa explosão foi atribuída pelos próprios pesquisadores menos ao aumento repentino da violência, do que à quase total invisibilidade do problema nas estatísticas oficiais.
É essa lacuna que artigos acadêmicos publicados posteriormente na Revista Estudos Feministas voltam a apontar: o Estado brasileiro, mesmo tendo um capítulo dedicado ao “enfrentamento do racismo, sexismo e lesbofobia” no Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, desde 2013, segue sem produzir dados próprios e sistemáticos sobre a violência letal contra lésbicas. Não existe, em nenhum boletim de segurança pública do país, uma categoria chamada “lesbocídio”. As mortes de mulheres sáficas se diluem entre feminicídios genéricos, homicídios “por motivo desconhecido” ou, como no caso de Ieda e Fabiana, noticiários que mencionam de passagem que as vítimas “mantinham um relacionamento”.
O que os números (que existem) revelam
Na ausência de estatísticas de mortalidade consolidadas, o principal termômetro nacional segue sendo o Disque 100, canal de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Os números, mesmo reconhecidamente subnotificados, desenham uma curva que não para de subir:
- Só entre janeiro e agosto de 2023, foram 867 denúncias de violações contra pessoas lésbicas: cerca de 24% de todos os relatos de violência contra a população LGBTQIA+ registrados no período, segundo o Painel de Dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos.
- O total de denúncias de LGBTQIA+fobia ao Disque 100 saltou de 3.948 em 2022 para 6.070 em 2023: um crescimento de mais de 50% em um único ano, e já somava 5.741 casos até setembro de 2024.
- O próprio Ministério dos Direitos Humanos reconheceu, em nota de 2025, “aumentos nas notificações de violência contra mulheres lésbicas” como parte do cenário que justificou o lançamento, em agosto daquele ano, do POP Mulheres LBTI. Ele foi o primeiro protocolo nacional de atendimento voltado especificamente para lésbicas, bissexuais, transexuais, travestis e intersexo em situação de violência.
Pesquisadoras que estudam o tema costumam repetir uma frase: a lésbica brasileira é vítima de uma violência que soma dois eixos de opressão: o machismo, que a atinge por ser mulher, e a lesbofobia, que a atinge por recusar a heterossexualidade compulsória. Quando os dois se cruzam, o resultado é um tipo de violência que tem lógica própria, e que o termo “lesbocídio” tenta nomear, justamente para que deixe de ser tratado como um feminicídio qualquer; ou, pior, como um crime “sem motivação aparente”. Proposto pelas pesquisadoras Maria Clara Dias, Milena Cristina Carneiro Peres e Suane Felippe Soares, autoras do Dossiê sobre Lesbocídio no Brasil (UFRJ, 2018), o termo “lesbocídio” surge principalmente para nomear um crime que não é simplesmente feminicídio, nem simplesmente LGBTfobia, mas as duas coisas cruzadas.
Essa lógica própria ficou explícita em outro caso, ocorrido no fim de junho de 2026, em Sobradinho, no Distrito Federal. Duas jovens, de 19 e 20 anos, voltavam a pé para casa depois que o ônibus habitual não passou. Foram abordadas por um homem armado com uma faca, que anunciou um assalto e, ao não encontrar celulares nas mochilas, tornou-se cada vez mais agressivo. Ele obrigou as vítimas a entregar joias e óculos, depois a tirar a roupa, e as levou para uma área de mata, onde ambas foram estupradas ao longo de cerca de duas horas.
O relato de uma das vítimas ao Metrópoles revela o ponto em que o crime deixou de ser “apenas” um assalto violento: ao perceber que as duas formavam um casal, o agressor passou a explorar esse vínculo para intensificar o terror, ameaçando matar uma, caso a outra reagisse. Segundo a jovem, ele fazia questão de que as duas se olhassem durante os abusos: “queria ver o nosso desespero”, nas palavras dela. Carros passaram pela via enquanto as jovens, seminuas, eram levadas para o mato; nenhum motorista parou. As vítimas só conseguiram escapar quando uma delas tomou a faca do agressor durante uma luta corporal. O suspeito, um morador de rua de 42 anos, foi preso horas depois, e a polícia investiga se ele pode ter cometido outros crimes sexuais na região.
Casos como esse ilustram algo que os números do Disque 100 só sugerem de longe: a orientação afetivo-sexual das vítimas não é um detalhe incidental nesses crimes. É, com frequência, o próprio combustível da violência. O agressor não apenas cometeu um crime sexual: usou deliberadamente o relacionamento das duas jovens como arma psicológica adicional.
Uma dor que não aparece na estatística oficial
Pesquisas sobre saúde mental da população LGBTQIA+ mostram outra face dessa violência, menos visível ainda que os homicídios: jovens rejeitados pela família por sua orientação sexual têm até 8,4 vezes mais chances de tentar suicídio, e lésbicas, gays e bissexuais adolescentes chegam a ter cinco vezes mais chances de tirar a própria vida do que colegas heterossexuais. O próprio Dossiê sobre Lesbocídio, ao incluir o suicídio ao lado do assassinato em sua metodologia, reconhece que a violência letal contra mulheres sáficas nem sempre chega pela mão de outra pessoa: às vezes é o resultado acumulado de anos de rejeição, silenciamento e medo.
O nome que a lei ainda não dá: a luta pelo enfrentamento e a tipificação penal do crime
Se o Brasil não tem uma categoria oficial para o “Lesbocídio”, também não tem, até hoje, uma tipificação penal para ele. O caso que mais aproximou nosso país dessa discussão foi o de Luana Barbosa dos Reis Santos, mulher, negra, lésbica, periférica e mãe, espancada até a morte por policiais militares em Ribeirão Preto (SP), em 13 de abril de 2016. Depois de se recusar a ser revistada por um agente, Luana sofreu traumatismo crânio-encefálico e isquemia cerebral. O caso ganhou repercussão nacional e se tornou símbolo da violência policial racista, sexista e lesbofóbica no país.

Foi em nome de Luana que a então vereadora de São Paulo, Erika Hilton (PSOL) propôs, em 2021, o projeto “Lei Luana Barbosa” (PL0694-2021), projeto municipal que institui o dia 13 de abril como a Data do Enfrentamento ao Lesbocídio, na capital paulista. Uma data simbólica, pensada para dar visibilidade ao problema. De lá pra cá, Erika, hoje deputada federal e presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, segue concentrando seus mandatos em pautas de violência de gênero. Em 2026, por exemplo, ela defendeu a criminalização da misoginia como forma de atacar o que chama de “combustível do feminicídio no Brasil”.
Em outubro de 2024, as deputadas Carla Ayres (PT-SC), Duda Salabert (PDT-MG) e Daiana Santos (PCdoB-RS) apresentaram à Camara dos Deputados o Projeto de Lei 3.983/2024, que busca alterar o Código Penal e incluir o Lesbocídio como qualificadora do homicidio e estupro corretivo lesbofóbico como causa de aumento de pena para o crime de estupro. O texto nasceu de uma audiência pública realizada na Comissão de Legislação Participativa da Câmara, em 29 de agosto de 2024, Dia da Visibilidade Lésbica. O projeto ainda transita sem previsão de votação. Casos como o de Ieda e Fabiana, são exatamente o tipo de crime que a proposta tenta nomear e enquadrar: hoje, mesmo que a motivação lesbofóbica seja comprovada, ela não altera formalmente a tipificação penal do crime (ou seja, tipificar um crime significa dar a ele um nome e uma pena específicos na lei, sem isso; mesmo um crime motivado por ódio pode ser julgado como se fosse um homicídio comum).

Erika Hilton, já manifestou apoio e monitoramento, em suas palavras no X/Twitter:“Estou acionando o Ministério Público de SP para que as mortes de Ieda Simplício e Fabiana Nogueira sejam devidamente investigadas…Estamos falando de um casal de mulheres negras. Não podemos aceitar que a dor dos familiares de Ieda e Fabiana seja secundarizada pelo Estado. É urgente que o poder público se atente às possibilidades de feminicídio, lesbocídio e assassinatos motivados por racismo, que investigue, descubra, julgue e prenda os culpados por esse crime bárbaro”.
O nome que falta
Volta-se, então, a Ieda e Fabiana. A perícia ainda vai determinar a causa das mortes e se o crânio encontrado na mesma cova pertence a uma terceira vítima. Não se sabe, formalmente, se o crime teve motivação lesbofóbica. Mas, é justamente essa incerteza recorrente: a dificuldade estrutural de nomear, investigar e contabilizar quando a vítima é uma mulher sáfica, que pesquisadoras e movimentos lésbicos apontam como o problema em si.
Enquanto o Brasil não tiver um sistema de dados que pergunte, sistematicamente, “essa vítima era lésbica, e isso teve relação com o crime?”, casos como o de São Vicente continuarão sendo tratados como fatos isolados, e não como parte de um padrão que os poucos números disponíveis já mostram, com clareza, que existe. Nomear é o primeiro passo para que a violência contra mulheres sáficas deixe de ser enterrada junto com suas vítimas.
Se você é vítima de violência ou conhece alguém em situação de risco, denúncias podem ser feitas pelo Disque 100 (Direitos Humanos) ou pelo 190 (Polícia Militar), em casos de emergência.