Parte 1 da série da FRT Entertainment troca a dualidade entre boas e más garotas por nuances, segredos e uma montagem que faz a trama dar nó.
Por Carolina Luz Paulo
Num colégio de elite só para meninas, a pureza é política institucional: laço branco no cabelo, gravata borboleta e preta no uniforme, lema de bom comportamento e moralidade na parede. Shades parte desse cenário para mostrar o que acontece quando quem precisa parecer perfeita fica sem espaço para ser qualquer outra coisa.
A série é produzida pela FRT Entertainment, que estreia no gênero com este GL, e tem como uma das protagonistas a atriz Mook Worranit, também ligada à produtora. A parte 1 tem seis episódios, de um total de doze planejados originalmente, e a segunda parte ainda está por vir. A exibição começou na TV tailandesa, em 18 de abril de 2026, e a versão sem cortes está no YouTube da FRT.
O título também carrega uma pista. Em inglês, shades quer dizer tons, matizes e nuances, e, também: sombras. Em tailandês, o nome da série parece brincar com a palavra que designa a criança comportada, trocando o final por um som que remete a “má”. Boa menina e má menina no mesmo nome: é exatamente a ideia que a série quer desmontar.
Obras ainda em andamento pedem cautela. Elementos que causam estranhamento no começo, como uma personagem pouco desenvolvida ou uma escolha de roteiro frágil, podem fazer sentido mais adiante e mudar completamente a leitura. É o que costuma acontecer em narrativas bem construídas, e vale também para produções que seguem no ar, como Third Person. Em Shades, o cuidado é maior: os seis episódios formam a primeira metade de uma história planejada em doze. Esta crítica trata, portanto, do que foi produzido, e não de um veredito sobre a obra completa.
Por isso, a experiência de assistir e acompanhar essa narrativa é um prazer à parte. Então, vale a lembrança do nosso aviso de sempre: a partir daqui o texto revela reviravoltas dos seis episódios.
Um episódio para cada nó: laços, entrelaçamentos e nuances
Outro recado importante: a série aborda bullying, aliciamento de aluna por uma professora, violência física, autoagressão usada como chantagem emocional e consumo de álcool por alunas, dentre outras situações, podendo gerar gatilhos em alguns telespectadores.
A parte 1 se organiza como uma sequência de episódios-perfil. O ep. 1 apresenta a Jane, o 2 a Earn, o 3 a Belle, o 4 a dupla Sophie e Amy, o 5 a Nano e o 6 a professora Nalin. Cada um aprofunda uma personagem, mas também, deixa pistas sobre as outras. Vale a distinção: não se trata de ver a história pelo olhar de cada uma, e sim de um foco narrativo que muda de lugar a cada episódio.
O ep. 1 funciona como porta de entrada porque a Jane é a aluna nova. Ela não conhece ninguém, e o público também não. Quem assiste se perde junto com a personagem, num recurso conhecido como personagem-substituta do espectador (audience surrogate). A confusão inicial deixa de ser defeito e vira escolha narrativa. O risco do formato é a dispersão. São sete protagonistas e cerca de cinco coadjuvantes, e nos primeiros episódios as linhas quase não se cruzam. A série resolve isso com paciência: as histórias vão se aproximando até convergirem na festa da professora Nalin, entre os eps. 5 e 6, quando praticamente todas as personagens principais ocupam o mesmo espaço.
O símbolo mais forte da série cabe numa cena do ep. 1. A Professora Nalin troca o laço marrom, da cor do cabelo da Jane, por um laço branco. A pureza, ali, não nasce nas alunas: é vestida nelas. A cena também funciona como argumento de roteiro, já que a aluna nova só se encaixa porque alguém a enquadra.

A gravata borboleta preta, perto do pescoço e do coração, forma o par desse gesto. Na cabeça, o branco que a escola exige. No peito, o escuro que fica guardado. A leitura ganha força quando a Amy tira a gravata numa cena de amor com a Sophie, um gesto de desamarrar ligado à intimidade. Uma frase da divulgação da série resume a ideia: amarradas de branco, desamarradas pelos próprios tons.
Em português, “laços” também são os vínculos afetivos, e é aí que a imagem se completa. As personagens vão se entrelaçando até a trama dar nó. A dramaturgia clássica tem um nome para isso: nó e desenlace, termos que vêm da Poética, de Aristóteles. Quando o nó aperta demais, só há dois caminhos, desatar ou romper.
Linguagem visual: composição, montagem e cor
Para quem valoriza enquadramentos e cinematografia, essa série toma um extremo cuidado. No ep. 1, a reunião do conselho é filmada de cima, em plongée, num espaço circular que lembra uma arena, e os grupos ocupam o círculo como num tabuleiro. Essa dinâmica de poder vai permear a relação de uma das pessoas mais odiosas do GL com todo o grupo, durante toda a série: a Shisha. Ou seja, a marcação de cena já diz sobre poder antes de qualquer fala.

Outro momento que chama atenção é um dos primeiros quadros, em que a professora e a madre aparecem centralizadas, com os dizeres de “bom comportamento e moralidade” escritos em tailandês na parede, complementando o diálogo sobre o propósito da escola. Essa centralização opressiva é frequentemente aliada ao uso de linhas guias, como as fortes diagonais de uma arquibancada a convergirem numa personagem, e a uma profundidade de campo rasa, em que o fundo desfocado (bokeh) isola as jovens no espaço, focando a nossa atenção puramente nas suas microexpressões e no isolamento que sentem.

A paleta é viva sem ser saturada: nem quente demais, nem fria demais, longe do visual de filtro. As cores seguem o momento da cena, e a fotografia parece natural. Existe, no entanto, um contraste visual intencional: o quotidiano escolar e as dinâmicas de controle adotam uma paleta mais fria e pastel, com azuis e brancos que simulam uma pretensa pureza. Em oposição, quando a narrativa adentra o espaço da intimidade, a paleta aquece com tons terrosos e dourados, tirando partido da contraluz para criar silhuetas românticas e dramáticas, como a luz quente que se infiltra pelas persianas na cena entre Sophie e Amy.

A trilha acompanha com emoção, e a série encerra os episódios com música que completa o que a narrativa visualmente já nos disse. Mas é a montagem é o ponto mais alto. No ep. 4, a Earn e a Belle estudam francês lendo um trecho de O Pequeno Príncipe enquanto imagens da relação de Sophie e Amy se sobrepõem ao diálogo. O príncipe tenta cuidar da rosa e descobre que o zelo não a protege de verdade. A leitura que se oferece: o príncipe é a Amy, e a rosa é a perfeição que a Sophie carrega. No ep. 5, o recurso volta na epifania da Earn, e a rosa reaparece, agora de pelúcia, na cena final. É plantar e colher feito com imagem.
O ep. 6 fecha o ciclo com uma estrutura em moldura. A Nalin repete a frase da madre do ep. 1, sobre ensinar as alunas a serem jovens educadas, moral e eticamente, enquanto imagens do futuro das alunas se sobrepõem à fala. O que se vê não é positivo, o que dá ao desenlace dos nós criados até ali um tom de ameaça. As cenas íntimas seguem a mesma lógica primorosa de sugestão, intimidade e uma naturalidade que surpreende por sua coreografia. O ep. 1 sugere na penumbra, com o explícito ficando nos objetos: peça íntima em foco, contando com ousadia uma história. Já o ep. 6 sugere de novo, com direção de arte intimista e fotografia que soam verdadeiras.
Roteiro: nada é o que parece
Essa é uma série que adora virar a expectativa. A Nalin chega como uma professora altruísta, em busca de dinheiro para o tratamento da mãe. Mais tarde, descobre-se que é espiã da madre e se aproxima das alunas para tirar delas os segredos. Quando o público acredita que ela denunciou o namoro de Sophie e Amy, o roteiro desmente: a denúncia era a de uma relação entre um professor e uma aluna, uma falsa pista que redesenha a personagem. No ep. 6, o passado dela volta em flashback, e a ex-colega de turma reaparece como a orientadora que vai avaliar se a escola deve ser fechada. A coincidência de a ex da Nalin ser justo quem chega para inspecionar a escola é grande. Ainda assim, ela agrava o problema da personagem em vez de resolvê-lo, e é esse tipo de coincidência que costuma funcionar.
A Nano segue o mesmo caminho. Surge como abelha-rainha, egoísta, que pede dinheiro e não paga, até se revelar que parte desse dinheiro vai para gatos de rua. No ep. 5, a série explica a origem: uma garota comum que se cansou de ser comum e aprendeu que, para ser especial, precisava pagar um alto preço: literalmente. A pista estava plantada desde o ep. 1, quando ela impede uma colega de rasgar o caderno da Jane. O roteiro não desfaz a personagem, complica: ela é generosa e endividada, vaidosa e verdadeira.

As sete protagonistas são carismáticas, e as atuações sobem de tom nos momentos que pedem, sem cair na caricatura. A série trabalha com nuance, e não com a dualidade entre bem e mal. Há pessoas já muito danificadas, como a mãe da Sophie, cuja violência vira chantagem emocional, e a professora Som, que se aproxima das alunas como predadora. Não são vilãs de papel: são o limite do que o ambiente faz com as pessoas.
A Som também funciona como espelho da Nalin. A relação da Nalin com a Belle é tênue, o que nos leva a temer o tempo todo que descambe. A professora acaba pondo um ponto final ao dizer que a relação é de irmãs. Há uma ressalva a fazer: num ambiente escolar, e dada a dinâmica de poder, a distância entre professora e aluna não é opcional. Como recurso narrativo, porém, a ambiguidade faz o roteiro mostrar que a Nalin é falível, longe de pura, mas também longe de ser só vilã.
Os destaques ficam com a Sophie, cuja história no ep. 4 é uma das melhores da parte 1, e com a entrega das atrizes da Sophie e da Amy. A narrativa da Nano guarda a maior expectativa para o futuro, e a Belle, com o cobertor ligado à rebeldia contra espaços pré-determinados e moralistas (nesse caso falso moralistas), é a prova de que um objeto pode carregar uma personagem inteira.

Aqui, a câmera isola Belle de forma centralizada e apática, segurando um cartaz com a palavra “WEIRD” (Estranha), provando que os seus adereços funcionam visualmente como um escudo deliberado contra as imposições morais daquela escola.
Camadas: beleza, família e desejo
A série tem várias camadas. Uma delas é a beleza, com tratamento estético e dívidas, em uma Tailândia onde os padrões são rígidos e muitas vezes alcançados com procedimentos e intervenções cirúrgicas. Outra é a obediência dos filhos à família e aos mais velhos, que atravessa quase todas as histórias. E há o recorte sáfico: a mãe da Jane mantém um relacionamento com outra mulher, e o rancor do pai aparece como consequência.
O roteiro também aborda classe social, mostrando personagens que querem ascender socialmente e que precisam levantar dinheiro, como a Earn. A pobreza aparece mais arrumada do que em outras obras sobre o tema, como o filme tailandês Flat Girls, em que sujeira e beleza convivem, e como a série Friendly Rivalry. Mas a escolha combina com um colégio de prestígio e com a proposta visual.
E já que lembramos de Friendly Rivalry, é preciso destacar as similaridades entre as duas obras, com a mesma proposta de olhar para o que fica por trás da fachada. As semelhanças vão da abertura em tela escura, com letras que lembram giz de cera, à estrutura de contar a história de cada protagonista, a personagens moralmente falíveis sem serem vilãs, a uma música potente no fim dos episódios e a fotografia e atuações caprichadas.
O que Shades faz de melhor está em outro lugar: o número maior de protagonistas e de núcleos, e a habilidade de entrelaçá-los. A sensação de laços, nuances e nós que se embaraçam até virar trama é construída com cuidado, com composição de cena precisa e uma paleta que acompanha o que as personagens vivem.
O que esperar da parte 2?
Sem a segunda parte, não dá para dizer que Shades é perfeita. Dá para dizer que é muito bem executada. O nó foi apertado até o limite: o vídeo viralizado, a ameaça de fechamento, a Sophie sem o posto de presidente, a Nano com as dívidas expostas, a Nalin diante do próprio passado. O que vem depois é desenlace ou rompimento? Algumas personagens podem sair quebradas, mas a expectativa é que saiam com superação!
No fim, o trocadilho do título volta. Nem toda criança comportada é pura, nem toda “má” é má, e quem passa a vida em tons de cinza costuma ser a mais verdadeira. A pergunta que fica para a parte 2 é quem vai conseguir desatar o próprio laço. E sobreviver a ele?