A invisibilidade de artistas lésbicas e bissexuais na indústria audiovisual

Colunas Crítica Entretenimento Girls Love

Enquanto produções sáficas se multiplicam, atrizes que vivem abertamente suas identidades ainda enfrentam invisibilidade e menos oportunidades na carreira

Por Laura Magro

Não é novidade para ninguém que, nos últimos tempos, mais conteúdos lésbicos têm sido produzidos, especialmente na Tailândia, o que poderia nos indicar uma preocupação da indústria em finalmente enxergar uma comunidade que passou anos invisível nas mídias. Mas será que realmente estão preocupados com lésbicas, bissexuais, sáficas e a comunidade LGBTQ+ no geral? Ou apenas com o lucro que ela gera? 

Uma atriz interpretando uma personagem lésbica e assumindo publicamente ser lésbica deveria ser algo positivo. Afinal, se a indústria investe em histórias sáficas, seria razoável esperar que acolhesse profissionais que fazem parte dessa mesma comunidade. No entanto, a experiência de Yada Narilya parece apontar para outra direção. 

A atriz recentemente estrelou o GL Play Park ao lado de Tan Duangkaew, que foi um sucesso de audiência na TV aberta tailandesa. Yada atua há mais de 10 anos, tendo tido seu primeiro trabalho em 2014 e, desde então, já atuou em diversos projetos, inclusive um filme cotado ao Oscar e uma série da Netflix. Assinou com a Channel 3 em 2022, onde fez dois dramas héteros. Uma atriz consolidada que teve um boom ainda maior a partir de 2024, com um notável crescimento nas redes sociais, ganhando mais de 1,5 milhão de seguidores em pouco mais de um ano.

Até que veio o anúncio de que ela protagonizaria seu primeiro drama Girls Love. Por si só, isso não deveria representar qualquer problema para sua carreira — muito pelo contrário. Na Tailândia, o mercado de GLs está em expansão e se tornou um dos segmentos mais desejados por atrizes devido à sua popularidade e alcance. O “problema” surgiu pouco depois: em uma entrevista para um canal de TV, Yada falou abertamente sobre sua sexualidade e se assumiu publicamente. 

Tan e Yada na série girls love Play Park | Reprodução/CH3

Em entrevista ao Lesbocine, Yada revelou que não planejava falar publicamente sobre sua sexualidade naquele momento. No entanto, ao ser questionada sobre sua vida amorosa durante uma entrevista para um canal de TV, decidiu responder com honestidade, apesar do nervosismo. A atriz também contou que ficou apreensiva após a declaração, já que o programa era ao vivo e ela não sabia qual seria a reação do público. 

Desde que falou abertamente sobre sua sexualidade, a atriz perdeu mais de 200 mil seguidores nas redes sociais. Além disso, sua presença em ações e eventos da emissora passou a ser cada vez mais rara. Até que, recentemente, a Channel 3 anunciou que Yada e Tan decidiram encerrar seu relacionamento profissional em comum acordo. Embora seja impossível afirmar que existe uma relação direta entre esses acontecimentos, a sequência dos fatos inevitavelmente levanta questionamentos. Por que uma indústria que lucra com histórias lésbicas parece tão desconfortável quando uma de suas atrizes vive essa realidade fora das telas? 

Yada fala pela primeira vez sobre sua sexualidade em programa de TV | Reprodução

Yada não é um caso isolado. Miusic Preawa, protagonista de Runaway, também fala abertamente sobre sua sexualidade e sobre seu relacionamento com outra mulher, preservando apenas a identidade da parceira, que não é uma figura pública. Recentemente, durante uma live, Miusic afirmou não ter interesse em atuar novamente em uma série GL.

A declaração chama atenção justamente porque parte de alguém que faz parte da comunidade retratada por essas produções. O que leva uma atriz lésbica a não querer continuar trabalhando em um gênero que a representa? A resposta pode estar menos na falta de interesse pelas histórias e mais na forma como a indústria trata artistas que deixam de ser apenas intérpretes e passam a representar publicamente aquilo que vivem.

Aqui no Brasil também encontramos casos que levantam questionamentos semelhantes. Vitória Strada, abertamente bissexual, passou anos sem protagonizar grandes projetos após assumir seu relacionamento com Marcella Rica, mesmo sendo uma atriz consolidada e protagonista de diversas produções. Sua volta ao centro dos holofotes aconteceu após o Big Brother Brasil 2025, quando o relacionamento já havia chegado ao fim e Vitória estava em um relacionamento com um homem.

Vitória Strada e Marcella Rica quando assumiram namoro em 2019 | Reprodução

Outro exemplo é Maria Casadevall. Com uma filmografia de destaque na televisão brasileira, a atriz se assumiu lésbica em 2021 e, pouco depois, se afastou da mídia e da carreira de atriz. Anos depois, em entrevista ao O Globo, falou sobre como esse período foi importante para compreender sua sexualidade e enxergar a violência do sistema patriarcal em que vivemos. Mais uma vez fica a pergunta: o que faz uma atriz querer se afastar da profissão que ama depois de assumir publicamente quem é?

A verdade é que a indústria pouco se importa genuinamente com nossa comunidade, nossas vivências ou nossas pautas. Eles — e quando digo “eles”, me refiro às empresas e empresários que lucram com essas produções — querem nosso dinheiro e nosso engajamento, mas não querem realmente nos enxergar. Fanservice, casais idealizados e marketing voltado para o público sáfico são bem-vindos porque geram lucro sem desafiar a audiência mais conservadora. O problema surge quando uma artista deixa de ser uma fantasia conveniente e passa a ser uma pessoa real, vivendo abertamente sua sexualidade.

É por isso que o debate sobre atrizes hétero interpretarem personagens lésbicas nunca foi apenas sobre representação. Não se trata de dizer que elas são incapazes de nos representar; afinal, atuar é justamente interpretar realidades diferentes da sua. A questão é outra: enquanto atrizes heterossexuais recebem oportunidades para contar nossas histórias, muitas artistas LGBTQIA+ ainda enfrentam invisibilidade, menos oportunidades e consequências profissionais por viverem sua própria verdade.

Entramos em mais um Mês do Orgulho diante dessa contradição. Nunca houve tantas histórias sáficas sendo produzidas, mas ainda existem artistas que precisam medir as consequências de falar abertamente sobre quem são. Espero que atrizes como Yada e Miusic recebam o apoio que merecem e que, cada vez mais, artistas possam viver sua sexualidade sem que isso represente um risco para suas carreiras.

 

Foto em destaque: Reprodução

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