Dois episódios que aquecem o coração e reforçam a normalização do amor entre mulheres
Por Laura Magro
O especial de Denied Love mostra como está a vida do casal Khem e Rin após o final do último episódio da série. Agora, vemos as duas construindo uma família e vivendo um amor leve, genuíno e cheio de cumplicidade.
Desde a primeira temporada, Denied Love já tinha me chamado atenção por uma premissa nada tradicional: Rin sendo obrigada pelo pai a se casar com Khem — outra mulher. Estamos tão acostumadas com histórias em que mulheres são forçadas a se casar com homens que essa inversão logo se destaca. E se a série já tratava o amor entre mulheres como algo normal (como deve ser), sem transformar o relacionamento em um drama centrado em homofobia, o especial vem para firmar isso ainda mais.
É bonito acompanhar um casal de duas mulheres evoluindo e construindo uma família de forma tão natural e sensível. Logo no início do primeiro episódio, descobrimos que Rin está grávida de gêmeos: o casal opta pelo método de fertilização in vitro e utiliza óvulos de Khem — prática comum entre muitos casais lésbicos na vida real (inclusive a cantora Ludmilla). A ideia de que ambas as mães “participam” da gestação é tratada com carinho e sem didatismo excessivo. Ver as fases da gravidez, o nascimento e o crescimento das crianças, além da parceria cotidiana entre Khem e Rin, deixa o coração quentinho.

Um dos pontos mais altos do especial é a evolução da personagem de Rin. Se antes ela era arisca e defensiva, enquanto Khem era sempre amorosa e melosa, agora Rin parece finalmente ter se entregue ao amor pela esposa. Nestes dois episódios, vemos uma Rin mais carinhosa, sorridente, brincalhona e, inclusive, mais segura de seus desejos. Ela, que sempre reclamou estar “velha demais” para acompanhar o ritmo sexual de Khem, agora é quem toma atitudes e inicia momentos íntimos entre as duas.
E se esse especial funciona tão bem em aquecer o coração, muito disso vem das atuações. June, como Rin, tem um papel fundamental na construção dessa nova fase da personagem: ela consegue transmitir com naturalidade o amadurecimento emocional e a forma como Rin finalmente se permite viver o amor sem defesas. Já Enjoy, interpretando Khem, mantém o charme e o romantismo que fazem a personagem ser tão querida, mas adiciona uma camada de maturidade. O resultado é que, juntas, as duas não só sustentam a evolução das personagens individualmente, como também deixam evidente o crescimento do casal. Agora que estão entregues e vivendo juntas esse amor lindo, a química entre elas parece ainda maior do que na série principal.

Por outro lado, o especial passa rápido demais: em certos momentos, senti falta de ver as fases dessa nova etapa com mais profundidade e desenvolvimento. Mas isso é compreensível, já que são apenas dois episódios. No fim, ele cumpre bem o seu papel: matar a saudade do casal, manter a essência da história — inclusive com seus diálogos muitas vezes absurdos (mas que rendem boas risadas) — e ainda entregar uma representatividade que conversa diretamente com a realidade de mulheres lésbicas e bissexuais.
Porque, no fim das contas, é exatamente isso que queremos: poder viver nosso amor livremente, sem amarras impostas pela sociedade, e construir uma família sem que o preconceito do outro interfira no que é nosso.
Foto em destaque: Reprodução/WeTV