Crítica | Entre cicatrizes e afetos: a densidade de Hal & Harper

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Com atuações precisas e estética sensível, a série confirma a força de narrativas íntimas no audiovisual atual

por Rayanne Tovar

O que dizer de uma série que coloca Lili Reinhart (Riverdale) e Alyah Chanelle Scott (The Sex Lives of College Girls) como casal? Pois é, essas duas atrizes queridinhas da geração Z atuam juntas em “Hal & Harper” e posso afirmar sem medo: as duas entregam facetas que ainda não tínhamos visto nelas.

“Hal & Harper” é tudo, menos uma comédia. Apesar de alguns portais terem divulgado no começo do ano que a série seguiria por esse caminho, o que temos aqui é um drama familiar daqueles que te puxam pra dentro. A história é tão real que, em alguns momentos, parece que você está ali, dentro daquela casa, sentindo todos aqueles sentimentos junto da família.

Lili e Alyah entragam uma conexão poderosa entre suas personagens Harper e Jess / Foto: Reprodução: “Hal & Harper”

A trama acompanha os irmãos Hal (Cooper Raiff) e Harper (Lili Reinhart), que carregam as marcas da perda da mãe quando ainda eram muito novos. O pai, vivido por Mark Ruffalo, mergulha numa depressão profunda e, sem conseguir dar conta de si mesmo, acaba forçando Harper a crescer antes da hora. É ela quem segura as pontas pelo irmão, criando uma relação de dependência que começa na infância e molda a vida dos dois até a fase adulta.

“Hal & Harper” te conquista em meio a um drama familiar do mais real possível / Foto: Divulgação: “Hal & Harper”

Um ponto alto que precisa ser destacado é o trabalho de Cooper Raiff. Além de interpretar Hal, ele também é o criador, roteirista, diretor e showrunner da série. E olha, o cara entrega tudo: sensibilidade, originalidade e coragem para brincar com a narrativa de um jeito que faz toda a diferença.

Prova disso é um detalhe muito marcante: as cenas de infância dos irmãos são interpretadas pelos próprios atores adultos. Ou seja, quando Hal e Harper estão brincando na escola ou cantando no coral, são os mesmos rostos adultos que a gente vê carregando essas memórias. É um recurso que, além de curioso, reforça como o passado ainda pesa no presente deles e que eles foram forçados a crescerem tão rápidos, que mesmo crianças, já sentem esse fardo.

Todos os momentos de vida que vemos em tela dos personagens Hal e Harper, sejam na fase adulta ou mesmo como crianças, são interpretados por Cooper Raiff e Lili Reinhart / Foto: Reprodução: “Hal & Harper”

E onde entra o enredo sáfico nisso tudo? Vem pela vida pessoal de Harper. Logo no começo, ela está em um relacionamento de seis anos com Jess (Alyah Chanelle Scott). Esse namoro chega ao fim nos primeiros episódios, mas a conexão entre elas ainda rende algumas boas cenas. Depois, Harper se envolve com Audrey (Addison Timlin), sua colega de trabalho. Não é um romance cheio de grandes declarações, mas a série trata tudo com cuidado, sem cair em clichê nem fetichização, mostrando que a sexualidade de Harper é só mais uma camada dela, sem estereótipos.

Outro destaque do elenco é Havana Liu, conhecida pelo filme sáfico Bottoms. Em Hal & Harper, ela interpreta Abby, que vive uma relação conturbada com Hal. Apesar de não nos entregar um papel sáfico desta vez, é sempre um prazer vê-la em cena.

Elenco de “Hal & Harper” no Sundance Studio para o Festival Sundance em janeiro deste ano / Foto: Reprodução: Deadline

“Hal & Harper” estreou no Festival de Sundance em janeiro de 2025, mas ainda não foi lançada oficialmente. Já existe uma página no Mubi, com informações de elenco e sinopse, então fica a torcida para que a estreia não demore.

Para quem curte drama familiar, na linha de “Shameless” (mas sem a parte cômica) ou “This Is Us”, essa é uma aposta certeira. É real, denso e impossível de sair ileso.

No fim das contas, “Hal & Harper” não é apenas uma série sobre traumas familiares, mas sobre como carregamos essas cicatrizes na vida adulta e tentamos nos reinventar apesar delas e com elas. É uma obra que deixa marcas, assim como seus personagens e talvez seja exatamente por isso que ela funcione tão bem.

Foto em destaque: Reprodução: “Hal & Harper”

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