Sáficas trambiqueiras no topo! Dom de Iludir, protagonizada por Alice Wegmann e Nanda Costa, alcança o Top 1 da Netflix no Brasil com dez episódios que deixam expectativas para uma segunda temporada.
Por Dany Oliveira
É comum que fãs de produções sáficas ocidentais estejam traumatizadas com a quantidade de conteúdo em que os romances não são devidamente desenvolvidos, ou em que as personagens acabam morrendo. Uma boa notícia é que esse não é um problema de Dom de Iludir, uma série da Netflix em parceria com a Conspiração Filmes.
O que nos convida a assistir à série, além das brilhantes atuações de Nanda Costa e Alice Wegmann, é, sem dúvidas, a maneira como os dramas do cotidiano são retratados sem que a sexualidade das protagonistas seja o conflito central da narrativa. Esse fator ajuda a naturalizar as relações LGBTQIAPN+ e a alcançar também pessoas que não fazem parte da comunidade, mostrando como essas relações são tão naturais quanto quaisquer outras.
As chamadas “Sapatonas Trambiqueiras”, portanto, demonstram que personagens lésbicas ou bissexuais possuem particularidades psicológicas, sociais e econômicas que merecem ser exploradas para além de suas próprias sexualidades.
Dom de Iludir cumpre muito bem esse papel e ainda leva diversão, suspense, surpresa, sensualidade e leveza para as telinhas do Brasil e do mundo.
Sucesso nacional e internacional
Todos os episódios de Dom de Iludir foram lançados no mesmo dia, facilitando a vida de quem gosta de maratonar uma série inteira de uma vez. Com um elenco de peso e grandes nomes do audiovisual brasileiro, a produção rapidamente despertou o interesse do público.
Em sua primeira semana na plataforma, a trama alcançou o primeiro lugar entre as séries mais assistidas da Netflix no Brasil, segundo o ranking semanal divulgado pela própria empresa.
A repercussão, no entanto, não ficou restrita ao país. Dom de Iludir também entrou no Top 10 da Netflix em outros territórios, como Argentina, Chile e Uruguai. Além disso, dados do Google Trends apontaram um crescimento de até 5.000% nas buscas relacionadas à produção e às atrizes Nanda Costta, Alice Wegmann e Marieta Severo. Na Espanha, o pico de interesse aconteceu em 1º de novembro.
Sem spoilers, apenas um adiantamento!

O melodrama acompanha as famílias Rossetti e Petrov. De um lado, temos Maíra Rossetti (Alice Wegmann) e Lúcia Rossetti (Marieta Severo), mãe e filha que fazem parte da burguesia carioca e vivem cercadas por uma coleção de obras de arte. Do outro, está a família Petrov, composta por Irina (Nanda Costta), Bóris (José de Abreu) e Bárbara (Luciana Paes), que se envolve em um esquema para tomar as obras e se apropriar do patrimônio dos Rossetti. Duas famílias economicamente distintas, mas que compartilham um interesse em comum: o controle. Uma verdadeira luta de classes sáfica.
Lúcia Rossetti, mãe de Maíra, controla a vida da filha, que busca, por meio da independência econômica, se afastar das amarras maternas. A história começa a se desenrolar quando Maíra conhece Irina e as duas se aproximam em meio a um plano para negociar as obras de arte que representam o maior patrimônio da família Rossetti.
O casal se envolve com Bóris, Bárbara e Nilo (Rui Ricardo Diaz) para colocar o plano em prática. O fascínio de Lúcia pela obra de Cândido Portinari, Mulher com Filho Morto, também ajuda a conduzir os acontecimentos e acrescenta uma camada artística à trama.
Maíra ainda não sabe que também faz parte de um plano que envolve enganá-la e tomar o dinheiro da família. Irina, por sua vez, tampouco imaginava que acabaria se apaixonando pela herdeira de boa parte do patrimônio dos Rossetti. A paixão foge do roteiro inicialmente previsto e transforma uma relação que começa por interesse em algo inesperado: duas pessoas de mundos diferentes que se aproximam por acaso e acabam encontrando uma na outra motivos para permanecer.
O romance é um dos eixos da narrativa, mas a série não reduz a trajetória das protagonistas à relação entre elas. A produção também acompanha a experiência individual de cada uma, seus conflitos e as escolhas que precisam fazer para tentar ficar juntas.
Mas outras questões entram em cena. Não se trata apenas de um casal tentando fugir juntas. Maíra possui uma forte ligação com a mãe, apesar dos conflitos e das questões problemáticas entre elas. Irina, por sua vez, tem duas filhas e vive dilemas éticos ao tentar proporcionar uma vida melhor à mais nova, na tentativa de reparar os danos que pensa ter causado à primogênita, Natália (Giovanna de Jesus). A série, portanto, também retrata a realidade brasileira por meio da arte ao apresentar diferentes camadas sociais que atravessam o cotidiano das personagens.
A sexualidade não é um problema!
Talvez o ponto mais alto da série seja a representatividade construída a partir da própria apresentação das personagens. Maíra e Irina são mulheres sáficas que possuem problemas que vão muito além de se assumir ou enfrentar a exclusão social por conta da própria sexualidade. Elas vivem o romance naturalmente – como deve ser – sem que suas relações afetivas sejam tratadas pelas famílias como um tabu.
Além disso, Nanda Costa e Alice Wegmann protagonizam um romance único, com uma pegada bastante sensual. É possível sentir a tensão entre as personagens em diferentes momentos, desde as cenas mais tensas até as mais íntimas. A química entre Maíra e Irina funciona como uma espécie de fuga das questões que as cercam. Quando fecham as portas, sobem no telhado ou fogem juntas, demonstram que, apesar do caos lá fora, elas tinham uma à outra. Ainda que não soubessem por quanto tempo.

Essa naturalidade com que a relação foi construída também nos leva a uma percepção inevitável: relações humanas têm problemas. São atravessadas por mágoas, medo, rancor, amor e ódio. São sentimentos com os quais ambas precisam lidar no desfecho da primeira temporada. Mas, até ali, uma barreira foi quebrada: relações entre mulheres no audiovisual podem explorar questões que vão muito além da própria sexualidade.
O que nos leva a acreditar que Irina e Maíra merecem uma segunda chance. E, principalmente, uma segunda temporada.