Por Domi Ellis
A primeira temporada de Dom de Iludir, a nova série da Netflix, estreia hoje com seus 10 episódios, lançados de uma vez na plataforma. Em um momento em que nossa indústria cinematográfica está só crescendo, a obra do streaming com a Conspiração Filmes demonstra muita qualidade em seu roteiro, direção e cinematografia. O melodrama nacional conta a história de um golpe multimilionário de roubo de quadros através de várias perspectivas, em que o público precisa decidir quem realmente são as vítimas na história.
É impossível não mencionar a importância de termos um casal sáfico como protagonistas dessa produção. Dom de Iludir é uma série que constantemente faz o telespectador pensar sobre o certo e o errado, abrangendo tópicos e relacionamentos com bases (extremamente) problemáticas, mas de forma muito interessante. Em suma, é uma história sobre problemas familiares e ciclos viciosos de relacionamentos, que aborda diversas dinâmicas de família de uma forma autêntica.
O roteiro, escrito por Mirna Nogueira e Diane Maia, é diferenciado e impecável no quesito plot twists; por isso, quanto menos o telespectador souber sobre a série, mais legal vai ser a experiência. O público não tem ideia do que está por vir; e a imprevisibilidade do roteiro e a curiosidade de ver onde essa série vai, bem como os limites de cada personagem, funcionam muito bem para qualquer fã de mistério. Por ser uma série dramática, há algumas cenas que dão uma sensaão de “novela”, com uma trilha sonora e falas hiper dramáticas; mas, no geral, a série tenta se distanciar desse aspecto, sendo mais pé no chão. Além disso, o roteiro tem uma pegada à la Kaleidoscope (2023) lá pela metade da temporada, usando flashbacks de forma bem comovente, vendo momentos do passado desses personagens que normalmente não teríamos a chance de ver. Por ser uma produção cujos personagens são tão bem desenvolvidos, gostaria de ter visto até mais dessa conexão com o passado, pois ele nos ajuda a entender melhor as motivações de cada um.
Como carioca, é impossível não se apaixonar pela cinematografia da série, que mostra a diversidade da cidade, das praias às montanhas. É uma série que tem toda a chance de ser um sucesso na gringa, pois é impossível não se apaixonar pelo Brasil ao ter a chance de observá-lo pelas lentes do diretor, Mauro Mendonça Filho. A cenografia da série é muito bem elaborada, e a casa da família com todos os quadros e histórias é quase um personagem da série.
Também é importante destacar o elenco inacreditável dessa produção, liderado por Marieta Severo, que constrói um papel extremamente genuíno de mãe controladora; constantemente discutindo a linha entre o certo e o errado, entre a preocupação e a paranoia. O elenco também conta com a Alice Wegmann e a Nanda Costa, que estão perfeitas em sua caracterização: é difícil falar sobre atuação das duas sem dar spoilers sobre o rumo da série, mas Alice está impecável em seu papel de patricinha, e Nanda não poderia estar mais cativante em seu papel de sedutora (sim, me apaixonei).
E obviamente, se o Lesbocine está fazendo uma crítica da série é porque tem sapatão se pegando, sim! Sem dar spoilers, vale adiantar que é um casal com uma química absurda e uma história muito interessante; e as personagens não demoram muito para ficar juntas. Por mais que não seja uma série que conversa muito sobre a experiência sáfica/LGBTQ+, o relacionamento das duas é uma parte muito importante da premissa dessa produção. Muitas vezes, histórias sáficas na indústria cinematográfica são tratadas com menos destaque e intimidade, então é muito importante que este casal exista como qualquer outro casal heterossexuaal da trama, e não de forma superficial.
Vale destacar que Maíra e Irina (personagens de Alice Wegmann e Nanda Costa, respectivamente) não são um casal convencional, e que o relacionamento das duas é problemático de diversas maneiras: a relação entre elas esconde muitas mentiras e segredos; porém, apesar de não ser um casal que vá agradar a todo o público, eu achei a química das duas excepcional.
Para mim, valeu a pena ter assistido a série apesar de seu final, como sempre, desapontante. Qualquer mulher sáfica sabe que, infelizmente, o desfecho de histórias lésbicas em grande parte das produções audiovisuais tende a ser negativo. Dom de Iludir teve uma chance de terminar esse romance de forma mais positiva, mas infelizmente, as lésbicas acabam em sofrimento, desfecho que, apesar de já ser de praxe, nunca devemos normalizar. De certa forma, o casal me lembra a dinâmica de Margo e Sophie na série The Hunting Wives (2025): afinal, elas são um bom casal? Elas se amam? A influência delas uma na outra é boa? Ou ainda… elas são boas pessoas?
Acredito que a série perdeu um pouco a linha na metade da temporada, pois houve algumas decisões incoerentes, e alguns personagens (como o de Marieta Severo) ficaram muito repetitivos. Somado a isso, a série não deu consequências suficientes para seguir os episódios mais dramáticos do meio da temporada. Apesar da trama ter os seus arcos mais emocionais e tristes, muitas vezes esses momentos acabavam rápido demais, considerando a severidade dos assuntos que estavam sendo tratados.
Em suma, as questões que a série aborda, especialmente quando se trata do relacionamento entre pais e filhos, são feitas de forma muito genuína, e às vezes real até demais, o que faz com que seja uma série interessante para todos. Eu recomendo muitíssimo a produção para qualquer pessoa que goste do filme Eu Me Importo (2021), com Rosamund Pike e Eiza González, pois traz uma vibe parecida em relação aos temas de manipulação. Apesar de seus problemas, é uma série que constantemente prende sua atenção e subverte expectativas, além de ter um casal sáfico completamente problemático pelo qual me apaixonei; então fica a dica de que vale maratonar!
Imagem em destaque: Divulgação/Netflix.