De Day Limns e Melly a Demi Lovato, Carol Biazin, Lola Young e Halsey, artistas lésbicas e bissexuais ocuparam diferentes palcos da Cidade do Rock e protagonizaram alguns dos momentos mais marcantes da edição
Por Laura Magro
Há uma semana, o Rock in Rio 2026 encerrava sete dias de shows na Cidade do Rock. Entre chuva, grandes encontros musicais e estreias aguardadas, a edição reuniu nove artistas lésbicas e bissexuais destacadas pelo Lesbocine desde o anúncio da programação: Demi Lovato, Halsey, Lola Young, Carol Biazin, Daniela Mercury, Day Limns, Nanda Tsunami, Melly e Lucy Alves.
Espalhadas entre o Palco Mundo, o Sunset, o Supernova e o Global Village, elas atravessaram o pop, o rock, o rap, o R&B, o axé e o forró. Algumas chegaram como convidadas, outras estrearam no festival e três delas ocuparam o maior palco da Cidade do Rock. Uma semana depois, o Lesbocine relembra os momentos que fizeram desta uma edição especialmente marcante para o público sáfico.
Day Limns abre os caminhos ao lado da Malvada
Entre os nove nomes destacados pelo Lesbocine, a retrospectiva começa no sábado, 5 de setembro, quando Day Limns participou do show da Malvada no Palco Sunset. O encontro reuniu a cantora a uma banda formada apenas por mulheres e reforçou a presença feminina em um dia dedicado ao rock e ao metal, gêneros nos quais mulheres — especialmente artistas LGBTQIAPN+ — ainda precisam disputar espaço.
Após a apresentação, Day falou sobre a importância de ocupar esses ambientes sendo quem é, e celebrou a liberdade artística de transitar entre diferentes sonoridades. A participação aconteceu em um momento no qual a cantora também apresenta a mixtape Putaria e Poesia, trabalho que amplia suas experiências para além do rock.
Durante a apresentação, as artistas realizaram uma homenagem a Rita Lee, com “Agora Só Falta Você”, que gerou críticas nas redes sociais, principalmente em relação à performance vocal exibida na transmissão. Em entrevista a Samira Sagr, do gshow, Day comentou a repercussão com bom humor e respondeu às comparações com a artista homenageada: “Eu não sou a Rita Lee”. A cantora reconheceu que a apresentação poderia não ter saído como parte do público esperava, sem deixar de demonstrar respeito pela obra de uma das maiores vozes do rock brasileiro.
Melly transforma amor em resistência no Palco Supernova
Dois dias depois, em 7 de setembro, Melly fez sua estreia no Rock in Rio levando ao Supernova a nova fase inaugurada pelo álbum Mais Forte Que a Dúvida. O momento mais simbólico aconteceu durante “ANA”, música dedicada à namorada, Anoka Furtado, que subiu ao palco e beijou a cantora.
O gesto de afeto foi celebrado pelo público presente, mas os vídeos publicados nas redes sociais também receberam comentários homofóbicos. Melly respondeu aos ataques afirmando ser uma “mulher negra orgulhosamente bissexual” e destacou que aquele ato de coragem poderia ser importante para outras pessoas. Assim, uma demonstração íntima de amor se transformou também em um dos momentos de maior representatividade da edição.
Nanda Tsunami leva sua potência ao Supernova
Na sexta-feira, 11 de setembro, Nanda Tsunami assumiu o horário de encerramento do Palco Supernova. Misturando referências de funk, pop, trap e música eletrônica, a rapper levou sua identidade para um dos espaços dedicados à nova geração da música brasileira.
Em uma edição na qual os maiores destaques internacionais daquele dia estavam concentrados no K-pop, a presença de Nanda reforçou a importância de também olhar para artistas brasileiras LGBTQIAPN+ que constroem novas possibilidades dentro da música urbana. Em um palco menor, mas voltado justamente à descoberta e à renovação, ela mostrou por que seu nome tem ganhado cada vez mais força.
Daniela Mercury celebra a Bahia com Gilsons e Olodum

O segundo sábado do festival, 12 de setembro, contou com um encontro especial entre Gilsons, Daniela Mercury e Olodum no Palco Sunset. A apresentação reuniu diferentes gerações da música baiana e transformou o espaço em uma grande celebração do axé e da música negra.
Daniela entrou em cena com sucessos como “Nobre Vagabundo”, “Swing da Cor” e “O Canto da Cidade”. Ao lado do Olodum, o show também passou por “Nossa Gente (Avisa Lá)”, “Várias Queixas” e “Faraó Divindade do Egito”. Mais do que uma participação pontual, a cantora ajudou a construir um dos encontros mais brasileiros da programação, marcado por percussão, memória e pertencimento.
“Cool for the Summer” encerra o show de Demi Lovato
Na mesma noite, Demi Lovato subiu ao Palco Mundo para sua terceira participação no Rock in Rio. Desta vez, apresentou uma fase mais pop e dançante da carreira, ligada ao álbum It’s Not That Deep, sem abandonar músicas que atravessaram diferentes gerações de fãs, como “Heart Attack”, “Confident”, “Skyscraper”, “Stone Cold” e “Sorry Not Sorry”.
O grande momento veio no encerramento. Para “Cool for the Summer”, Demi convidou Pabllo Vittar ao palco, levando o público ao delírio e transformando um de seus maiores hinos bissexuais em uma celebração LGBTQIAPN+ diante da multidão. A parceria entre duas artistas que mantêm uma relação especialmente próxima com o público brasileiro fechou a apresentação com a energia de um encontro que parecia feito para o festival.
Lucy Alves celebra o forró e a cultura nordestina
O último dia também teve Lucy Alves no Global Village. Multi-instrumentista, cantora e atriz, a paraibana apresentou um show pensado especialmente para o festival e dedicado ao forró e às diferentes vertentes da música nordestina.
Em meio aos espetáculos de grandes dimensões dos palcos Mundo e Sunset, a apresentação de Lucy reforçou a diversidade musical da programação e levou ao festival uma identidade construída a partir da sanfona, da tradição e de releituras contemporâneas da cultura nordestina.
Carol Biazin une pop, orquestra e amor entre mulheres
Carol Biazin abriu o Palco Sunset no domingo, 13 de setembro, com um show inédito que misturou dois formatos que a artista vinha apresentando separadamente: a energia de sua banda e a delicadeza dos arranjos de orquestra.
O repertório percorreu o álbum No Escuro, Quem É Você? e o recém-lançado EP assumo os riscos. A escolha de combinar cordas, guitarra, bateria e diferentes referências urbanas traduziu para o palco o mesmo cuidado musical presente em seus trabalhos de estúdio. O resultado foi um espetáculo completo, capaz de passear por gêneros e intensidades sem perder a identidade pop da cantora.
Na plateia, bandeiras lésbicas e cartazes lembravam o significado de ver uma mulher lésbica cantando sobre o amor entre mulheres em um dos maiores festivais de música do mundo, e com transmissão ao vivo para todo o país.
O encerramento com “TE AMO SEM CULPA” tornou essa importância ainda mais evidente. Cantada em coro pelo público, a faixa transformou o Sunset em um espaço de afeto, orgulho e pertencimento.
Lola Young vai além de “Messy” em sua estreia no Brasil
Pouco depois, Lola Young enfrentou a chuva para fazer sua primeira apresentação no Brasil e já diretamente no Palco Mundo. A britânica abriu o show com “Wish You Were Dead” e alternou faixas mais intensas com momentos em que sua voz rouca e interpretação confessional ocuparam o enorme espaço do palco.
Mesmo diante de um público que, em grande parte, a conhecia apenas pelo sucesso viral “Messy”, Lola conquistou quem permaneceu na grade. Ela agradeceu diversas vezes a recepção dos brasileiros e se emocionou durante “Spiders”, uma das performances mais vulneráveis da noite.
Ao falar sobre guerras, a ascensão da inteligência artificial e o momento vivido pelo mundo, a cantora destacou a potência de ainda poder estar ali, conectando-se presencialmente com outras pessoas através da música. Depois de um período de hiato e de cancelamentos para cuidar da saúde, a emoção ganhou ainda mais peso. “Messy”, claro, encerrou a apresentação com o maior coro do show, mas sua estreia deixou evidente que Lola Young é muito maior do que um único hit.
Halsey entrega rock, teatralidade e uma declaração de amor às mulheres
Halsey subiu ao Palco Mundo pouco antes do encerramento do festival e entregou uma das apresentações mais intensas do domingo. Com guitarras pesadas, vocais potentes e uma construção teatral, a artista passeou por diferentes fases da carreira em músicas como “Nightmare”, “Castle”, “I am not a woman, I’m a god”, “You Should Be Sad”, “Colors”, “Gasoline” e “Lonely Is the Muse”.
O show mostrou que sua presença de palco, sua voz e sua banda eram suficientes para conquistar até quem estava na grade principalmente para aguardar o Twenty One Pilots. A energia roqueira chegou a abrir espaço para roda punk no público, enquanto as performances de “Dog Years” e “Gasoline” transformaram o palco em um espetáculo visual.
Halsey também dedicou parte da apresentação a celebrar as mulheres. Em uma fala que arrancou gritos da plateia, afirmou amar ver mulheres tendo sucesso, se divertindo e sendo livres. A declaração preparou o terreno para “Bad at Love”, canção que se tornou um hino para parte de seu público bissexual por narrar relações com homens e mulheres.
Mesmo com a chuva persistente e algumas falhas técnicas percebidas no Palco Mundo e na transmissão, Halsey conduziu o público até o fim com segurança e encerrou com “Lonely Is the Muse”, em uma performance dramática sobre dor, exploração e a relação da artista com a indústria musical.
Um avanço importante — mas ainda há espaço para mais
O Rock in Rio 2026 terminou com artistas sáficas presentes em diferentes dias, gêneros e palcos. O último domingo foi especialmente simbólico: Carol Biazin, Lucy Alves, Lola Young e Halsey estiveram na programação de um mesmo dia, com meninas na plateia levantando bandeiras, cantando músicas sobre outras mulheres e se reconhecendo no que viam diante delas.
Ainda assim, nenhuma mulher ocupou o posto de atração principal do Palco Mundo nesta edição. Até mesmo o domingo marcado pela forte presença feminina foi encerrado por uma banda formada por homens. A representatividade cresceu, mas a programação também mostrou que ainda existe um caminho a percorrer para que mulheres — inclusive lésbicas e bissexuais — sejam reconhecidas não apenas como parte do festival, mas como nomes capazes de liderá-lo.
Uma semana depois, o que permanece é a potência desses encontros e da presença dessas artistas no festival. Do beijo de Melly e Anoka ao coro de “TE AMO SEM CULPA”; da estreia emocionante de Lola Young à declaração de Halsey às mulheres; de Demi encerrando seu show com um hino sáfico à celebração baiana de Daniela Mercury, as artistas lésbicas e bissexuais fizeram muito mais do que passar pela Cidade do Rock: elas deixaram sua marca na história da edição.
Fotos: Reprodução







