As representações sáficas de mulheres 50+ no cotidiano e na cultura pop
Por Carolina Luz Paulo
A cultura pop tratou, por muito tempo, o desejo entre mulheres como coisa de gente jovem: adolescentes se descobrindo, universitárias em primeira experiência, personagens que se apaixonam antes dos 30 anos e somem de cena depois disso. Mulheres lésbicas e bissexuais acima dos 50, 60, 70 anos quase não aparecem nas telas vivendo romance, sexo ou desejo. E quando aparecem, é raro que a idade não vire o centro (ou o problema) da narrativa, como se envelhecer e desejar outra mulher fossem coisas mutuamente contraditórias.
Essa pauta surge após a escuta atenta do episódio “Envelhecer sendo sáfica” (7° da segunda temporada do podcast “Chá das Quatro Podcast”), apresentado por Mariana Mortani, Louie Ponto, Anna Bagunceira e Jéssica Ballut. A ideia é visibilizar e trazer para luz algumas representações: onde elas existem, como se constroem (ou se recusam a se construir) e o que revelam sobre o lugar que a sociedade reserva (ou não reserva), para o amor sáfico depois da meia-idade.
Há um movimento recente, ainda tímido, de personagens e histórias reais que furam esse silêncio: novelas brasileiras que colocaram casais sáficos maduros no centro da trama, atrizes que se assumiram publicamente depois dos 60 anos, séries internacionais que revisitam personagens lésbicas duas ou três décadas depois de sua estreia, já envelhecidas junto com o público que cresceu assistindo a elas. Ao mesmo tempo, o mercado audiovisual segue tratando a mulher mais velha, de forma geral, como figura assexualizada. E, a mulher mais velha que deseja outra mulher, como uma dupla ruptura de expectativa. Cruzar esses dois pontos cegos, o etarismo e a lesbofobia, é o que torna este tema relevante e ainda pouco explorado pela cultura sáfica.
A vida como ela é: casos reais

Fafy Siqueira: a atriz brasileira conhecida por novelas da Globo como Duas Caras, saiu do armário aos 67 anos ao apresentar publicamente sua esposa, Fernanda Lorenzoni, em participação no programa Caldeirão, apresentado por Marcos Mion. O caso rendeu repercussão justamente pelo recorte etário: uma atriz de outra geração, formada em um mercado historicamente hostil à visibilidade LGBTQIA+, revelando a relação já depois de décadas de carreira.

Daniela Mercury: a cantora baiana, hoje com 60 anos, assumiu publicamente o relacionamento com a jornalista Malu Verçosa em 2013. As duas se casaram no mesmo ano em Salvador. Mais de uma década depois, o casal segue junto e é hoje uma das uniões sáficas mais visíveis e duradouras da música brasileira, com Daniela reafirmando anualmente, em datas de aniversário da relação, o valor simbólico de terem escolhido a coragem de se assumir.

Marina Lima: pioneira do rock brasileiro, a cantora tem hoje 70 anos e tem um relacionamento desde 2013 com a advogada Lídice Xavier, atualmente vivendo em lares separados. Marina já falou abertamente sobre relacionamentos com mulheres desde, pelo menos, os anos 2000. Mas é em entrevistas recentes, já na terceira idade, que ela detalha como passou a enxergar a própria sexualidade de forma mais interna e menos voltada ao olhar alheio, dizendo se sentir inteira aos 65 e livre para falar sem culpa.

Maria Zilda Bethlem: a atriz da televisão brasileira assumiu publicamente em 2013, aos 61 anos, seu casamento com a arquiteta e cenógrafa Ana Kalil. Atualmente separadas desde 2017, Maria Zilda é conhecida por sua postura extremamente livre e direta, tratando sua bissexualidade e suas relações sem qualquer tipo de tabu ou formalidade excessiva na imprensa.

Vera Zimmermann: a atriz (famosa por novelas como Meu Bem, Meu Mal) falou publicamente sobre seu relacionamento com a diretora Luciana Ramanzini na casa dos 59 anos. Elas trabalham juntas no teatro e compartilham suas rotinas nas redes sociais, mostrando a consolidação do afeto na maturidade.

Jodie Foster: aos 50 anos, durante discurso de agradecimento no Globo de Ouro, a atriz falou publicamente pela primeira vez sobre sua vida afetiva, agradecendo a Cydney Bernard, sua ex-companheira e mãe de seus dois filhos, com quem viveu por cerca de 20 anos sem nunca ter feito um anúncio formal de saída do armário. Hoje, Foster é casada com a fotógrafa Alexandra Hedison.

Holland Taylor: conhecida por Two and a Half Men e The L Word, assumiu a relação com Sarah Paulson em 2015, quando tinha 72 anos. O relacionamento quebrou barreiras duplas na mídia internacional: a discussão do amor sáfico na terceira idade e a diferença de idade (Sarah Paulson é mais jovem), sendo pautado pelo companheirismo e pelo sucesso mútuo de suas carreiras.

Cynthia Nixon: a estrela de Sex and the City passou a maior parte da juventude casada com um homem, com quem teve filhos. Aos 38 anos, ela se apaixonou pela ativista Christine Marinoni. Hoje, na casa dos 60 anos, elas continuam casadas e Cynthia se tornou uma das maiores ativistas políticas LGBTQIA+ de Nova York, mudando totalmente sua narrativa de vida na maturidade.

Lily Tomlin: a lendária comediante (estrela de Grace and Frankie) e a roteirista Jane Wagner estão juntas há mais de 50 anos. Elas viveram a maior parte da vida sob a antiga Hollywood (onde precisavam ser discretas), mas casaram-se oficialmente em 2013, quando Lily tinha 74 anos, tornando-se um símbolo vivo de amor duradouro na velhice.
Nas narrativas: as personagens fictícias
Estela e Teresa, em Babilônia (Globo, 2015): interpretadas por Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro, formavam um casal sáfico na terceira idade, juntas havia mais de 30 anos, com um filho. A novela abriu o primeiro capítulo com um beijo entre as duas, gerando reação conservadora imediata, mas manteve o núcleo como retrato de amor maduro e consolidado, um recorte raríssimo na teledramaturgia mundial, não só brasileira.

Cecília e Laís, no remake de Vale Tudo (Globo, 2025): vividas por Maeve Jinkings e Lorena Lima, donas de uma pousada em Paraty, revisitam um núcleo que já existia, de forma bem mais sutil, na novela original de 1988, quando as personagens equivalentes foram interpretadas por Lala Deheinzelin e Christina Prochaska em uma das primeiras sugestões de relação lésbica da teledramaturgia brasileira.

Na obra original de Gilberto Braga, devido à censura da época e ao conservadorismo, a relação era apresentada de forma extremamente sutil (apenas como “sócias/companheiras” de uma pousada em Búzios). Cecília morria tragicamente em um acidente de carro, deixando Laís desamparada em uma disputa judicial de herança com o cunhado homofóbico Marco Aurélio.
Ninny, Idgie e Ruth,em Fritos Verdes Tomates / Fried Green Tomatoes (1991): o filme é narrado, no presente da trama, pela idosa Ninny Threadgoode, que conta a uma mulher mais nova a história de Idgie e Ruth, um casal codificado como sáfico nos anos 1920 e 1930 sem que o roteiro use a palavra lésbica. No filme, é um caso clássico de representação por subtexto muito debatido pela crítica queer, e a moldura protagonizada pela personagem idosa é, ela mesma, um raro exemplo de mulher mais velha central na narrativa. Já no livro original de Fannie Flagg, o relacionamento lésbico é explícito.
Anne Lister, em Gentleman Jack (BBC/HBO, 2019-2022): série biográfica sobre a proprietária de terras britânica do século XIX, cujos diários codificados registraram relacionamentos abertos com mulheres. Chamada por parte da crítica de a primeira lésbica moderna, Lister é retratada por Suranne Jones já em idade madura para os padrões da época, funcionando como ponte entre um caso real do século XIX, e sua reconstrução ficcional contemporânea.
O que as narrativas contam sobre etarismo e desejo
Se há um fio que costura os casos ficcionais reunidos aqui, ele não é o do progresso linear, mas o da exceção. O etarismo, entendido como o conjunto de preconceitos e apagamentos ligados à idade, opera de forma especialmente cruel sobre a sexualidade feminina: mulheres héteros acima dos 50 anos já enfrentam a desconfiança de que ainda desejam e são desejadas. Normalmente, elas são tratadas por grande parte da ficção como figuras de cuidado (avó ou mãe), mas raramente de desejo. Quando se trata de uma personagem sáfica, a conta fecha em dobro: não é só a idade que torna a personagem inconveniente para a lógica do entretenimento, é também o gênero de quem ela ama.
A literatura de estudos de gênero costuma chamar esse fenômeno de dupla invisibilidade, um conceito que descreve como certos corpos desaparecem da narrativa não por um único marcador de diferença, mas pela sobreposição de dois ou mais. Mulher, mais velha, sáfica: cada camada reduz ainda mais o espaço de representação disponível, e ajuda a explicar por que os exemplos aqui levantados soam tão raros, mesmo décadas depois da sugestão de lesbianidade na teledramaturgia brasileira, em Vale Tudo (1988).
Vale problematizar, também, a qualidade dessa representação quando ela aparece. Casais como Estela e Teresa, em Babilônia (2015), avançaram ao colocar duas mulheres na terceira idade vivendo amor consolidado. Mas, o fizeram, em grande medida, higienizando o desejo: o casal beija, mas raramente é filmado com a mesma linguagem de intimidade física reservada a pares heterossexuais ou a casais sáficos jovens. É uma representação que existe, mas que ainda pede licença. Isso também vale para casos como o de Tomates Verdes Fritos (1991), em que o amor entre Idgie e Ruth só chega à tela por meio do subtexto, preservado justamente pela ambiguidade que permite à indústria negar (se pressionada), que aquilo era mesmo uma história de desejo entre mulheres.
Grace e Frankie (Netflix, 2015-2022), ilustra outro tipo de armadilha: a de projetar desejo sáfico sobre uma amizade porque a cultura pop simplesmente não oferece, com a mesma frequência, casais lésbicos explícitos nessa faixa etária. Grace (Jane Fonda) e Frankie (Lily Tomlin), ambas em torno dos 70/80 anos, não formam um casal na trama, mas a série é lida por parte do público sáfico como um retrato de intimidade entre mulheres mais velhas raramente visto na TV, e costuma entrar em listas de representação de forma controversa. Não se trata de negar o valor afetivo dessa leitura para parte do público, mas de reconhecer que ela nasce, em parte, da escassez: na falta de representação direta, o público qualificado em ler subtexto encontra desejo onde o roteiro só ofereceu companheirismo. É um sintoma tanto quanto é uma celebração.
Por outro lado, seria um erro tratar esse cenário apenas como carência. Os avanços são reais, ainda que pontuais: uma novela das nove abrir com um beijo entre duas mulheres na terceira idade, em 2015, ou uma cantora de 70 anos falar sem constrangimento sobre desejo e reinvenção afetiva em rede nacional, são rupturas que não existiam há 15 anos. São sinais de mudanças que ainda não se converteram em regra, mas que continuam dependendo, majoritariamente, da coragem individual de quem se assume ou da ousadia pontual de uma emissora e não de um compromisso com a existência de mulheres sáficas mais velhas na tela.
Por isso, é menos sobre trazer uma resposta final. E é mais sobre visibilizar uma questão primordial: o que muda, na prática, quando o amor entre mulheres deixa de ser tratado como fase, fetiche ou exceção estética, e passa a ser mostrado, também, como algo que envelhece, se transforma e segue inteiro depois dos 50, 60, 70 anos?
Afinal, se tudo der certo, todas nós envelheceremos!
Fotos: reprodução

