Por Vitória Gomez
Chappell Roan fez seu show de estreia no Brasil no último sábado (21), como headliner do Lollapalooza. O evento foi um verdadeiro espetáculo, elogiado por fãs e pela crítica.
Mas a passagem da cantora pelo país veio acompanhada de polêmica. Jorginho, jogador do Flamengo, fez um publicação no story do Instagram acusando o segurança da artista de abordar sua enteada de 11 anos “de forma extremamente agressiva”. A aproximação teria acontecido após a menina passar pela mesa da equipe durante o café da manhã em um hotel em São Paulo. Tudo isso antes de Chappell subir ao palco do Lolla.
No gramado de Interlagos e nas redes sociais, os fãs reagiram com bom humor. Afinal, em outras ocasiões, a americana já deixou claro que não gosta de ter seu espaço pessoal invadido quando não está trabalhando.

O show correu como esperado e foi só na manhã de domingo (22) que a artista resolveu se pronunciar. Em publicação no Instagram, ela afirmou não ter visto a criança e a mãe, a influenciadora Catherine Harding, e não ter conhecimento da situação. Ainda lamentou o ocorrido, reforçando que o segurança não fazia parte de sua equipe.
Harding, esposa de Jorginho, também se manifestou. Ela voltou a criticar a situação, mas recuou em algumas das acusações feitas pelo marido. Por exemplo, admitiu que não sabia de quem era o segurança e de que provavelmente a cantora não a viu. Com todas as partes de acordo, o assunto estaria encerrado… mas não.
O caso ganhou repercussão internacional: saiu na TMZ, The Hollywood Reporter, The Guardian e The New York Times (um dos maiores jornais do mundo). Para além da fama atrelada ao nome de Chappell Roan, de Jorginho (que passou boa parte da carreira jogando na Europa) e de Jude Law (pai da menina, que também acabou envolvido na polêmica), a situação foi motivo para duvidar do caráter da cantora e se ela odeia os próprios fãs. Durante a semana que seguiu o caso, não era incomum ver pessoas chamando a artista de antipática ou mal-agradecida, duvidando de seu talento e até sexualidade.
Foi na quarta-feira (25) que o guarda-costas Pascal Duvier se pronunciou. Ele assumiu que foi conversar com Catherine Harding após ter recebido informações do hotel e com base em eventos que ele próprio testemunhou nos dias anteriores no local. Duvier negou fazer parte da equipe de Chappell Roan e garantiu que a abordagem foi calma. Ele não revelou oficialmente para quem trabalhava no dia do ocorrido, mas se referiu às críticas contra Chappell de “falsas e constituem difamação”.

Nem a palavra do próprio segurança foi suficiente para deixarem a cantora em paz. No mesmo dia, o Daily Mail, site britânico conhecido por fofocas, publicou uma nota chamando a artista de “hipócrita” por supostamente vir de uma família abastada, colocando mais fogo na onda de comentários de ódio que já circulavam pela internet.
Nas interações da publicação no X (antigo Twitter), usuários aproveitaram a deixa para continuar os xingamentos.



Outras celebridades também resolveram dar pitaco. Em alusão direta ao caso de Chappell, o cantor e compositor Lionel Richie defendeu que artistas que pediram para ser famosos têm que “ser capaz de interagir”. Fãs na internet defenderam o mesmo: a partir do momento que alguém vira pessoa pública, deve se submeter a esse tipo de interação.
Muitos usuários chegaram a correlacionar o ocorrido no Brasil com outros casos. Por exemplo, quando Chappell Roan confrontou paparazzis na rua e pediu que eles parassem de a assediar. Ou quando, no tapete vermelho da estreia do documentário de Olivia Rodrigo, chamou atenção de um fotógrafo que a desrespeitou. Ou até quando contratou um segurança para protegê-la de um stalker.
Fica o questionamento: em quais desses casos a cantora foi antipática ou incapaz de interagir? Não foi a primeira vez que Chappell impôs limites diante de uma cultura que se apropriou da vida pessoal de famosos.
Mas a polêmica foi além, gerando uma onda de comentários de ódio desproporcionais – ainda mais depois que o assunto parecia ter sido resolvido. No final, a passagem de Chappell Roan pelo Brasil foi marcada por uma situação que nada teve a ver com ela. E por que, se ela nem esteve envolvida no caso?
Não há uma resposta única, mas vale refletir sobre como a artista se posiciona. Além de ser mulher e assumidamente lésbica, a cantora já confrontou a indústria e a política norte-americana mais de uma vez.
Por exemplo, em meados de 2024, se recusou a se apresentar na Parada Gay da Casa Branca. Em um show, vestida de Estátua da Liberdade, citou os dizeres encravados no monumento, pedindo respeito pelos direitos de minorias:
Caso vocês tenham esquecido o que está gravado nos meus lindos dedinhos do pé: ‘Dai-me os vossos cansados, os vossos pobres, as vossas massas amontoadas, ansiando por respirar livremente’. Isso significa liberdade para pessoas trans. Significa liberdade para as mulheres. E significa, principalmente, liberdade para todos os povos oprimidos em territórios ocupados.
A fala foi em alusão à Palestina. Obviamente, a cantora foi criticada, inclusive por pessoas que diziam que ela, sendo lésbica, não sobreviveria no Oriente Médio.

Já no início do ano passado, ao receber o Grammy de Artista Revelação, a americana chamou atenção das gravadoras musicais por não fornecerem assistência de saúde para artistas, dizendo que se sentiu “traída pelo sistema”.
Mais recentemente, em fevereiro deste ano, Chappell Roan deixou a agência de talentos comandada pelo agente Casey Wasserman. A saída veio após e-mails divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelarem mensagens trocadas por ele com Ghislaine Maxwell, cúmplice de Jeffrey Epstein em um esquema de tráfico sexual infantil.
As ações continuaram no Brasil. A Midwest Princess Project, organização sem fins lucrativos que apoia jovens trans, fechou parceria com a Casa 1, centro de cultura e acolhimento da comunidade LGBTQIA+ em São Paulo que corria o risco de fechar por falta de financiamento. O projeto da cantora financiou e levou a instituição como expositora no Lollapalooza.

No final das contas, Chappell Roan mostrou que não é apenas mais uma cantora em ascensão. Ela rompeu com a pressão pelo comportamento considerado “agradável” e “acessível” esperado de uma mulher na indústria musical. E quando ela não correspondeu a esse comportamento, virou alvo.
No caso que antecedeu o Lollapalooza no Brasil, um mero mal entendido foi suficiente para ser taxada como “mal-agradecida” e “arrogante” – estereótipos frequentemente associados a mulheres que justamente fogem do esperado.
O mais preocupante não foi o caso em si – afinal, a situação em si já foi esclarecida -, mas sim o padrão que ele revela.
A velocidade com que a narrativa foi construída contra Chappell Roan diz muito sobre quem tem o benefício da dúvida e quem não tem. E ela, sendo uma artista abertamente lésbica, cuja estética, posicionamentos e presença desafiam normas heteronormativas e patriarcais, não teve.
Como prova disso: a empresa de pesquisa GUDEA analisou mais de 100 mil publicações geradas por mais de 54 mil usuários em sete plataformas digitais entre 20 e 22 de março (um dia antes e um dia depois do show no Lollapalooza). Eles descobriram que mais de 23% dos posts sobre ela foram gerados por bot.
O relatório, divulgado pelo BuzzFeed, concluiu: “embora tenha havido um incidente real no centro de tudo isso… parece que houve um esforço externo coordenado para atiçar as chamas”.

O próprio site sugeriu um ataque coordenado contra a artista. Mais de uma semana depois do caso, a repercussão continua. E a mensagem que ficou é que um mal entendido foi pretexto o suficiente para amplificar a situação e invalidar Chappell Roan e tudo que ela defende – mesmo sem motivo.
Foto em destaque: Lollapalooza Brasil/Reprodução