O longa-metragem dirigido e roteirizado por Emma Hough Hobbs e Leela Varghese surgiu pela ideia do título e chega nas telas para provar a importância de animações adultas com temática LGBTQIAPN+
por Ingrid Zelinschi e Vitória Vasconcelos
Ser uma princesa espacial já não é algo fácil de se fazer, agora ter sua namorada, ou melhor, recém ex-namorada sequestrada por alienígenas incels, conhecidos por Straight White Maliens, é pior ainda. A animação “Lesbian Space Princess” (“A Sapatona Galáctica”, em português) tem como diretoras e roteiristas Emma Hough Hobbs e Leela Varghese, e estreou nesta quarta-feira, 11.
No desenrolar do longa-metragem, Saira, a princesa, viaja pelo espaço em busca de resgatar sua ex, Kiki, uma caçadora de recompensas, que foi sequestrada em troca da arma mais poderosa do seu povo, o Labrys Real. Durante o caminho, Saira tera que enfrentar medos desconhecidos, dentre os maiores deles sendo a sua própria dúvida.
Por isso, em meio à um roteiro cativante, artes belíssimas, um enredo de se auto descobrir e seguir em frente, o Lesbocine convidou Emma e Leela para uma entrevista de como surgiu a ideia do filme e de que formas elas realizaram a produção.
Lesbocine: De onde surgiu a ideia de criar “Lesbian Space Princess”? Houve alguma inspiração pessoal ou cultural por trás da história?
Leela Varghese: A ideia veio literalmente do título primeiro. Houve uma iniciativa onde moramos, no Sul da Austrália, e a Emma estava tomando banho e…
Emma Hough: Em termos de inspiração pessoal e cultural, colocamos muito de nós mesmas no filme. Culturalmente, amávamos “Utena”. A Emma é uma grande fã de anime. Também sentíamos vontade de fazer algo no espaço mais ocidental que ainda não tivesse sido visto. Na animação, não parecia haver criadores como nós que quisessem contar as histórias e criar os personagens que queríamos ver. Então foi uma ideia boba começando pelo título, mas depois houve muito pensamento e carinho envolvidos. Foi título primeiro, e o resto veio depois.

L: O título original “Lesbian Space Princess” já chama muita atenção. Como vocês decidiram abraçar uma linguagem tão direta e política logo no nome do filme?
EH: Nunca foi o caso de termos um filme pronto e depois pensar “ah, vamos chamar isso de ‘Lesbian Space Princess’”. Desde o início, o filme ia ser explicitamente queer. Parte do benefício disso é sinalizar diretamente para o público certo e também deixar claro para quem vai se ofender com esse tipo de humor que talvez esse não seja o filme para essas pessoas. Algumas pessoas perguntaram se aquele seria mesmo o título final, e para mim sempre foi 100% claro: tinha que ser “Lesbian Space Princess”.
LV: A verdade é que não houve muito excesso de pensamento nisso. De várias maneiras, acho que foi isso que fez o projeto se destacar. Nós também não nos estressamos muito com isso porque a gente não imaginava que o filme iria tão bem, você nunca sabe quando está produzindo algo e pensando muito se vai dar certo.
EH: Curiosamente, quando fomos a Cannes durante o mercado, nosso produtor foi buscar os crachás e a mulher do balcão achou que era um pornô só por causa do título. No fim, isso não virou um problema real para o filme.
L: O termo “lesbian” (em português, o título é Sapatona, equivalente a dyke) ainda é visto como provocativo por muitas pessoas. Como foi o processo de ressignificar e reivindicar essa palavra dentro do filme?
EH: Para nós, é até engraçado, porque “lésbica” não é uma palavra suja nem provocativa. Quanto mais usamos a palavra, menos bagagem ela carrega. Muitas palavras que historicamente foram usadas para rebaixar pessoas queer, quanto mais usamos, mais as reivindicamos e menos poder elas têm. “Lésbica” é apenas um descritor. É interessante como isso muda entre gerações e países. Para algumas gerações mais velhas de lésbicas, a palavra “queer” soa mais agressiva, enquanto “lésbica” é mais suave. Tem sido muito bom ouvir pessoas dizendo que é refrescante ouvir a palavra “lésbica” ser usada tantas vezes no filme.
LV: Acho que, quando você pertence a uma minoria, uma das coisas mais importantes é assumir a sua identidade sem hesitação. Então, ser orgulhosa e direta acaba sendo uma forma simples, mas poderosa, de ressignificar o queer.

L: A personagem Saira passa por uma jornada de autodescoberta profundamente ligada à sua identidade lésbica. O que vocês mais gostariam que o público lésbico sentisse ao assistir ao filme?
LV: Essa é uma pergunta interessante porque acho que não é necessariamente conectado à identidade lésbica, apesar de ser um simbolo lésbico ligado a comunidade lésbica, mas o que amamos sobre o filme é que ele também fala de amor e valor próprio. Na minha cabeça é mais sobre essa jornada de amor próprio.
EH: A Saira pode ser qualquer pessoa, a jornada dela é universal, mas falamos diretamente com a comunidade lésbica em muitos aspectos. Lésbicas podem ser um pouco culpadas de pular de relacionamento em relacionamento. Dá até para brincar que, em geral, temos dificuldade em ficar solteiras. A Saira é exatamente esse tipo de lésbica: ela odeia ficar sozinha e precisa aprender o amor próprio. Então, a jornada dele fala diretamente com a comunidade lésbica sobre “está tudo bem ser solteira e se amar primeiro antes de entrar em um relacionamento, se apaixonar rápido e acabar com o coração partido.”
L: Vocês acreditam que o cinema de animação ainda é subestimado quando se trata de contar histórias LGBTQIAPN+?
EH: Sim, cem por cento.
LV: Especialmente no cinema.
EH: Existem pouquíssimos filmes de animação queer, e por isso eles raramente têm a chance de ser feitos. Quando fomos vender Lesbian Space Princess para cinemas, não havia filmes comparáveis para usar como referência, então ele era visto como algo de nicho. Filmes de nicho têm poder, mas também acabam gerando medo. Esperamos que “Lesbian Space Princess” possa abrir portas para que mais filmes do tipo sejam feitos.
LV: Além disso, a animação adulta cômica é algo pouco explorado no cinema independente, que costuma ser mais dramático. Em relação à filmes como o nosso, existe muito território inexplorado em termos de alegria queer, comédia leve e animação adulta para esse público específico.

L: Na visão de vocês, hoje existe mais espaço no mercado para animações sáficas, ou esse ainda é um caminho de resistência?
EH: Muitos criadores queer assumem que haverá mais resistência do que realmente existe, e acabam escrevendo histórias heteros achando que terão mais sucesso. Existe muita dúvida com as animações porque assumimos que talvez não haverá interesse, porque nos sentimos dessa maneira. Mas com “Lesbian Space Princess”, no caso não foi assim.
LV: Ao mesmo tempo, existe um problema de “ovo e galinha”. Porque fazendo uma animação queer cômica, muitos distribuidores não sabem onde encaixar filmes como o nosso porque não têm nada para comparar. Muitas vezes ouvimos: “Gostamos, mas não sabemos como vender ou distribuir isso”.
EH: Não foi difícil fazer o filme, mas foi difícil colocá-lo nos cinemas, porque os exibidores são muito avessos ao risco.
LV: Ainda assim, o filme está sendo exibido em muitos lugares, o que é incrível. O caminho ainda não está totalmente pavimentado, mas existe público.
EH: Quanto mais filmes assim forem feitos, mais fácil será provar que funciona.
L: Por fim, se vocês tivessem que descrever “Lesbian Space Princess” em três palavras, quais seriam?
LV: Lesbian, Space e Princess.
EH: Bobo, colorido e alegre.
Imagem em detaque: Reprodução: “Lesbian Space Princess”