Curiosidades - Publicado em 19.ago. 22

Em agosto, celebramos o Mês da Visibilidade Lésbica, um período de orgulho, luta e autoafirmação. Instituídos no calendário da militância em 1996, esses 31 dias de reivindicações precisaram ser criados por um motivo simples: o apagamento de pautas específicas de mulheres lésbicas dentro da própria comunidade LGBT+ — e, consequentemente, na sociedade como um todo.  

 

Originalmente, a palavra “lésbica” sempre foi utilizada como uma identidade para mulheres que se relacionam exclusivamente com outras mulheres, ou, em um contexto mais generalista, para designar qualquer relacionamento entre duas pessoas do gênero feminino.

 

Contudo, nos últimos anos, com a ampliação dos debates socioculturais sobre sexualidade, uma metamorfose começou a se desenhar nas etiquetas que adotamos para expressar nossos padrões afetivos e sexuais. Nas redes sociais, uma das escolhas mais frequentes para acompanhar essa tendência é o termo “sáfica”, uma maneira relativamente neutra de falar sobre garotas que se relacionam entre si sem atribuir uma sexualidade específica a nenhuma das envolvidas. E esse é só um exemplo entre diversas variações similares usadas para atenuar um rótulo que, para algumas pessoas, talvez pareça muito taxativo e absoluto. 

 

Mas afinal, qual é a problemática de diluir identidades em termos guarda-chuva? É possível que um termo amplo, criado para incluir, acabe tendo o efeito reverso e sendo excludente? Como se encontra o equilíbrio entre conforto individual e a visibilidade coletiva de uma questão que não é apenas particular, mas política?

 

“Sáfica” e as transformações culturais

 

Em parte, a mudança de percepção sobre as nomenclaturas LGBT+ se deve a popularização de conceitos que antes ficavam restritos aos círculos acadêmicos — como a Escala Kinsey, fruto de uma publicação de 1948, que aborda as preferências sexuais dos seres humanos como experiências fluidas, que não se limitam a 100% heterossexual ou 100% homossexual e que podem mudar ao longo da vida; ou a Teoria Queer, que remete ao trabalho de pesquisadoras feministas como Gloria Anzaldúa, Judith Butler e Adrienne Rich, e serve como ponto de partida para questionamentos sobre a binaridade absoluta entre feminino e masculino. 

 

A partir dessas discussões, novos rótulos de autoidentificação para gênero e sexualidade surgiram, e a comunidade LGBT+ se flexibilizou para acolher todos os indivíduos que fogem à heteronormatividade com segurança e respeito (não à toa, atualmente, a sigla vigente do movimento é LGBTQIAPN+). 

 

Todas essas novas possibilidades de autodefinição, no entanto, se tornaram tão amplas e elásticas que acabaram inespecíficas. O resultado é que muita gente acaba confusa — e até mesmo desconfortável — na hora de compreender como, supostamente, deveria se identificar. Recentemente, a influencer JoJo Siwa afirmou não gostar da palavra “lésbica”, que, para ela, parece “um pouco demais”. Há cerca de dois anos, um discurso similar foi defendido pela cantora girl in red, que classificou “lésbica” como sua “palavra menos favorita no mundo”, muito embora ela mesma só se relacione com outras garotas. 

 

Esse comportamento, cada vez mais comum entre as meninas da comunidade, sobretudo as pertencentes às novas gerações, levanta uma dúvida: por que parece ser mais razoável utilizar termos como “sáfica”, ou mesmo “queer”, na realidade dos países de língua inglesa, enquanto “lésbica” parece ser uma escolha radical?

 

Lésbica x Sáfica: origem em comum, usos diferentes

 

Curiosamente, os termos “lésbica” e “sáfica” surgem da mesma referência histórica: a grega Safo, uma poeta cuja biografia é cercada de mistérios. 

 

Pouco se sabe sobre a vida dela. Uma das escassas certezas é sua origem: a Ilha de Lesbos, uma das maiores ilhas da Grécia (e, atualmente, ponto turístico popular entre pessoas LGBTQIA+ que visitam o país). Ao longo dos séculos, Safo se consolidou como uma grande representante da poesia lírica, tanto pelo valor artístico de seus poemas quanto por um detalhe especial: boa parte de seus versos descrevem relações afetivas entre mulheres. 

 

Há muita controvérsia sobre a escrita de Safo. Não se sabe, por exemplo, se realmente há algum teor romântico ou erótico em seus textos, se ela se relacionava ou não com mulheres, ou sequer se é a autora de toda a obra atribuída a ela. Em todo caso, o mito ao redor da escritora é tão significativo que sua figura se tornou um símbolo cultural de celebração à lesbianidade. 

 

Desse contexto, surgiram dois adjetivos: “Lésbico”, que já era utilizado desde a antiguidade para designar qualquer objeto, pessoa ou comportamento que viesse da Ilha de Lesbos e ganhou força política com o avanço dos estudos feministas ao longo do século XX; e “Sáfico”, que, de acordo com o que há mapeado até o momento, foi utilizado oficialmente pela primeira vez para descrever uma relação sexual entre mulheres em 1773, na publicação britânica The Covent Garden Magazine, mas só se popularizou entre meninas da comunidade LGBT+ recentemente.

 

Na contemporaneidade, a aplicação prática das duas palavras é diferente. De modo geral, o termo “lésbica” é usado para definir:

 

  • Mulheres que se atraem por outras mulheres em uma perspectiva monossexual —  ou seja, que se interessam por um único gênero. São mulheres que se relacionam exclusivamente com outras mulheres;

  • Relações entre mulheres, ainda que uma delas, ou mesmo todas as envolvidas, não seja(m) necessariamente lésbica(s);

  • Produtos culturais (filmes, peças de teatro, livros, etc.) que contenham casais de mulheres;

  • O movimento lésbico — ou seja, a articulação política, social e histórica que luta pelos direitos de mulheres lésbicas e também de qualquer outra mulher que possa ser lida como lésbica, ainda que não necessariamente o seja (duas garotas bissexuais de mãos dadas na rua, por exemplo, podem facilmente ser percebidas como lésbicas e sofrer ataques lesbofóbicos por conta disso. Uma pessoa homofóbica não se importa com nossas identidades, e sim com o que nossas existências simbolizam para a normatividade).

 

Já o termo “sáfica” vem sendo aplicado nos seguintes contextos:

 

  • Relações entre mulheres, independente da(s) sexualidade(s) das envolvidas;

  • Produtos culturais (filmes, peças de teatro, livros, etc.) que contenham casais de mulheres.

 

“Sáfica” é uma sexualidade?

A resposta objetiva é: não, pelas definições utilizadas atualmente pelo movimento LGBTQIA+ enquanto coletivo político, “sáfica” não é considerada uma sexualidade. 

 

“Sáfico” nada mais é do que um termo guarda-chuva genérico que surgiu da demanda de algumas mulheres não-lésbicas que sentiam que o uso da palavra “lésbica” para definir seus relacionamentos era uma forma de apagamento de suas reais sexualidades. 

 

Ao utilizar “sáfica” para definir um casal numa obra de ficção, por exemplo, é importante não esquecer que a(s) identidade(s) das personagens daquele filme ou série continuam existindo paralelamente a isso — elas seguem sendo lésbicas, bissexuais, pansexuais, assexuais, e/ou pessoas que simplesmente ainda não descobriram qual é a definição mais condizente para si. Essa lógica, é claro, também se aplica à vida real. 

 

Por que se dizer “lésbica” gera tanto incômodo?

 

O debate sobre o uso de “lésbica” ou “sáfica” ainda é recente e, como qualquer outra questão política, repleto de complexidades. 

 

Para começar, nada no mundo é estático e imutável. A linguagem é viva e está em constante evolução — por isso, é natural que novas palavras surjam ou que expressões já existentes mudem de significado de acordo com as necessidades de seus falantes. Já os movimentos sociais funcionam de modo similar, acompanhando os ciclos e flutuações da sociedade para estabelecer novas frentes de luta. Por fim, dentro de qualquer coletivo, apesar das pautas compartilhadas, é natural que haja divergência de ideias. Embora todas estejam contextualizadas na mesma mobilização por direitos, nem todas as integrantes da comunidade LGBT+ vão pensar da mesma maneira. 

 

Por isso, não cabe a qualquer uma de nós estabelecer como verdade absoluta se a adoção de “sáfica” é errada ou problemática. Contudo, antes de se posicionar sobre o assunto, é interessante que todas tenhamos subsídio para fazer as seguintes reflexões:

  • O pessoal é político. Esse é o mote da segunda onda do movimento feminista e também serve para refletirmos sobre uma peculiaridade de ser uma pessoa LGBTQ+: na mesma medida em que o entendimento da sua própria sexualidade é uma questão individual, as decisões que afetam o coletivo também são políticas. A escolha entre usar “sáfico” como um complemento a identidades já existentes OU como um substitutivo a elas faz a diferença não só para um indivíduo ou grupo, mas para todas as mulheres que pertencem à comunidade;

  • Por que usamos o “sáfica”? Há uma intenção empática na iniciativa de criar um termo que não apague outras sexualidades (como a bissexualidade, por exemplo, que parece exigir constante reafirmação para ser validada pelos outros, inclusive dentro da própria comunidade). No entanto, é importante avaliar se, na tentativa de incluir por meio da generalização, não estamos vendo um tiro sair pela culatra e apagando identidades ao deixar de falar sobre e sentir orgulho delas. Se eu sei que uma personagem fictícia é assumidamente lésbica, por que sigo usando sáfica para dizer algo sobre ela? E isso nos leva ao terceiro ponto:

  • Estou usando “sáfica” porque acredito na palavra como um mecanismo de inclusão ou porque sinto que preciso atenuar o termo “lésbica”? A partir do momento em que recorremos a um sinônimo porque achamos que “lésbico” é algo pesado, intenso, sério, taxativo ou radical demais, temos um problema. Porque, nesse caso, nossa real motivação não é deixar de apagar outras identidades, mas sim, nos afastar de todo o histórico e significado de ser uma mulher lésbica. 

O poder político da identidade lésbica

 

Se dizer “mulher lésbica” significa, também, se associar a toda cultura lésbica que foi construída antes de nós — incluindo estereótipos. Significa Stonewall, Ferro’s Bar e Chanacomchana. Significa cada marcha, manifestação, articulação política e outras modalidades de luta por direitos básicos que nos deviam ser assegurados sem tanto esforço. Talvez, para você, signifique ser desfeminilizada e ter amigas ou namoradas desfem. Significa Anne Lister, Audre Lorde, Ana Carolina, Ellen DeGeneres, Marta, Jodie Foster e Pepê & Neném. Significa romper com certezas relacionadas a religião, patriarcado, tradição e família. Significa frustrar expectativas de pessoas que amamos muito. Significa saber que nunca iremos atender aos padrões da heteronormatividade casando com homens e nos enquadrando em papéis de gênero, que o senso comum atribui a nós dentro dos relacionamentos heterossexuais que fomos criadas para achar que teríamos — e ainda bem!

 

A palavra “lésbica” assusta porque marca uma ruptura entre aquilo que tentaram fazer de nós e as pessoas que realmente nos tornamos. Esse processo de rompimento é doloroso, desconfortável e solitário. Mas não estamos sozinhas — somos várias, muitas, infinitas. Se você é “lésbica”, exercite o orgulho de se chamar assim, porque há muito do que se orgulhar. Citando uma das frases mais bonitas da literatura nacional, “Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”.

 





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