Crítica - Publicado em 16.jun. 22
Diretor: Sally Wainwright
Gênero: Drama épico
Duração: 2 temporadas
Ano: 2022
Sinopse:

Yorkshire, 1834. Todos os olhos estão voltados para Anne Lister e Ann Walker enquanto elas se estabelecem juntas em Shibden Hall como esposa e esposa, determinadas a combinar suas propriedades e se tornar um casal poderoso. Ou seja, o espírito empreendedor de Anne Lister assusta os habitantes locais tanto quanto sua vida amorosa não convencional e, com Halifax à beira da revolução, sua recusa em manter um perfil discreto se torna provocativa e perigosa.


Assista o trailer:

Anne Lister viveu como quis, enfrentou mundos para viver a sua vida, sem amarras impostas por ser mulher. Mas também foi bonito ver Ann Walker tendo um lindo desenvolvimento, vê-la se impondo mais e tomando as rédeas da sua vida.

Por: Raquel Oliveira

Anne Lister (Suranne Jones) está mais rápida do que nunca! A passos largos e longas caminhadas em toda a Halifax do século 19, a proprietária de terras e considerada historicamente como “a primeira lésbica moderna” está, nos termos dado a si mesma na época, casada (pelo sacramento) com Ann Walker (Sophie Rundle), vivendo a vida que sempre sonhou e com os negócios a todo vapor. Agora juntas, outra leva de atribulações e desafios estão iminentes, despertando em Anne e Ann mais ainda vontade de tomarem o controle de suas vidas. Mas, quando tudo parecia estável, pelo menos na união das “Annes”, somos apresentadas aos sentimentos e pensamentos profundos que Lister tem. Não que na primeira temporada não fosse assim, mas neste segundo ano está bem mais presente. E só é possível perceber isso porque Gentleman Jack conta com um recurso que faz uma imensa diferença ao deixar a história dinâmica: a quebra da quarta parede.

Esse recurso visual e linguístico vem mais do teatro e ultimamente está tomando conta da TV e Cinema. No sentindo mais resumido, a quebra da quarta parede acontece quando o personagem derruba a barreira invisível (no caso, nós, o público, somos essa barreira) que separa a nossa realidade com o universo em que ele vive. Desse modo, é como se o personagem nos inserisse na sua história, e assim também podendo significar que ele sabe que aquele universo ficcional não é real. Esse recurso usado em Gentleman Jack é ainda mais pertinente, porque, uma vez que a série é baseada nos diários de Anne Lister, é como se pudéssemos ver em tela o que ela escreveu, logo, os seus sentimentos também. E quando a nossa protagonista quebra a quarta parede, fazendo interagir conosco o que está acontecendo em volta dela, ela está nos fazendo “cumplices”. Embora seja um dispositivo de intimidade, nem sempre é bom ver o que realmente Anne Lister pensa e sente, principalmente com relação a sua ex, Mariana.

Porque neste ponto da história, já estamos felizes que Anne finalmente encontrou uma pessoa que a ame e torcendo que fique com ela até o final – embora, lá no fundo, realmente saibamos que elas viveram juntas até a morte. Mas, no contexto dramático da série, torcemos por Ann, que sempre foi apaixonada por Lister, e que além disso, é uma pessoa altruísta, doce, gentil e encantadora. Anne tem consciência disso, mas sente que há pendências com sua ex. Mariana e Anne trocam inúmeras cartas, muitas com conteúdos melancólicos, pois Mariana não consegue admitir que Lister está seguindo em frente. É nesse drama que a temporada se concentra na primeira parte. Mas, felizmente (ou não, depende do nosso ponto de vista), isso passa. A temporada gira e as empreitadas de Lister nos negócios tomam de conta.

E enquanto os negócios complexos da proprietária de Shibden Hall vão aparecendo, na outra ponta também temos uma nova trama para Ann Walker: a luta em dividir seu patrimônio com sua irmã e cunhado, para só então alterar seu testamento em favor de Anne, que também pretende fazer o mesmo. Somente com essa garantia mútua, que as duas finalmente possam considerar que estão em matrimônio. Acontece que o cunhado de Ann se mostra o grande antagonista nesta temporada, aturá-lo em cena, chega a ser desafiador. Mas ei, é uma história que já aconteceu, certo? Logo, sabemos que há um final, só não como. E é assim que GJ leva sua temporada, muitas tramas entre as protagonistas e que acabam deixando de lado as subtramas expostas na primeira temporada. Mas está bem claro que o foco aqui é as “Annes”. É o que importa, no fim.

Gentleman Jack foi mais uma produção que sofreu atrasos durante a pandemia de COVID-19. Mas por outro lado, o tempo serviu para aprimorar o que já estava bom. O nível de produção, agora com Suranne Jones na produção executiva, está bem maior. Desde a ambientação aos figurinos que são maravilhosos, a paleta de cores escuras que parecem mais contrastadas chegam até a combinar com as cores vivas que Ann usa, e com um roteiro rápido e inteligente, a direção contribui muito com as ótimas atuações de Jones, Sophie Rundle e todo o elenco de apoio, sem contar também na decupagem, que antes era excessiva na primeira temporada, agora está bem mais moderada.

De fato, Anne Lister é o coração da série. Essa figura histórica, tão inteligente e complexa, viveu à frente do seu tempo, em um período em que sempre tinha que levantar o nariz cada vez mais, erguer a cabeça e não deixar ser atingida pelos insultos tais como o nome que origina a série, que era pejorativo na época – e hoje em dia é ressignificado devido a sua contribuição na história. Anne Lister viveu como quis, enfrentou mundos para viver a sua vida, sem amarras impostas por ser mulher. Mas também foi bonito ver Ann Walker tendo um lindo desenvolvimento, vê-la se impondo mais e tomando as rédeas da sua vida. Foi o melhor da temporada. Meu desejo é que caso venha ter uma terceira temporada, que possam explorar mais de Ann.

Gentleman Jack talvez seja uma das produções mais importantes que temos na atualidade.





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