Crítica - Publicado em 10.jun. 22
Diretor: Felicia D. Henderson; V.E. Schwab
Gênero: Drama; Fantasia
Duração: 8 episódios de 60 minutos
Ano: 2022
Sinopse:

O amor é uma coisa meio complicada para Juliette e Calliope: uma é vampira, a outra é caçadora de vampiros. E as duas estão prontas para matar pela primeira vez.


Assista o trailer:

“É evidente que a equipe de produção teve boas intenções. A sala de roteiro fez um bom trabalho ao desdobrar o conto breve de V.E Schwab (que, inclusive, é creditada como uma das produtoras executivas) em 8 episódios de quase uma hora, com ação se desenrolando o tempo todo. Contudo, o orçamento claramente não é compatível com a história que se almejava contar.”

Por: Victoria Tuler

 

Existe uma razão pela qual a cultura de fanfics é tão popular entre entusiastas de casais lésbicos: a ausência de clichês em produções LGBT. Há uma lacuna tão significativa em termos de narrativas simplificadas e previsíveis envolvendo o romance entre mulheres que, muitas vezes, inserir duas garotas em um enredo que já foi proposto centenas de vezes com personagens heterossexuais já é o suficiente para fins de entretenimento, mesmo que a execução da premissa não seja exatamente bem sucedida. Se esse é o seu caso, você vai adorar a primeira temporada de First Kill (Netflix, 2022), que estreia nesta sexta-feira (10) com um único aspecto realmente funcional: a química explosiva entre seu casal de protagonistas, interpretado por Imani Lewis e Sarah Catherine Hook.

A sinopse, é claro, salta aos olhos do público-alvo. A série conta a história de Juliette Fairmont (Hook), vampira adolescente que se alimenta de pílulas especiais, elaboradas para que ela consiga beber sangue sem precisar morder humanos. Agora no ensino médio e mais próxima da idade adulta, no entanto, a menina vem sentindo sua fome aumentar, a ponto de seus comprimidos não funcionarem mais. Por isso, chega a hora do rito de passagem mais importante de sua espécie: a primeira morte, a partir da qual Juliette passará a caçar para sobreviver. Instintivamente, ela escolhe a novata da escola, Cal Burns (Lewis), por quem também tem uma leve paixonite, para fazer as honras de ser sua vítima. Só há um pequeno problema: Cal pertence a uma linhagem de caçadores de monstros, o que inclui vampiros, e também está ansiosa para exterminar sua primeira criatura.

Cal e Juliette são o que há de mais vívido, interessante e atrativo em First Kill. A sinergia entre as atrizes materializa a eletricidade que uma dinâmica enemies to lovers exige. Há estática desde o primeiro toque entre a dupla, que consegue captar não apenas a tensão exigida pelo contexto da relação, mas também a complexidade de todos os sentimentos ambíguos que crescem entre elas.

Nos últimos dias, as redes sociais foram tomadas por discussões acaloradas sobre a suposta hipersexualização do casal. Na prática, não é o que acontece ao longo dos episódios. As garotas trocam beijos e toques compatíveis com o que se espera de adolescentes de 16 anos vivendo a primeira grande paixão, com uma abordagem que passa longe do fetichismo. Para as adultas, pode ficar a impressão desconfortável de quem se depara com dois jovens se agarrando no meio do shopping. Para a faixa etária visada pela produção da série, no entanto, as sequências foram arquitetadas na medida certa.

O estresse de vivenciar uma relação proibida e que desafia as tradições familiares de ambas, por si só, também contribui para intensificar a energia sexual. Por fim, muito embora a versão beatificada dos vampiros de Crepúsculo tenha calcificado uma certa expectativa polida no imaginário de uma geração inteira, a verdade é que, historicamente, a mitologia do vampirismo os retrata como seres charmosos e sedutores, com sede de todos os prazeres que o mundo pode oferecer — incluindo o sexo e a conquista. Nesse aspecto, First Kill é uma homenagem muito mais condizente ao folclore do que grande parte das obras que entraram na moda no fim da década passada.

Outro ponto positivo é a representação da sexualidade de Juliette e Cal. Não há nenhum tipo de drama, receio ou questionamento sobre o fato de ambas gostarem de meninas. Tudo é tratado com muita leveza e naturalidade, escapando do arco narrativo da autodescoberta (embora, é claro, o embate familiar importado de Romeu e Julieta possa ser lido como uma analogia aos conflitos que casais lésbicos muitas vezes vivenciam em suas casas).

No entanto, para aproveitar adequadamente a conexão do casal, é preciso fazer um esforço descomunal para desviar o olhar de todos os pontos disfuncionais que tomam conta do restante da série.

É evidente que a equipe de produção teve boas intenções. A sala de roteiro fez um bom trabalho ao desdobrar o conto breve de V.E Schwab (que, inclusive, é creditada como uma das produtoras executivas) em 8 episódios de quase uma hora, com ação se desenrolando o tempo todo. Contudo, o orçamento claramente não é compatível com a história que se almejava contar.

Os efeitos especiais sofríveis (e até constrangedores em alguns momentos) talvez não saltassem tanto aos olhos se First Kill não se levasse tão a sério. Outros títulos do gênero, como Wynonna EarpCarmilla, e até mesmo Buffy, também não contavam com verbas altas o suficiente para oferecer a qualidade gráfica de um blockbuster hollywoodiano, mas tinham a presença de espírito de rir de si mesmas, transformando pontos que poderiam ser encarados como fraquezas em piadas internas repletas de ironia e sarcasmo. A nova empreitada teen da Netflix, por sua vez, se comporta como se fosse mais reverente do que deveria ser. É o tom constante de algo veiculado pela CW ou pela falecida ABC Family, que se vê com uma importância incompatível com o que é tecnicamente capaz de entregar.

Boa parte dessa problemática parece vir da direção. O roteiro tenta desenvolver algumas ideias espirituosas, como a cena em que Juliette pede conselhos à irmã mais velha sobre sua primeira morte, em um diálogo que cria paralelos com a primeira relação sexual, ou um monólogo em que a vampira coprotagonista se diz deslocada e diferente das outras garotas (o que poderia ser brilhante, já que ela, de fato, é diferente das outras garotas, subvertendo o clichê dessa reflexão). A ausência total de timing cômico, porém, constrói todos esses momentos como passagens insossas e esquecíveis. Apesar de ganchos interessantes ao fim da temporada, nenhum dos arcos narrativos que escapam ao que tange o romance entre as protagonistas chama atenção.

Em muitas instâncias, First Kill sabe perfeitamente com quem está dialogando: jovens lésbicas e bissexuais que querem se enxergar num casal instigante e envolvente. No entanto, para sobreviver às suas próprias falhas e ganhar o fôlego exigido pela longevidade, vai ter que começar a se esforçar de verdade numa eventual segunda temporada.





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