Curiosidades - Publicado em 18.abr. 22

O legado de Eleanor Roosevelt foi a ressignificação do papel da primeira-dama nos Estados Unidos. 

Como esposa do presidente Franklin D. Roosevelt, a nova-iorquina ocupou o posto de 1933 a 1945 — a permanência mais longeva até o momento, visto que seu marido foi o único a permanecer no cargo de chefe de Estado por quatro mandatos. 

Durante esse período, a atuação de Eleanor provocou controvérsia entre o eleitorado, principalmente na parcela burguesa e conservadora. Subvertendo o comportamento esperado de uma mulher em sua posição social, ela usou sua visibilidade para defender os direitos humanos e a equidade, sobretudo para a comunidade afro-americana. Na época, a segregação racial impedia legalmente que pessoas negras fossem reconhecidas como cidadãs e ocupassem diversos espaços públicos. 

Quando a estrela da ópera Marian Anderson foi impedida de cantar na Sala da Constituição, em Washington, por conta da cor de sua pele, Roosevelt viabilizou a realização do recital nas escadarias do Memorial Lincoln, outro marco histórico da capital do país. A apresentação se tornou um símbolo da resistência contra a estrutura racista que ainda ameaça a existência de estadunidenses negros diariamente. 

THE FIRST LADY
Gillian Anderson as Eleanor Roosevelt

Embora não existam dúvidas sobre o trabalho de Eleanor como uma aliada de minorias sociais e defensora da justiça social, uma questão sobre sua vida dividiu biógrafos e historiadores através das décadas: a relação com a jornalista Lorena Hickok, a quem chamava carinhosamente de Hick. 

Ao que tudo indica, a série antológica The First Lady, cujo primeiro episódio chegou no último domingo (17) ao Showtime, nos Estados Unidos, e no serviço de streaming Paramount+ para o resto do mundo, parece disposta a navegar por essas águas e trazer sua perspectiva sobre a relação passional de cumplicidade que se estabeleceu entre a dupla. 

Eleanor e Lorena: milhares de cartas românticas que não foram o suficiente para convencer pesquisadores

Durante os 30 anos em que fizeram parte da vida uma da outra, Lorena e Eleanor teriam trocado cerca de 4 mil cartas, cautelosamente guardadas em caixas na biblioteca dos Roosevelt. Alguns envelopes chegaram a armazenar até 15 páginas.

Boa parte da comunicação tinha como pretexto a biografia que Hickok estava escrevendo. O livro, que acabou se tornando uma memória da confidência entre elas, foi publicado em 1962, com o título Reluctant First Lady. Contudo, com o passar dos anos, as declarações afetuosas entre as mulheres se tornaram cada vez mais explícitas e frequentes, sugerindo uma intimidade incompatível com uma amizade fraternal e menos ainda com uma relação estritamente profissional. 

Em 11 de março de 1933, por exemplo, Eleanor escreveu, em tradução livre:

“Sinto muito a sua falta, querida. O melhor momento do dia é quando escrevo para você. Sei que você tem passado por um momento mais turbulento que o meu, mas acho que só sinto muita saudade. Não consigo aguentar a ideia de que você esteja chorando antes de dormir. Ah! Como eu queria te envolver com meus braços na realidade, e não apenas em espírito. Em vez disso, eu beijei sua fotografia e meus olhos se encheram de lágrimas. Por favor, mantenha a maior parte do seu coração em Washington enquanto eu estiver aqui, porque a maior parte do meu está com você”.

Já em 5 de dezembro de 1933, foi a vez de Lorena escrever: 

“Só mais oito dias. Daqui a 24 horas, serão só mais sete — só uma semana! Hoje, tentei pensar no seu rosto, para lembrar de como você é. É engraçado como esquecemos até o rosto mais lindo com o tempo. Me recordo mais claramente dos seus olhos, com uma espécie de sorriso instigante, e a sensação daquele canto macio mais ao norte da sua boca pressionado contra os meus lábios. Me pergunto como vai ser quando nos encontrarmos —  o que vamos dizer. Bem, estou orgulhosa de nós. Você está? Acho que nos saímos muito bem”.

Reprodução: Paramount+ e Showtime

Hickok e Eleanor se conheceram alguns anos antes dessas mensagens, em 1928, quando Lorena foi designada pela agência de notícias Associated Press para entrevistar a (então) futura primeira-dama. As duas logo se tornaram grandes amigas. Hick passou a frequentar a casa dos Roosevelt aos domingos e, durante a semana, as mulheres se encontravam várias vezes para ir ao teatro. 

A estimativa é que o relacionamento tenha ganhado nuances românticas a partir de 1932. Neste ano, a dupla passou a se ver quase todos os dias e a embarcar para longas viagens até Nova York. Em Albany e Manhattan, andavam em carros reservados só para elas, tomavam café-da-manhã juntas em quartos de hotel e discutiam política até tarde da noite enquanto jantavam. 

Em algum ponto dessa época, Lorena chegou a presentear Eleanor com o anel de safira que, de acordo com o livro No Ordinary Time, foi usado pela primeira-dama na posse de Franklin Roosevelt, em 4 de março de 1933. É muito provável que seja a mesma jóia a que Eleanor se refere numa carta escrita em 7 de março, dizendo: “Seu anel é um grande conforto. Olho para ele e penso ‘Ela me ama. Se não amasse, eu não estaria usando isso!'”.

Mesmo com todas essas evidências, assim como aconteceu com outros casais de mulheres dos séculos passados, historiadores se mostraram céticos com a natureza romântica do relacionamento. O tópico foi tema de discussão durante as décadas de 80 e 90. 

Um consenso só passou a se desenhar entre o público em 1998, com a publicação das cartas, que estão compiladas no livro Empty Without You. O avanço do debate se reflete em um artigo veiculado na The New York Review of Books em 2012: “Parece inquestionável que a relação de Hickok era profundamente erótica considerando o que se sabe sobre a correspondência que foi trocada”.

Conforme os deveres políticos de Eleanor se intensificaram, menos tempo livre houve para que ela pudesse encontrar Lorena. O afastamento se ampliou de maneira irreversível com o início da Segunda Guerra Mundial, em 1939. Em 1942, Hick começou a se relacionar com a juíza Marion Janet Harrion, colocando um ponto final definitivo em seu affair com Roosevelt. Mesmo assim, as duas seguiram trocando cartas esporadicamente até a morte da primeira-dama, em 1962. 

Em The First Lady, Eleanor Roosevelt é interpretada por Gillian Anderson. Já Lorena Hickok fica a cargo de Lily Rabe. Os episódios deverão chegar à Paramount+ semanalmente, todos os domingos. 





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