Uncategorized - Publicado em 04.jan. 22

A falta de representatividade homoafetiva feminina no audiovisual é uma pauta recorrente entre os grupos na internet, a comunidade homoafetiva em geral sempre se queixou da não representatividade no audiovisual, seja ela nos filmes, séries, e nas telenovelas. De fato uma representação não supre a lacuna causada pela escassez de representatividade homoafetiva feminina e faz com que mulheres pertencentes a tal grupo se tornem mais atentas sobre de que modo estão sendo retratadas nessas narrativas, se ela se desenvolve além da narrativa da descoberta, se irão sobreviver, e qual a perspectiva de quem escreve essas histórias. 

O tempo todo somos ensinados pelo modelo patriarcal que devemos namorar, casar, ter filhos e viver felizes para sempre, esse modelo é reforçado a todo momento através de livros, filmes, séries, músicas etc. No entanto isso acaba não sendo oferecido a todos, uma vez que, casais homoafetivos na maioria das vezes não conseguem se enxergar nesse espaço fora de uma narrativa de  descoberta da sexualidade e de retratar tais personagens apenas na fase da adolescência como se a vida do LGBT acabasse depois que ele se descobre membro da comunidade. No cinema Indiano temos alguns exemplos de como a homoafetividade feminina é vista na sociedade e inserida na obra.  Em,  Fire – 1996  (em português, Fogo e Desejo), da cineasta indiana Deepa Mehta, o filme aborda diversas temáticas que ainda são tabu na Índia: casamento arranjado, sexualidade e amor entre mulheres. 

Nele Rahda é casada com Ashok, eles são donos de um restaurante e  Rahda  faz tudo do lugar. Cozinha, limpa e ainda cuida da casa e da sogra, mesmo assim Rahda é desprezada pelo marido por ser estéril, tal ato é recheado de machismo. Um dia, o irmão de Ashok, Jatin, vai com sua noiva Sita para morar com o irmão e a cunhada. Sita insatisfeita com sua relação e com ser trocada por outra mulher se aproxima de Rahda, insatisfeitas e solitárias com seus casamentos, iniciam uma amizade que logo se transforma em amor, dando um novo sentido à vida de ambas.

Outro filme a ser lembrado é Margarita com Canudinho, de Shonali Bose. O filme que tem seu início na cidade de Deli, na Índia, conta a história de  Laila , uma jovem com paralisia cerebral e cheia de vontade de viver. Em certo momento, ela decide estudar e morar em Nova York, mesmo contra a vontade do pai ela vai apoiada pela mãe que mora com a filha temporariamente até que a Laila conhece Khanum, uma ativista deficiente visual. Elas se tornam grandes amigas e descobrem um sentimento mútuo de amor, quando resolvem morar juntas e construir uma relação. Mesmo amando muito sua parceira Laila tem receios de revelar aos pais sobre sua sexualidade e sua relação homoafetiva levando em consideração o contexto de sua família e país, mas Khanum a apoia e conversa sobre sua experiência de contar aos seus pais sobre sua orientação sexual.  

Os filmes citados anteriormente foram produzidos antes de 2018, ano em que os relacionamentos homossexuais foram descriminalizados na índia. Mesmo em sua maioria partindo da “narrativa da revelação”, um conjunto de situações onde o ápice da narrativa do personagem em questão se concentra no momento em que o homossexual revela à sociedade a sua opção sexual, tais filmes foram extremamente importante para que em 2019 a produção “Ek Ladki Ko Dekha Toh Aisa Laga”, que mesmo seguindo um pouco da linha da revelação traz componentes importantes quando se trata de homoafetividade na índia. 

Muito se ouve a frase “representatividade importa”, mas tratando-se da narrativa de homoafetividade feminina no audiovisual a representatividade vai além da simples ocupação de um local como para tal personagem. De maneira fria, se olharmos no dicionário, a “representatividade” está ligada diretamente a representação política, ou seja, não se trata apenas da representação simbólica e imagética daquele grupo mas principalmente diz respeito a ter poder de escolha, estar nos espaços de decisão, e mudar estruturalmente algo socialmente aceito. Em sua maioria quando casais homoafetivos  aparecerem, e se aparecerem, os personagens não retratam de fato a realidade homoafetiva, talvez porque a cota que preenche o personagem LGBT, dando lugar á um ou dois, faz com que todos os dramas de vida dele seja apenas relacionado à sua sexualidade. 

Isso alinhado ao fato de que na maioria das produções existem um homem na história, seja ele diretor ou escritor, faz com que a mulher homoafetiva seja retratada de uma ótica muitas vezes sexualizada ou que tenha um final trágico como se fosse uma lição de moral pela sua orientação sexual. Mulheres homoafetivas sabem da existência de outras mulheres homoafetivas, no entanto a ficção, principalmente em um país subdesenvolvido como a índia onde o cinema de rua é uma das principais fontes de entretenimento da população, tem esse poder e dever representativo além de uma forte influência nas nossas emoções. É através dessas representações que meninas, muitas vezes que não se aceitam, conseguem entender que é possível ter um relacionamento afetivo com uma mulher, amar outra mulher e que isso não é errado ou uma doença

Ek Ladki Ko Dekha Toh Aisa Laga: COMO ME SENTI QUANDO VI AQUELA GAROTA.

Lançado em 2019, um ano após a descriminalização da homossexualidade no pais com o banimento de lei da era colonial contra a homossexualidade na Índia, o  filme de  Shelly Chopra “Ek Ladki Ko Dekha Toh Aisa Laga” (Como eu me senti quando vi aquela garota / How I felt when I saw that girl), é um típico musical Indiano que conta com muita música, dança, casamento e diversão. Indo contra a história clichê de “me apaixonei pela minha melhor amiga”, a produção que conta com uma das maiores estrelas do cinema Indiano, a atriz e ativista Sonam Kapoor, já conhecida por seu papel em “Quem Quer Ser um Milionário ?” tem sua trama girando em torno da história de uma lésbica que recusa os pretendentes apresentados pela família por causa de sua paixão por outra mulher.

Mesmo partindo da  “narrativa da revelação” o filme surge normalizando a relação de mulheres homoafetivas, uma vez que segue o clichê bollyowoodiano do “amor proibido”. No filme, Sweety mantém uma paixão secreta por  Kuhu, irmã de um dos pretendentes que seu pai tenta lhe arranjar um casamento mas que de certa forma também sente que algo entre elas pode acontecer.  A partir daí começa a saga de Sweety em rejeitar vários pretendentes homens a que sua família a apresenta, indo totalmente contra a tradição Indiana de casamentos arranjados. 

Tudo muda quando, durante um ensaio da peça de Sahil, um escritor de teatro que é constantemente desacreditado por seu pai, que é um diretor de cinema, Sweety entra no teatro e Sahil se apaixona à  primeira vista para, sua paixão cresce mais ainda quando ele a ajuda a escapar de um “pretendente” provavelmente perigoso e autoritário com quem Sahil entra em uma briga que e vai preso, mais tarde descobrimos ser o irmão mais velho, Baboo. Ao longo da trama descobrimos que Sweety vem de uma família conservadora e influente e seu pai é dono de uma empresa manufatureira de roupas. Seu irmão, Baboo, é um homem bruto e arrogante que sabe sobre a sexualidade da irmã e tenta convencê-la de que é errado. Sweety tenta convencer seu pai a deixá-la estudar em Londres pois lá poderia viver livremente seu amor com Kuhu sem se esconder, mas seu irmão movido por óidio e intolerancia diz ao pai que ela está se encontrando com um muçulmano, algo inaceitavel parea uma familia  família dela é hindu. Com medo de dizer a verdade ao pai, Sweety segue na mentira que só toma mais força quando movido pela paixão platônica Sahil vai atrás de Sweety em sua cidade.

Durante o filme seguimos vendo questões presentes no sistema sociocultural da India, muitas vezes machista, homofóbico e patriarcal. Balbir, pai de Sweety sonha em ser um chef de cozinha mas sofre com o preconceito de sua mãe por ser “coisa de mulher”. Quando Sahil conta a Sweety que é apaixonada por outra mulher ele fica triste porém logo eles constroem uma amizade e Sahil tenta ajudá-la e tirar o melhor da situação tendo a ideia de transformar o desfile de moda da fábrica do pai de Sweety em uma comédia musical no teatro que prega a tolerância sobre o amor entre mulheres e as protagonistas são Sweety e Kuhu. Usando do musical Sahil dá aulas sobre aceitação e não tratar homosexualidade como doença. 

As danças e músicas durante o filme tentando a todo tempo normalizar a relação entre duas mulheres, e mesmo que filmes indianos, já tenham tratados de temas gays antes como o exemplo de “Fire” em 1996 que  primeiro filme de Bollywood mainstream a ter personagens gays principais, nem todos eles têm final felizes e são bem aceitos levado em consideração o contexto cultural do país que não aceita esse tipo de relação, em 1996 fundamentalistas indianos queimam cinemas em que o filme estava sendo exibido. 

Mesmo que Sweety e Kuhu tenham seu final feliz no filme e os personagens magicamente aparecem como pessoas melhores, mais tolerantes, e menos homofóbicas, isso trata outro ponto interessante. Isso apenas acontece por hum momem heterossexual no papel de salvador. Com música de Rochak Kohli, o filme traz a levesa e alegria comum de filmes musicais indianos, durante a peça criada Sahil t grande parte do público, conservador e homofóbico saindo com nojo do teatro. Porém logo o pai de Sweety, que a rejeitou durante os ensaios, quando soube que ela e Kuhu não estavam apenas encenando, aparece arrependido e interrompe a performance, pregando uma mensagem de amor e tolerância.

Outro fator importante, além do final feliz é o filme ser escrito e dirigido por uma mulher. O que afasta todo caráter de sexualização, partindo da perspectiva da narrativa diferenciada quando temos uma escritora negra escrevendo, por exemplo, o foco de sua narrativa não será apenas na negritude como pobreza, sofrimento e tristeza. Isso porque ela provavelmente terá outro olhar sobre a narrativa. Da mesma forma, uma mulher homoafetiva teria um outro olhar para as narrativas que envolvem suas vidas e é esse um dos pontos que torna “Ek Ladki Ko Dekha Toh Aisa Laga” um filme tão memorável.





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