Colunas - Publicado em 18.dez. 21

Com mulheres na equipe da novela e Amora Mautner em direção geral e produção, há de se tirar algo positivo em toda essa reviravolta. Mesmo que a obra venha de um autor polêmico.

Por: Raquel Oliveira

Essa semana fomos pegas de surpresa. Ou já era esperado? Certo, eu não acompanhei Verdades Secretas e não acompanhei todo o desenrolar de Verdades Secretas II, só que o que aparecia na minha bolha e principalmente, toda a repercussão da desavença intensa entre Camila Queiroz e a Globo. Mas para mim, desde quando saiu o trailer de Verdades Secretas II lá em outubro, não só eu algumas pessoas nas redes sociais, já vinha notando algum tipo de “tensão” entre a personagem da Giovanna (Agatha Moreira) e Angel (Camila Queiroz). Essa tensão, claro, era dada pelo fato de Giovanna querer vingança pelo assassinato de seu pai, cometido por Angel. Giovanna passou a trama inteira em busca de destruir Angel. Entre sexo, indecências e loucuras, assim a trama foi-se levando, e o seu final não poderia ter sido diferente.

Mas intencionalmente ou não, passando um tanto despercebido, em um dos capítulos, Giovanna se imagina transando Angel. Ali já acendeu um alerta. Nós temos sonhos eróticos com as nossas inimizades? Ou é caracterizado como um desejo reprimido?

Até que chegamos na reta final, especificamente no penúltimo capítulo de VSII, e vindo assim, como tapa em nossa cara, as cenas de Angel já ajoelhada e rendida se questionando por quê todo o ódio que Giovanna alimenta por ela viralizou, e junto com isso, vemos Giovanna, também já rendida de joelhos, se declarar dizendo que a ama. De repente, mais uma vez como um tapa, tudo fez sentido. Como? Por que? O que rolou? Várias indagações foram levantadas e claro que é para tanto, afinal, foi sim sem contexto nenhum. O roteiro deixa subjetivo para nós imaginar e teorizar. Inclusive, esse texto é baseado em uma teoria do que penso.

A revelação veio acompanhada de um beijo caloroso e cheio de desejo e deixando como espécie de cliffhanger para o último capítulo, e na noite desta sexta, 17, a sex scene de Angel e Giovanna vieram como um deleite nas redes sociais, viralizando instantaneamente. Ao mesmo tempo que ficamos extasiadas (pelo menos posso falar por mim) com uma sequência tão calorosa entre duas personagens polêmicas e famosas, sabemos que cenas como essas tomam proporções, e junto com elas há levantamentos e questões apontadas. Toda essa reviravolta foi apelativa? Com certeza. Em nenhum momento houveram traços, pistas e nem abertura para algum tipo de desenvolvimento. Acaba se tornando fetichismo? Talvez – mas digo um pouco mais à frente nesse texto. Ambas as personagens nunca mostraram interesses mútuos a não ser o ódio compartilhado. E parando para pensar agora, certa vez, lendo em algum lugar, li uma passagem; o amor e o ódio são sentimentos parecidos, eles nos rasgam por dentro e nos sucumbe a extremos… São tão parecidos que podem se tornarem um.


Certamente, a obra de Walcyr Carrasco não trouxe essa reviravolta afim de desenvolvimentos a partir disso, dado em vista que foi colocada em um final, e o final de Angel já era certo – todos vimos a polêmica entre Camila, o autor e a emissora -, e quem o conhece sabe como em suas últimas obras, o autor trabalha com extremos e dispositivos que causam choques para concluir suas tramas. Verdades Secretas II foi assim, nem precisa de tanto para assistir a trama, afinal, tirando todas as cenas de sexo e orgias, pouco fica para falar. E buscando saber mais, não foi só Angel e Giovana que tiveram rotas mudadas, completamente diferentes da primeira Verdades Secretas, que foi ao ar em 2015, e fez sucesso no horário das 23h, e ao ganhar prêmios internacionais, a Globo logo não perdeu tempo dando aval para uma continuidade. Walcyr Carrasco preferiu dar ao espectador o sentimento de raiva, assim, nos dias atuais os quais sempre tempos opiniões sobre tudo nas redes sociais, os comentários viralizam, e quanto mais viralizar, mais views a obra tem.

Quando a pauta fetichismo é colocada, temos que considerar, já que a indústria e a sociedade, tomada e dominada por homens cis só tem a aproveitar isso. Mas vamos aos fatos, se durante a trama toda, com cenas de sexo hétero, gay e orgias, não foi tão pautado, por que só o sexo lésbico/sáfico é levado para essa pauta a ponto de ser tabu?

Nossos tweets se tornaram virais essa noite.

Vale ressaltar que a direção de arte e produção da novela foi comandada por Amora Mautner, então quem estava atrás das câmeras era mulher. Em uma entrevista, Agatha disse sobre as cenas de sexo serem dirigidas por mulher; “É diferente ser dirigida por uma mulher em cenas tão íntimas, sabe? Trazer uma mulher na direção é muito bom.”, em comentário sobre ser seguro e mais confiante com uma mulher na direção. Afinal, o olhar feminino atrás da tela é mais delicado e menos fetichista.

Apesar de o roteiro de VSII não ter sido bom, para não dizer ruim, é válido ressaltar o belíssimo trabalho entre as atrizes, vindo da parte de Agatha que provavelmente tirou “leite de pedra” dando a sua personagem amarras plausíveis para que toda essa reviravolta olhada à primeira vista sem sentido, tenha alguma veracidade em seus sentimentos reprimidos. E quanto a Angel, todos os aplausos para Camila Queiroz, que se mostrou uma atriz de primeira, quando todos falavam que era uma atriz mediana, ela prova que na verdade, estava fazendo sua Angel manipuladora, aproveitadora, sujeita a se adaptar a qualquer situação. Isso serviria até de estudo de personagem, mas esse texto não é sobre isso.

Emulando as sex scenes de Azul é a Cor Mais Quente, a sequência de sexo entre Angel e Giovanna, dirigida por Amora Mautner, com bastante iluminação e posicionamento de câmeras estratégicos, ao meu ponto de vista, é interessante, devido a entrega de ambas as personagens ao desejo reprimido sendo saciado. Há também algo a se considerar, produções fora do eixo hollywoodiano (que não são independentes) e que são internacionais, são com mais entrega entre as atrizes. Não é querendo nos gabar, mas já fazendo (rs); as atrizes latinas entregam mais intensidade do que só selinhos em algumas produções hollywoodianas. E VSII teve essa liberdade ao ser a primeira novela da Globo para o formato streaming. Afinal, é outro público, e um público que já é familiarizado com seriados.

Quanto a Camila Queiroz, é de entender o motivo pelo qual ela teve objeções quanto ao final de sua personagem, esse é um ponto que não saberemos ao certo, sua personagem, tão polêmica merecia mais.

Mas no fim, o que podemos tirar de tudo isso? Que mesmo tendo migalhas nas obras nacionais, quando nem um beijo é transmitido na TV para não gerar polêmica por parte de conservadores, é notável que ao menos nós por aqui, consumidores de seriados, aceitaremos de bom grado caso tenha futuras histórias nacionais, claro que desenvolvimento, de mulheres se relacionando nesse novo formato que a Globo está fazendo – já temos inclusive, em Aruanas as entregas das personagens de Camila Pitanga e Elisa Volpatto. E como essa história de “enemies to lovers” rende, né?! Mas isso já deixo para uma outra pauta futura.

Deixo aqui em registro as minhas sinceras admirações a Agatha Moreira e Camila Queiroz, que mesmo tendo tanta superficialidade em mãos, conseguiram transmitir em cena a sinceridade e entrega em entre suas personagens, ao ponto de toda a situação ainda que jogada sem contexto, tenha sido plausível aos nossos olhos, a ponto de nos fazer lamentar por não termos aproveitado toda essa atmosfera magnética.





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