Crítica - Publicado em 10.dez. 21
Diretor: Leigh Janiak
Gênero: Terror
Duração:
Ano: 2021
Sinopse:

Após uma série de assassinatos brutais, um grupo de adolescentes enfrenta uma força maligna que aterroriza uma cidade há séculos.


Acontece que na Parte 1 enquanto Deena está determinada a salvar sua amada em meio a tantas mortes, caos e gritaria junto a turma dos outros coadjuvantes que são carismáticos e inteligentes, o roteiro acaba perdendo fôlego na narrativa, até porque é de entender, há outros dois filmes para serem contados, Janiak não quer entregar tudo no primeiro, claro. Ela precisa ter algumas cartas na manga.

Por: Raquel Oliveira

Primeiro de tudo, se lésbicas/sáficas vivem dramas constantes nas produções cinematográficas aí afora, é claro que elas não iriam ter sossego em uma história de terror, né? Dessa vez, fomos presenteadas com três filmes para nos mostrar isso. Mas até que não foi desastroso.

Fazendo homenagem-tributo ao slasher (subgênero do terror), a trilogia Rua do Medo chegou em 2021 na Netflix com um formato/evento o qual a plataforma está testando; fazer longas-metragem caminharem em uma linha tênue que flerta com o formato minissérie. No caso de Fear Street, em inglês, as três partes foram lançadas em três semanas, logo, essa produção poderia ser bem caracterizada como minissérie de três episódios, e que ainda assim, seria bem executada. Baseada em uma série de livros de R.L. Stin, ainda que seja, a adaptação cinematográfica conta com um roteiro bastante original e uma história à parte da série de livros. Isso porque a co-roteirista e diretora, Leigh Janiak, junto com sua equipe de roteiristas, se inspiraram nessas histórias que apenas serviram de base para dar originalidade as produções.

Rua do Medo é um slasher “neon cult” que se passa em três períodos de tempo (1994, 1978, 1666) com a premissa da maldição de Sarah Fier que assola a cidade de Shadyside por séculos com possessões e mortes. O pontapé inicial da trilogia acontece no ano de 1994, e quem nos apresenta a história é um grupo de adolescentes que para sobreviver a essa maldição, precisa saber o que causou a origem, para portanto, quebrá-la.

Shadyside é uma cidade onde tudo de ruim já acontece no cotidiano, nada prospera, há altos índices de homicídios, roubos.. Logo, quem nasce em Shadyside, já é condenado a não prosperar na vida. Sunnyvale é a cidade vizinha, onde literalmente acontece todo o oposto. Cidade alegre, os privilégios de se morar lá vão desde a uma boa moradia, passando por uma boa educação e bom emprego. A rivalidade entre os jovens adolescentes dessas duas cidades é constante durante toda a trilogia. Quem nos apresenta isso é Deena (Kiana Madeira) e Sam (Olivia Welch). Deena vive em Shadyside e Sam, que antes era sua namorada, foi morar em Sunnyvale, elas terminaram o romance e Deena é bastante chateada com isso. O que não se sabe é que indiretamente (ou não), quem causou a rivalidade dessas cidades foi a própria Sarah Fier. Mas enquanto “1994 – parte 1” de Rua do Medo não aprofunda isso, somos levados ao ponto de estopim que começa a trilogia; quando em um desses eventos dentre os adolescentes rivais, um acidente acaba despertando a maldição de Sarah Fier, e entre eles Sam é possuída. É a partir de quando a maldição chega para Sam que Deena leva o espectador para um tempo de 1 hora frenética, caótica e insana de morte, sangue, neon e muita referência aos filmes slashers dos últimos tempos.

Leigh Janiak presta bastante tributo a filmes slashers populares que conhecemos, na parte 1 temos grandes referências a “Pânico” e “Halloween”, por exemplo. A trilha sonora e toda a ambientação está dizendo “estamos nos anos 90”, e há também muitas luzes neon, que contrastam com o sangue – isso é nos apresentado na introdução do filme. É um método chamativo da linguagem do roteiro que quer dizer que aqui é uma história totalmente adolescente e jovem, não há adultos. E quando digo que não há adultos, é porque não há mesmo. Tanto a presença nula dos pais desses jovens como a onipresença da polícia é colocada aqui de forma bem clara. Mas engana-se que isso é um furo do roteiro. Não é. Janiak está apenas prestando seu tributo aos slashers que conhecemos, que são assim. Ela quer nos dizer que a presença de adultos, só são convenientes para duas coisas: mortes ou ponto de interesse na história. Isso apenas nos outros dois filmes é dito.

Acontece que na Parte 1 enquanto Deena está determinada a salvar sua amada em meio a tantas mortes, caos e gritaria junto a turma dos outros coadjuvantes que são carismáticos e inteligentes, o roteiro acaba perdendo fôlego na narrativa, até porque é de entender, há outros dois filmes para serem contados, Janiak não quer entregar tudo no primeiro, claro. Ela precisa ter algumas cartas na manga. Então ela faz Deena ir atrás de Cindy, única sobrevivente, de um massacre que tem a ver com Sara Fier, que foi em 1978.

Na “1978 – Parte 2” da trilogia de Rua do Medo, através de Cindy, a diretora volta na cronologia de Shadyside em um flashback que se distancia da premissa inicial do primeiro, mas para aprofundar mais sobre a maldição de Sara Fier. O tributo aos slashers continua com grandes referências como a “Sexta-feira 13” e muito Stephen King, não só no primeiro como no segundo filme. A dificuldade de um filme de meio em uma trilogia é manter o espectador entretido, então, Janiak apresenta novos rostos à história como Cindy e Ziggy Berman (Sadie Sink) protagonistas e irmãs, e todo um elenco não visto no primeiro. As irmãs estão em um acampamento de verão chamando Nightwing que reúne os jovens de Shadyside e Sunnyvale. Aqui, a rivalidade entre as cidades é mais aprofundada e em meio a plot twists e eventos traumáticos, o acampamento acaba sendo palco de um massacre, que acaba sendo também revelador e ponto chave para contar os eventos do terceiro filme. Diferente do primeiro, a Parte 2 conta com mais sangue e mais brutalidade, apenas para contar o que já sabemos; a maldição assola essa cidade há mais tempo que se imagina. Mas para mim, de certa forma, é melhor que o primeiro, e tem um grandioso trabalho de som.

Quando chegamos finalmente a última parte de Rua do Medo, não só voltamos mais no tempo na cronologia, como também somos impactados com o rodízio de personagens em outros papéis para mostrar um traço de identidade com o tempo pretérito lá do primeiro filme, fazendo assim, como se Deena e Sara tivessem as mesmas semelhanças de identidade e vivessem os mesmos conflitos, ainda que a margem de tempo seja de séculos. O capítulo final nos da todas as repostas sobre todas as histórias, Sarah Fier e mortes, e o motivo da desigualdade social entre as duas cidades. E conta com o dispositivo de mais plot twists, fazendo-nos concluir que no fim, Sara Fier não foi totalmente a vilã e o mal durante todo esse tempo. Que o que aconteceu com ela foi causado por algo sintomático que assola a humanidade desde sempre; a intolerância e o preconceito. Em Parte 3 de Rua do Medo, o roteiro se prende às reviravoltas, nos da todas as respostas e reserva um tempo para voltar ao tempo de 1994. Agora com tudo esclarecido, Deena tem em mãos o poder de acabar com a maldição, que no fim, não era de Sarah Fier, mas que precisa haver um ponto final em tudo isso.

Deena é uma protagonista que se mostra determinada e disposta a literalmente cavar atrás dos passados mais podres obscuros de duas cidades para salvar sua amada – custe o que custar. Mesmo que isso tenha que valer a vida de seus amigos.

Rua do Medo é um terror neon slasher em que a turma é extremamente inteligente que tem seu ápice em um shopping (não posso esquecer dessa referência a nossa tão amada Stranger Things), mas eventualmente a galera acaba morrendo. E é um entretenimento puro, ainda que seja slasher +18. É uma grandiosa carta de amor de Leigh Janiak para o subgênero, e a coloca na rota do slasher contemporâneo. Foi bom assistir as várias referências às produções de terror que revolucionaram não só o gênero, mas também seus subgêneros. E foi interessante assistir a um ambicioso trabalho de uma diretora mulher que teve todo o espaço e liberdade criativa em uma gigante do streaming.

Nota
Rua do Medo: 1994 – Parte 1: 7/10
Rua do Medo: 1978 – Parte 2: 7.4/10
Rua do Medo: 1666 – Parte 3: 7/10

Trilogia: 7/10





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