Crítica - Publicado em 08.out. 21
Diretor: Céline Sciamma
Gênero: Romance, Drama
Duração: 2h
Ano: 2019
Sinopse:

Marianne é uma jovem pintora na França do século 18, com a tarefa de pintar um retrato de Héloïse para seu casamento, sem que ela saiba. Passando seus dias observando Héloïse e as noites pintando, Marianne se vê cada vez mais próxima de sua modelo.


Assista o trailer:

Figurinos, luzes, cores, ambientes, posturas, olhares, entrosamentos, diálogos.. fazem parte do que Portrait foi chamado durante toda a temporada de festivais de 2018, e ainda é: “Como uma pintura em movimento”.

“Do all lovers feel they’re inventing something?

Mesmo esnobado pelo Oscar, o longa francês por onde passou nos festivais de cinema, não deixou de ser imensamente aplaudido, consagrado e aclamado pela crítica especializada. Vencedor do prêmio de Melhor Roteiro e Palma Queer (obra temática LGBT) no festival de Cannes, talvez até hoje eu não consiga expressar o quão incrível e tocante foi a experiência de apreciar essa obra cinematográfica. 

Drama lésbico de época, Retrato… se passa na França pré-revolução em pleno tempos conservadores e patriarcais do século 18. A premissa da história gira em torno de Marianne (interpretada por Noémie Merlant), jovem pintora que aceita o desafio de ser contratada para pintar o retrato de casamento de Heloise (a atriz – e também bissexual na vida real – Adèle Haenel), que esta por sua vez, se recusa a posar para uma pintura. O que Marianne não contava, era que ao observar secretamente a sua modelo, algo a mais viria a despertar de forma avassaladora.

Portrait… é um filme sem tantos diálogos, o que faz ficarmos vidrados e atentos nos aspectos adjacentes que a trama nos envolve, nos levando também a observar as posturas incríveis e técnicas das atrizes; no qual juntas, funcionam tão bem que conseguem transmitir através da tela a intensidade da relação entre elas. Não é um filme apressado e de início pode parecer arrastado, mas aqui, apesar de na história haver um tempo cronometrado, Sciamma nos deixa contemplar de forma que chega a ser voyeurismo, e deixa fluir o entrosamento de suas protagonistas. Com uma atenção explicitamente voltada para cinematografia e filmado especificamente para preservar e ressaltar as cores, toda os 121min de filme nos faz ter impressão que cada plano foi montado minuciosamente pensado, e com isso, Sciamma deixa bem claro: o feminino é o único presente. E isso, também de certa forma, reflete na parte técnica de produção, uma vez que elenco e equipe é predominantemente feminina. 

A direção de fotografia não poderia deixar de ser comentada. Neste longa, as cores e ambientes são tão intensos e belos que chegam a ser parte do filme, fazendo quase que coadjuvante, e às vezes, tão brilhantemente lindo que rouba a atenção. Aqui, as cores, a textura, desde os ambientes extremamente iluminados durante o dia e escuros e frios durante a noite, a escolha das cores dos figurinos das suas protagonistas, sendo o azul marinho e o verde a impenetrável personalidade de Heloise, contrapondo com o vermelho o ardente e apaixonante de Marianne, moldam as características pessoais de suas protagonistas. Figurinos, luzes, cores, ambientes, posturas, olhares, entrosamentos, diálogos.. fazem parte do que Portrait foi chamado durante toda a temporada de festivais de 2018, e ainda é: “Como uma pintura em movimento”. A trilha sonora, ainda que modesta, também está presente fazendo parte dos momentos de memória e recordações entre suas protagonistas. Não posso deixar de mencionar a simbologia através do mito grego de Orfeu e Eurídice, fazendo com que os minutos finais sejam tão tocantes e emocionantes, que apesar de ser melancólico, nos traz a sensação de afago e contentamento agridoce.

O amor é eterno e sobrevive, ainda que seus dois não fiquem juntos. 

O grande trunfo de Retrato de Uma Jovem em Chamas é o fato do filme ter sido escrito e dirigido por uma mulher – e diga-se de passagem, uma mulher LGBTQ. E protagonizado por uma atriz Bissexual, sendo de tal forma representativo, fazendo com que o longa conseguisse se tornar superior a outros filmes da mesma temática, como Carol (o que eu amo!), Disobedience, e até do seu colega francês Azul é a Cor Mais Quente. Não que os outros filmes sejam ruins, cada um tem o seu olhar através do relacionamento homoafetivo, mas nesse caso, o toque, delicadeza e o olhar feminino através das câmeras, sem fetichizar o erótico, faz com que o entendimento emocional e o próprio erotismo seja transpassado de forma intensa e visceral.

Retrato de Uma Dama em Chamas é sem dúvidas um dos melhores filmes que eu já assisti. Não é alegre, mas tem suas cores. E literalmente, assim como uma pintura num quadro que tem suas pinceladas de camada em camada, de forma atenciosa, é uma obra audiovisual bonita, respeitosa, intensa, sentimental, com simbologias e sutileza com um encanto estarrecedor.

Por: Raquel Oliveira





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